FHC mudou a economia; Lula priorizou o social; Marina fará a reforma política?

Ao atacar “tudo aquilo que está aí”, a candidata do PSB/Rede se impõe a condução de uma tarefa tão importante quanto difícil: comandar a mudança do sistema político-eleitoral em meio a partidos e eleitores viciados

 

Fernando Henrique foi o presidente que priorizou a estabilidade econômica; Lula deu resposta aos anseios sociais; Marina, como eventual presidente, tem reforma político-eleitoral como missão

Fernando Henrique foi o presidente que priorizou a estabilidade econômica; Lula deu resposta aos anseios sociais; Marina, como eventual presidente, tem reforma político-eleitoral como missão

Elder Dias

Se o pensamento de Marina Silva que a levou a organizar um partido e depois se tornar candidata a vice-presidente na chapa de Eduardo Campos (PSB) pode ter o que se chama de “discurso fundador”, isso foi proferido no dia 22 de janeiro de 2013. Por 20 minutos, ela descreve, a uma plateia de cerca de 200 pessoas, o que pensa da política e o que imagina para o futuro de um movimento que precisava tomar a decisão de como agir pragmaticamente no contexto eleitoral brasileiro. Ainda sem esse nome, estavam ali decidindo pela criação da Rede Sus­tentabilidade, o partido do qual Marina é sem ainda nunca ter sido e que prega um novo conceito de fazer política.

Podem ser pinçadas várias frases do que Marina disse naquela noite. “Várias brasas juntas podem juntar calor suficiente para dispersar e aquecer uma sala”; “A sociedade diversa não cabe dentro de um partido”; “Esse processo tem de ser de todos nós, senão não será realmente novo”. O vídeo na íntegra, que circula na internet, dá por vezes a impressão de que estamos ouvindo Caetano Veloso explicando alguma coisa. Ou não.

Mas, a síntese de tudo o que parece espraiado está em um trecho da fala da hoje candidata à Presidência: “Quais os ideais que nos agregam? A sustentabilidade, o profundo questionamento da forma estagnada do fazer política, do ‘poder pelo poder’. O poder e o partido não têm um fim em si mesmo, são instrumentos.” Em um jogo quase poético Marina falava — como repetiria depois, como lema — em um País “economicamente próspero, socialmente justo, culturalmente diverso”, com “sustentabilidade econômica, social, ambiental,política e ética”. São palavra bonitas e utópicas — e, quem sabe, bonitas exatamente por isso.

Nesse mesmo discurso, Ma­rina tenta apresentar o que considera ter havido de bom nas gestões dos dois partidos que dominaram o poder nos últimos 20 anos. “Durante muitos anos, o PSDB maturou a ideia de acabar com a inflação e de estabilidade econômica e temos de associar a eles essa contribuição. O PT martelou durante mais de 20 anos a ideia da justiça social e hoje nosso País não só conseguiu debelar a inflação, mas também começou um processo vigoroso de inclusão social”, enfatizou.

É importante refletir sobre como a ex-senadora posiciona os períodos tucano e petista à frente do comando do Brasil. Em suma, duas reformas. Para Marina, o PSDB foi o partido que executou uma espécie de reforma econômica nacional, o que pode ser observado em ações como a implantação do Plano Real, as privatizações, a reforma da Previdência e a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF). Já o PT se incumbiu de uma reforma social. Para tanto, usou dos mais diversos programas de inclusão, a partir das cotas raciais, passando pelo Minha Casa Minha Vida, o Mais Médicos, o Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pro­natec) e dos quais o Bolsa Família é o maior símbolo. Os companheiros petistas souberam aproveitar o bom momento para o País e fizeram emergir o que chamaram, talvez exageradamente, de “uma nova classe média”. O fato é que o Brasil mudou, nas cidades e nos rincões.

Os méritos que distribui àqueles dos quais pode se tornar a sucessora vêm junto com cobrança. Uma cobrança de Marina que se torna compromisso: ela ataca a “velha forma de fazer política” que prevaleceu tanto com tucanos como com petistas. Dessa forma, ao mes­mo tempo, ela se impõe a condução de uma terceira reforma, importantíssima: mudar o sistema político nacional.

