Falta de investimento e ensino defasado derrubam Brasil no Pisa

País foi mal avaliado em leitura, matemática e ciências. Nas Américas foi melhor somente que a Argentina, República Dominicana e Panamá entre os 12 países analisados

Os resultados negativos apresentados pelo Brasil no último Programa de Avaliação de Conhecimento (Pisa, na sigla em inglês) podem ser uma pista falsa de como anda a Educação no país. No entanto, mostram que há um caminho imenso que precisamos trilhar para atingir uma realidade em que o conhecimento adquirido em sala de aula seja de fato aplicado à vida diária dos cidadãos.

No exame realizado em 2018, divulgado na última semana, o Brasil foi melhor somente que a Argentina, República Dominicana e Panamá entre os 12 países analisados no continente americano. Estudantes de 15 anos brasileiros que fizeram a prova atingiram médias de 413 pontos, no quesito leitura (57º do mundo); 384, em matemática (70º); e 404, em ciências (64º posição).

Os dados históricos mostram que o país, que participa desde a primeira edição do exame, realizada em 2000, teve uma tendência de melhora nos índices até 2012, desde então está estagnado. O exemplo mais significativo é a curva gráfica da compreensão de matemática. Em 2003, a média era de 356 pontos, foi para 386 em 2006, passou para 386 em 2009 e chegou a 389 em 2012. Então caiu para 377 em 2015 até chegar os atuais 384 pontos.

É preciso dizer o que significa essa pontuação. O exame realizado pelo Pisa não avalia exatamente o conteúdo adquirido ou memorizado pelos alunos. Ela segue as premissas da teoria da resposta ao item, ou seja, não importa quantos itens um estudante acerta. Importa mais quais são os tipos de questões que ele mais acerta — se erra fáceis e acerta uma difícil é provável que houve um chute. Um modelo semelhante é usado na avaliação do Enem.

Metodologia

O exame da OCDE estabelece alguns critérios para criar uma padronização da avaliação baseada na compreensão. Para a leitura, que foi o foco da análise do exame realizado em 2018, foram avaliados os diferentes níveis de capacidade de compreensão.

Coordenador da área de Letras, Rafael Barrozo vê falta de acesso a leitura entre jovens | Foto: Arquivo Pessoal

No caso do Brasil, 50% dos estudantes atingiram ao menos o nível 2 de proficiência em leitura, em uma escala que vai até 6. Com isso, metade dos alunos brasileiros que fizeram a prova sabe identificar a ideia geral de um texto de tamanho moderado, encontra informações explícitas e reflete sobre a forma e finalidade daquele material. A média dos países da OCDE é de 77%.

Enquanto apenas 2% dos estudantes atingiram o nível 5 e 6 de proficiência em leitura. Isso mostra que eles compreendem textos longos, sabem lidar com conceitos abstratos e contraintuitivos e diferenciam fato de opinião. A média da OCDE é de 9%.

O professor e coordenador da área de Letras do Colégio Agostiniano, Rafael Barrozo de Carvalho, afirma que essa dificuldade do aluno brasileiro com procedimentos mais complexos da compreensão de um texto é fruto direto da falta de leitura. Mesmo estando inserido em uma realidade um pouco à parte, por lecionar em uma escola particular tradicional, ele avalia que há déficit do contato dos adolescentes com a leitura e a escrita. Segundo ele, cerca de 70% dos alunos leem apenas os livros obrigatórios, não estendendo a prática para a rotina diária de vida.

A prática da leitura é estimulada na escola desde cedo e as crianças são bem participativas neste sentido, com uma curva de aprendizado boa, na avaliação do coordenador. No entanto, quando chega a adolescência algo se perde, tanto pelo contato com novas experiência, quanto a falta de ambiente propício para a leitura nas famílias e o excesso de tecnologia. “Também lidamos com uma geração que é imediatista demais. Leitura e escrita são atividades solitárias. Eles não querem ficar sozinhos”, avalia Rafael.

A escola enquanto espaço para pensar

O quadro mostrado pelo Pisa para matemática também não é animador. Cerca de 32% dos estudantes no Brasil atingiram o nível 2 em matemática, o que mostra que eles conseguem interpretar e reconhecer, sem instruções diretas, como uma situação pode ser representada matematicamente. Por exemplo, comparar a distância total entre duas rotas alternativas ou converter o preço de duas moedas diferentes. No entanto, a média geral registrada pela OCDE é de 76% dos alunos conseguirem fazer esse procedimento básico.

Por outro lado, somente 1% dos estudantes brasileiros obteve nota 5 ou superior em matemática. Isso mostra que os alunos podem modelar situações complexas matematicamente e podem selecionar, comparar e avaliar estratégias apropriadas de solução de problemas para lidar com eles. Algo bem mais abstrato e complexo. A média geral é de 11%.

