Estudo que baseou quarentena em Goiás agora aponta caminhos para retorno das atividades

Pesquisa feita por diversas instituições utilizou modelos matemáticos para prever número de casos de Covid-19 em função da retomada no Estado

Ronaldo Caiado (DEM) em 20 de abril, um dia após decreto que prorrogou isolamento social

Em decreto publicado no dia 19 de abril, o governador Ronaldo Caiado (DEM) prorrogou a situação de emergência em saúde pública pelo prazo de 150 dias, delongando a proibição de aglomerações e modificando a suspensão de algumas atividades econômicas. Diversos Estados têm promulgado documentos do gênero ou irão fazê-lo em breve; mas o documento oficial goiano tem uma inovação entre outras unidades federativas.

Anexo ao decreto, há um “Relatório de Assessoramento Estratégico”, um estudo científico que foi um dos instrumentos utilizados para balizar as decisões políticas para enfrentamento do coronavírus. No documento, o objetivo manifestado é “estabelecer os critérios técnicos, com fundamentação em evidências dos estudos epidemiológicos e econômicos, para o monitoramento da política de distanciamento social no Estado”. 

Na prática, trata-se de uma exploração da situação epidemiológica e econômica do Estado por meio de modelos matemáticos que justificam a decisão de retorno à atividade de alguns setores. Para os estabelecimentos que poderão funcionar, ficou determinado também alguns protocolos de conduta. 

Diversas entidades dividiram o trabalho, que foi consultado pelo Poder Executivo para tomar as atitudes de relaxamento controlado e seguro do isolamento social: Instituto Mauro Borges (IMB) da Secretaria de Estado da Economia (SE), Secretaria de Estado da Saúde (SES), Secretaria de Estado da Economia (SE), Secretaria de Estado de Desenvolvimento e Inovação (SEDI) e da Universidade Federal de Goiás (UFG).

Modelos matemáticos

As conclusões do Relatório de Assessoramento Estratégico foram encontradas a partir de uma projeção matemática – um modelo compartimental de transmissão dinâmica da doença – que leva em consideração características específicas do novo coronavírus (Sars-CoV-2), da população e do contexto local. Segundo o biólogo José Alexandre Felizola Diniz Filho, do departamento de Ecologia do Instituto de Ciências Biológicas da UFG, este modelo é muito superior aos utilizados anteriormente.

José Alexandre Felizola Diniz auxiliou o grupo a fazer projeções matemáticas | Foto: Reprodução / UFG

“O que fazemos é construir cenários. No começo de abril, não tínhamos ideia em qual fase da epidemia nós estávamos, logo sabíamos pouco do que viria pela frente”, afirma José Alexandre Felizola, se referindo ao que se conhecia na ocasião da publicação do decreto anterior, de 3 de abril. “Na primeira versão, tínhamos dados muito preliminares e fizemos um exercício com base nos parâmetros internacionais – informações usadas por outros países. Agora conseguimos calibrar melhor uma curva de crescimento de número de casos específica para Goiás.”

Com base nestas estimativas matemáticas, pode-se chegar a uma previsão do que acontecerá – qual será o número de infectados – caso a população se comporte da maneira esperada. As primeiras estimativas, como a do Imperial College, de Londres, deram prognósticos do que poderia acontecer caso países continuassem a agir normalmente, sem que medidas de isolamento fossem tomadas. Cenários com milhões de mortos assustaram o mundo e convenceram líderes globais, como Boris Johnson, a mudar de atitude radicalmente, adotando largas medidas de lockdown. 

Novas previsões são muito mais otimistas quanto ao número de casos e de internações – não porque as primeiras estimativas estivessem completamente erradas, mas porque as medidas de isolamento funcionaram melhor do que o esperado. “Nos primeiros modelos, assumimos um efeito importante para a quarentena, mas não tínhamos ideia de que essas atitudes diminuiria tanto a curva no gráfico de infectados em função do tempo. Sabendo que estas ações funcionam muito bem, o desafio é retornar a atividade de determinados setores de forma controlada”, afirma José Alexandre Felizola. 

