“Equipe” de Ronaldo Caiado elabora plano de atraso

Autointitulado coordenador da equipe que prepara a plataforma eleitoral do senador propõe volta de programa de 40 anos atrás e ainda diz que o democrata, se eleito, vai fazer o que já é feito em Goiás

É crível um candidato a governador apresentar proposta de retomar projeto de quase quatro décadas atrás? Não, mas parece que há sim um candidato em Goiás que fará isso, o senador Ronaldo Caiado, do DEM. Pelo menos é o afirma o engenheiro agrônomo Hermes Traldi Neto, conforme entrevista ao jornal “Diário da Manhã” (DM), no início da semana passada.

Aliado do líder ruralista Caiado, Traldi, ex-prefeito de Goiatuba, na entrevista se denomina coordenador da equipe que elabora a plataforma eleitoral do senador democrata. Há muitos anos militante na política, com passagem por uns três ou quatro partidos, o engenheiro tem de mais vistoso em seu currículo a cassação de seu mandato de prefeito de Goiatuba em 2000. Ele foi tirado da prefeitura pela Câmara de Vereadores por ter suas contas rejeitadas pelo Tribunal de Contas dos Municípios (TCM).

Senador Ronaldo Caiado e engenheiro agrônomo Hermes Traldi, coordenador do plano de governo do democrata: eles estão voltados para o passado

Traldi depois disputou cadeira na Assembleia Legislativa pelo PTB, em 2002, mas não foi eleito. Chegou a ser preso em março de 2004 acusado de vender bens móveis arrecadados pela Justiça. Em 2004, ele disputou novamente para prefeito, mas perdeu para o peemedebista Marcelo Coelho.

Agora, o engenheiro agrônomo é candidato à Câmara dos Deputados, mas, como é informado na entrevista ao DM, vai compatibilizar sua agenda de candidato com as tarefas de coordenador do plano de governo de Ronaldo Caiado. A reportagem informa que Traldi está à frente de uma equipe de experimentados empresários e tecnocratas com experiência em gestão pública e vai anunciar, em breve, um documento contendo as metas, diretrizes e o programa administrativo do candidato do DEM ao governo.

Municipalismo já é praticado


Prefeito de Goiatuba, Zezinho Vieira (centro), recebe das mãos do governador Marconi Perillo e do vice, José Eliton, cheque relativo à terceira parcela de convênio de R$ 3 milhões com Programa Goiás na Frente: municipalismo

“Estamos discutindo temas e definindo uma plataforma eleitoral para ser submetida à apreciação da sociedade. Um programa de inovação e de inovação”, diz o coordenador do plano de governo de Ronaldo Caiado. Entre os temas a serem tratados no plano estão saúde, educação e saneamento básico. “Mas a especificidade da nossa visão é que as ações nessas áreas devem pressupor o protagonismo, o engajamento dos municípios.”

Traldi fala que o governo Caiado vai inverter a lógica que domina o atual governo fortalecendo as municipalidades. Certamente o ex-cassado Hermes Traldi não deve ter ouvido falar no programa Goiás na Frente, um planejamento que dá aos prefeitos o protagonismo na definição de obras e ações em suas cidades, recebendo recursos do governo estadual para isso.

Ou seja, o que o plano de Ronaldo Caiado vai preconizar já está sendo executado pelo governo estadual, no que é elogiado por prefeitos de todos os partidos, inclusive os de oposição. Goiatuba, que foi governada por Hermes Traldi, é exemplo. A cidade foi contemplada no programa Goiás na Frente.

O convênio, no valor de R$ 3 milhões, foi assinado em julho de 2017. No mês passado, a terceira parcela do recurso foi repassada ao prefeito Zezinho Vieira (PP), que recebeu o cheque das mãos do governador Marconi Perillo e do vice José Eliton. Um aditivo de R$ 1 milhão já está deliberado e o prefeito pleiteou mais R$ 1 milhão através de emenda parlamentar.

Zezinho Vieira disse que todo o recurso do Programa Goiás na Frente está sendo investido na recuperação da malha asfáltica que chegou ao seu pior estado na história do município. A parcela recebida pelo prefeito foi a terceira de dez contratadas com o governo estadual. Até o momento, 168 convênios foram celebrados com 143 municípios de todas as regiões do Estado. E na quinta-feira, 2, foram pagos mais R$ 16,1 milhões a 41 prefeituras, referentes a parcelas do convênio já firmados.

O programa Goiás na Fren­te já encaminhou convênios com 211 dos 246 municípios goianos. Dados da Secretaria de Governo (Segov) apontam que já são 143 convênios outorgados, e 88 prefeituras estão com seus processos em fase de tramitação pela Secretaria de Desenvolvimento Econômico (SED). O valor empenhado para os 211 municípios é R$ 402 milhões. Se o coordenador do programa de Ronaldo Caiado não sabe, isso se chama municipalismo.