A “autotarefa” de Marina

É uma espécie de “autotarefa”, bastante louvável: mudar “tudo aquilo que está aí” — as aberrações do toma lá dá cá, dos escândalos, dos desvios e tudo o mais que levou os brasileiros a tomarem as ruas em 2013. O problema é que a cultura da corrupção hoje parece mais uma estrutura-instituição, tão difícil de ser derrubada como aparentava a hiperinflação dos anos Sarney e Collor. Ou tão inimaginável como fazer tornar comum assalariado viajar de avião e filho de gari entrar na faculdade. Fernando Henrique Cardoso conseguiu vencer o dragão da carestia. Sua responsabilidade nisso é inconteste. Lula e Dilma aceleraram o acesso dos excluídos aos bens de consumo e à educação de nível superior. Isso também é inegável.
Parece, então, ainda que instintivamente, que Marina pretende buscar o protagonismo de uma terceira reforma, a política. So­mente assim o conteúdo dos discursos que profere pode encontrar salvaguarda na prática. É como uma missão de vida da mística e carismática personagem.

Por enquanto, o cenário é confuso. Alçada de uma discreta posição de vice-presidente na chapa de um partido e um candidato emergentes na geopolítica brasileira para dividir o favoritismo eleitoral com a presidente da República após a morte de Eduardo Campos, a franzina acreana está sendo duramente provada. Recebe ataques à direita, da candidatura moribunda de Aécio Neves (PSDB), a qual enterrou, e à esquerda, do grupo que está no poder e do qual fez parte até meados do segundo governo Lula. Obviamente pega no contrapé, Marina teve de se reinventar para adequar o que pensa e o projeto que representa àquilo que já estava acertado entre o presidenciável morto e seu grupo de apoiadores.

Esse é o grande problema de tudo que se pretenda “novo”. Como supunha a então oradora daquela reunião de janeiro de 2013, “esse processo tem de ser de todos nós, senão não será realmente novo”. Em primeiro lugar, atenção a uma aplicação prática da lei de Lavoisier: nada se cria, tudo se transforma. Não vai sair nada de puro da Rede Sustentabilidade — e Marina sabe disso, até porque cada um de seus integrantes tem uma história política, ou pelo menos uma rota de vida que já condiciona os rumos da nova agremiação.

Aliás, Marina não só sabe: para chegar onde está hoje, no foco central da disputa da principal cadeira do País, Marina precisou fazer concessões. Precisou, precisa e precisará. O atenuante é que ela pegou o bonde andando, mas seria da mesma forma, talvez em intensidade um pouco menor, se a condução estivesse parada. Da mesma forma, teria de fazer acordo com grandes conglomerados financeiros, teria de “conversar” com o agronegócio, teria de responder por pequenas e grandes suspeitas.

Se eleita, ex-senadora terá de materializar o “impossível”

Eleitores usam redes sociais para negociar votos: a “nova política” teria trabalho mais amplo do que parece

Eleitores usam redes sociais para negociar votos: a “nova política” teria trabalho mais amplo do que parece

Dois episódios na última semana, um de manchete nacional e outro interno a um grupo restrito de rede social, dão a ideia, cada um de sua forma, do quão difícil é a missão que a “nova política” de Marina Silva terá pela frente, caso a candidata do PSB/Rede — hoje mais PSB que Rede, e isso também é um mau sinal para a causa pretendida — seja eleita presidente da República.

No Facebook, surge uma polêmica em meio a um grupo de vendas e serviços destinado principalmente ao público feminino. Uma integrante abre um tópico tão banal quanto provocador: diz que quer vender o voto e questiona se alguém conhece quem queira comprá-lo. Não se soube se a proposta era apenas galhofa ou se tinha alguma pretensão real de informação. O fato mais inusitado não foi esse, no entanto, mas o detalhe de que a mensagem foi recebida com acolhimento por grande parte das pessoas que a leram. Algumas delas também se disseram dispostas a vender o próprio voto. Uma foi bem direta: “Algum politico aqui que queira ganhar três votos a mais? Procurar inbox [pelo bate-papo privado].”