Epidemiologia

Cristiana Maria Toscano Soares é médica pesquisadora do Instituto de Patologia Tropical e Saúde Pública (IPTSP) da UFG e especialista em epidemiologia e avaliação de tecnologias em saúde. Ela afirma sobre Relatório de Assessoramento Estratégico, de que participou: “Setores da economia foram divididos de acordo com a Classificação Nacional de Atividades Econômicas (Cnaes). Ponderar riscos como o aumento na progressão da doença e a essencialidade de diversos setores”.

Cristiana Maria Toscano Soares | Foto: Reprodução / UFG

Cristiana Soares afirma que determinar se uma atividade é essencial pode parecer uma tarefa intuitiva, mas não é. “No final de março, verificamos que havia serviços essenciais impedidos de operar porque alguma atividade suporte estava paralisada. São serviços que estão relacionados à manutenção dos serviços essenciais. Fizemos a revisão de todas as atividades econômicas do Estado, conciliando a isto a saúde pública.”

O propósito da flexibilização de medidas de isolamento é o retorno de atividades essenciais de forma controlada, ou seja, sem que o número de casos da Covid-19 extrapole a capacidade do sistema de saúde absorver pacientes. O cálculo preciso das consequências do retorno ao trabalho só é possível com a atualização constante dos dados colhidos no dia-a-dia. “O grupo de pesquisa continuará trabalhando na modelagem, avançando para atualizar aspectos regionais e espaciais diariamente, utilizando novas evidências para calibrar o modelo”, diz Cristiana Soares.

A pesquisadora afirma que o grupo de cientistas já começou a trabalhar para avaliar flexibilização de atividades a médio prazo, avaliando o modelo para identificar quando poderão retornar ao trabalho com segurança.

Administração pública e economia

Vicente da Rocha Soares Ferreira é doutor em Administração pela Universidade de Brasília (UnB) e Secretário de Planejamento, Avaliação e Informações Institucionais da UFG. O professor explica que o grupo avaliou todas as atividades econômicas, individualmente, exercidas no Estado. “Grande parte das reavaliações diz respeito a setores que já estavam em atividade de uma forma ou de outra, como o atendimento por entrega, por exemplo. Já eram feitas entregas, mas nós regulamos e estabelecemos um protocolo a ser cumprido. Desta forma, temos certeza da segurança das atividades.”

Vicente da Rocha Soares Ferreira | Foto: Reprodução

Vicente Ferreira afirma que, em determinados momentos do estudo, houve dúvidas sobre as consequências do retorno à atividade de determinadas profissões, mas que nestes casos a segurança foi o critério de desempate: “Foi um estudo muito cuidadoso no sentido de liberar apenas atividades com que o grupo todo concordava – todos tínhamos de pensar ser uma flexibilização segura. Não foi um trabalho simplesmente ponderação da economia versus saúde. A saúde prevaleceu em casos de dúvida.”

Sobre a importância do estudo realizado, o administrador público disse tratar-se de uma pesquisa pioneira no Brasil, que nenhum outro estado tomou atitudes fundamentadas por um trabalho tão amplo quanto o feito em Goiás, e que acredita que o Relatório de Assessoramento Estratégico poderá ser replicado por outras unidades da federação. 

“Um decreto normativo é um documento formalizado, que frequentemente deixa ambiguidades e incertezas aos empresários, que não sabem se podem e como podem exercer suas atividades”, afirma Vicente Ferreira. Anexando o estudo ao decreto, o professor espera que empresários saibam exatamente se suas atividades estão liberados ou não, e o porquê desta decisão. “Essa é a novidade do nosso trabalho para tranquilizar os empresários e a sociedade também. Nós fizemos o estudo da maneira mais séria e clara possível.” 

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