Para o coordenador do programa de pós-graduação de Ensino na Educação Básica do Cepae da UFG, Marcos Antônio Gonçalves Júnior, os critérios utilizados pelo Pisa para avaliação do Ensino dos países participantes podem ser questionados. Sobretudo por que não se trata de um instrumento pedagógico, mas de um sistema de avaliação voltado para o quadro socioeconômico dos países. Ou seja, uma avaliação do mercado de trabalho.

Ainda assim, Marcos Antônio, que também é professor de matemática do Ensino Médio, considera que o exame é importante. Sobretudo por avaliar como o aluno sabe aplicar o conhecimento que adquiriu em sala de aula no contexto sociocultural em que está inserido. É nesse ponto que aparecem as fragilidades do Brasil.

coordenador do programa de pós-graduação de Ensino na Educação
Básica do Cepae da UFG, Marcos Antônio Gonçalves Júnior Foto: Jornal Opção

Para ele, as escolas brasileiras ainda não conseguiram sair da perspectiva conteudista. Aquele em que a maioria das aulas é de palestras, em que o professor fala e o aluno escuta. A princípio a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) seria uma solução para esse modelo, como trazer jogos matemáticos, história da matemática, uso da disciplina em salas específicas e em laboratórios.

No entanto, não houve avanços. A BNCC acabou virando uma lista de conteúdos a serem aplicados. “O professor tem que ser capaz de colocar os alunos para resolver um problema”, diz. “No entanto, está sobrecarregado pelos conteúdos e pelas avaliações obrigatórias, municipais, estaduais e nacionais”, lamenta.

Ele acredita que o professor tem que ter condições de colocar os alunos para resolver um problema, através de aulas mais interessantes e problematizadoras. E nisso entra as condições de trabalho, com classes menos numerosas, professores com mais tempo para aperfeiçoamento, salas específicas, laboratórios, etc.

“Precisamos pensar na heterogeneidade dos alunos. Apenas colocar conteúdo na lousa privilegia aquele estudante que tem facilidade. A sala de aula tem de ser o espaço do pensar, pois inclui a todos. Com um currículo mais flexível e mais convidativo à participação do aluno”, avalia.

O Brasil precisa atingir o mínimo em investimento para ser avaliado

Os desafios de se avaliar a educação no mundo são imensos. Sobretudo devido à quantidade de escolas, estudantes e realidades socioeconômicas envolvidas. O Pisa, promovido pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), é uma tentativa que padroniza o modo de avaliar e olhar o aprendizado a partir de premissas básicas de compreensão de leitura, matemática e ciências.

Segundo o professor do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de Goiás, Nelson Cardoso Amaral, essa padronização peca por não se atentar às diferentes realidades socioeconômicas dos países analisados. O que, para ele, é um defeito impossível de ser contornado, mas que deve ser considerado por ser o único exame a propor este tipo de comparação.

Professor de Pós-Graduação em Educação da
UFG, Nelson Cardoso Amaral, aponta problemas na avaliação | Foto: Arquivo Pessoal

Ele cita os Estados Unidos como exemplo. O país norte-americano investe 9 mil dólares por aluno, o que é considerado um valor alto. A Finlândia, que atinge o topo nos principais critérios, gasta 11 mil dólares. No entanto, os EUA ficam atrás de países como a Polônia e Coreia. Nelson aponta o fator cultural pela discrepância. Para ele, há um ponto mínimo de investimento a ser feito por um país em Educação. A partir deste número minimo, o fator cultural passa a agir.

Assim, os EUA apresentam piores desempenhos que a Coreia, mesmo investindo mais por aluno, por especificidades culturais. A disciplina oriental, a pressão familiar e a guerra educacional entre Coreia e Japão explicam melhor esse fenômeno. “Por outro lado, nos Estados Unidos há toda uma série de questões já resolvidas. Os jovens não precisam se dedicar da mesma maneira”, avalia.

É por aí que entra o caso brasileiro. O país não investe o suficiente por aluno. Gastamos apenas 2,5 mil dólares por estudante de 0 a 24 anos. Um valor que não permite com que haja investimento nos professores, nas escolas, em laboratórios e consequentemente nos métodos educacionais. “Depois que atinge aquele valor mínimo, que digo ser 10% do PIB do Brasil, o que nos levaria a investir entre 4 e 5 mil dólares por aluno. A partir daí podemos melhorar. Por enquanto, a comparação fica desigual. Enquanto não se ultrapassa a barreira financeira não há entendimento”, enfatiza.

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