O outro episódio foi o vazamento, para a revista “Veja”, de uma lista de nomes de políticos envolvidos em negociatas com a Petrobrás e que teria sido repassada pelo ex-homem-forte da estatal Paulo Roberto Costa para ter direito à chamada delação premiada, em busca de atenuação da pena por seu indiciamento na Operação Lavajato. Na relação, nomes já repetidos em outros escândalos, como os dos senadores Renan Calheiros (PMDB-AL) e Romero Jucá (PMDB-RR) e os governadores do Rio, Sérgio Cabral (PMDB), e do Maranhão, Roseana Sarney (PMDB). Para não dizer que não tinha gente de outros partidos, havia tesoureiro do PT (João Vaccari Neto), ex-presidente do PTB (Fernando Collor) e parlamentares do PP (senador Ciro Nogueira, do Piauí, e deputado João Pizzolatti, de Santa Catarina). Mas a surpresa foi a presença, entre os citados por Costa, do nome do ex-governador de Pernambuco E­duardo Campos (PSB). Exa­ta­mente o homem em quem Marina apostava sua parceira em busca da “nova política”.

É bom ressalvar: o que há, no momento, é apenas uma lista extraoficial, fruto de vazamento de um trabalho que deveria correr em sigilo. Há muitos passos a serem dados para apurar o que houve de corrupção na Petrobrás e pode ter havido alguma precipitação em busca do furo jornalístico. Não se sabe, por exemplo, que grau de envolvimento cada um dos citados teria. Mas é sintomático que estejam citados o presidente do Senado, Renan Calheiros, o presidente da Câmara dos Deputados, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), e um ministro (Edison Lobão, das Minas e E­nergia). São os dois esteios do Poder Legislativo federal e uma figura do primeiro escalão do Planalto que estão na berlinda.

Também não é coincidência que a maior parte dos envolvidos seja do PMDB, uma sigla que há décadas abriu mão de sua ideologia para viver à sombra da árvore frondosa do poder. É o PMDB o partido que mais simboliza a velha política combatida por Marina Silva. E é também o PMDB o partido de maior bancada no Congresso.

Em tese, o jeito PMDB de fazer política deveria significar algo a ser combatido em um governo Marina Silva (aqui é preciso parar e abrir parênteses para deixar claro que o PMDB é, na verdade, uma confederação de interesses — não dá para achar similitudes, por exemplo, entre o que pensa o gaúcho Pedro Simon, amigo e apoiador da ex-colega de Senado, e a prática política da família Sarney). Mas o que fazer? O correto, na “nova política”, seria abrir mão de tais acordos com o PMDB, que no entanto continuará a ter, em 2015, uma bancada considerável, seguramente uma das três maiores do Congresso, talvez até a maior.

E como é mesmo o modus operandi do PMDB? É trocar votos da bancada por cargos cobiçados em ministérios e órgãos escolhidos a dedo no governo federal. Assim se condiciona a dita “governabilidade”, cujo desgaste agora pesa nos ombros do PT e de sua candidata. Mas a notícia é ainda mais complicada para Marina: ocorre que não é só o PMDB que faz esse tipo de política. Até onde se sabe, os partidos que não se prestam a esse tipo de acordo são exceções. E, além de exceções, têm uma minúscula bancada. Ou talvez nem a tenham.

O carguista e a vendilhona

No fim das contas, encontram-se no mesmo barco tanto o deputado carguista como a eleitora vendilhona de votos: a nau da política viciada. Por isso não adianta pensar em alguma mudança “sonhática” sem que haja uma profunda reviravolta nesse quadro. Em termos mais diretos, uma reforma política de fato. Por tudo o que tem dito, Marina não tem outra opção a não ser efetivá-la – sem isso, é traição ao motivo nevrálgico que a terá levado ao poder.

E como poderia ocorrer algo assim, por enquanto impraticável diante de um Congresso entulhado de vícios e viciados? Somente com apoio externo, especialmente em projetos de iniciativa popular. É o caminho que tramitou a Lei da Ficha Limpa, um atalho que acabou por atropelar deputados e senadores. A eventual presidente Marina Silva teria de buscar a salvaguarda de instituições influentes como a Igreja e as entidades de classe — a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) segue puxando um projeto de reforma política — e contar com o aval do Poder Judiciário na luta contra os nichos perniciosos do Legislativo.

Uma coisa é certa: ainda que Marina Silva esteja agora fazendo um jogo mais ameno, sendo mais maleável com alguns de seus próprios princípios, devido ao lugar que agora ocupa, será por conta de seu discurso original que ela será cobrada em um eventual mandato. Seus eleitores cobrarão uma “nova política” e será isso o que definirá o destino de seu governo. Se fugir da missão que eles buscarão nela, estará condenada. Se enfrentá-la, desafiará o impossível. E, às vezes, o impossível é só aquilo que ninguém tinha ousado fazer até que alguém se habilitou a tomar a iniciativa.

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