Fortalecer agropecuária

Hermes Traldi afirma que o hipotético governo de Ronaldo Caiado fortaleceria a agricultura e o agronegócio, numa obviedade espantosa. Qualquer governo goiano, inevitavelmente, terá essa vertente como prioritária, mesmo porque o setor é o carro-chefe da economia de Goiás, assim como é do Brasil — vide o desempenho no resultado do Produto Interno Bruto (PIB) de 2017, divulgado na quinta-feira, 1º: o crescimento de 1% após dois anos de recessão só foi possível porque a agropecuária cresceu 13% no ano passado.

Nesse ponto, vale reproduzir um parágrafo da entrevista do agrônomo caiadista ao DM:
Traldi acha importante investir na diversificação da agricultura goiana. Ele chega ao ponto de propor, por exemplo, a reativação de projetos de excelência, como o de Flores de Goiás, “que foi criado pelo Mauro Borges.” Preconiza o estabelecimento, no nordeste goiano, da triticultura — plantio de trigo — e de outros grãos nobres. Para tanto, afirma, “nosso governo poderá desenvolver um programa de fomento e de desenvolvimento da cultura de trigo em Goiás.”

Pelo visto, talvez falte ao paulista de Jundiaí radicado em Goiatuba um pouco mais de informação sobre a história de Goiás. O projeto de Irrigação Flores de Goiás está localizado na região dos municípios de Flores de Goiás, Formosa e São João da Aliança. Teve início no ano de 1997 — portanto, não foi criado por Mauro Borges — e compreende a implantação de infraestrutura para irrigação de uma área 26.500 hectares para cultivo de arroz, milho, soja e girassol, entre outras culturas. E o projeto tem sido tocado ao longo dos últimos 20 anos pelos governos goianos em parceria com a União.

Mauro Borges, que assumiu em 31 de janeiro de 1961, saiu do governo em 26 de novembro de 1964, afastado por força de uma intervenção federal (o mandato terminaria em 31 de janeiro de 1966). Em seu governo planejado, na área de agricultura, Mauro estruturou o sistema de armazenagem, com a criação da Companhia de Silos e Armazéns (Casego) e do Instituto de Desenvolvimento Agrário (Idago), responsável pela experiência com os aglomerados agrourbanos, inspirado no modelo de colonização agrícola (kibutz) de Israel, além de certo estímulo à exploração do babaçu, no então norte goiano (hoje Tocantins).

Na reportagem do “Diário da Manhã”, prossegue o coordenador de plano de governo de Ronaldo Caiado: “Segundo Traldi, a retomada da política agrícola implica, ainda, a possível recuperação do Projeto Alto Paraíso, criado pelo ex-governador Ary Valadão no Nordeste goiano e desativado pelo primeiro governo Iris Rezende Machado. O projeto visa transformar a região em importante polo produtor de frutas e em larga escala.”

Dessa vez o estrategista de Ronaldo Caiado acertou. O projeto de Ary Valadão chegou a ser iniciado, mas não teve prosseguimento nos governos seguintes.
De tudo o que Hermes Traldi coloca como meta, misturando informações de forma equivocada, o que fica muito nítido é que o hipotético governo Ronaldo Caiado teria os olhos voltados para o passado, não para o presente e menos ainda para o futuro.

É significativo que o coordenador do plano de governo do democrata tenha como metas retomada de ações de quase 40 anos atrás, com planos de Mauro Borges e de Ary Valadão. Aqueles programas, se tiveram validade na época em que foram lançados, hoje não fariam mais sentido. E Traldi ainda sugere implantar um programa que já existe, o de Flores de Goiás.

Atualmente, as bases estruturais do Estado são muito diversas e exigem projetos diferentes e mais planejados. Goiás vive uma realidade de agronegócio moderno, com empresários que colocam sua produção nas principais bolsas internacionais de comercialização de commodities. Causa estranheza que um candidato que é líder ruralista e seu coordenador de plano de governo, ele também um empresário do campo, se voltem para o passado.

Única deputada do PMN apoia Zé Eliton

Eliane Pinheiro, única deputada do PMN: “Deixa o Caiado falar sozinho”

A reportagem do “Diário da Manhã” informa que o engenheiro agrônomo e empresário Hermes Traldi é filiado ao nanico PMN. E o ex-prefeito de Goiatuba fala como se o partido estivesse fechado no apoio ao senador demista Ronaldo Caiado na disputa ao Palácio das Esmeraldas. Mas a realidade não é bem essa.

A principal voz política do partido, única parlamentar da sigla na Assembleia Legislativa, Eliane Pinheiro, não apoia Ronaldo Caiado. Pelo contrário, Eliane, que é candidata à reeleição, é uma das mais aguerridas integrantes da base aliada do governador Marconi Perillo e por diversas vezes declarou que estará com o candidato governista, o vice-governador José Eliton, na eleição de outubro.

No ano passado, Eliane Pinheiro ironizou o apoio que alguns integrantes do PMN manifestaram ao senador. “Deixa o Caiado falar sozinho”, disse em entrevista ao Jornal Opção, quando questionada sobre a declaração do democrata de que seu partido estará com o senador na sucessão estadual. Eliane Pinheiro afirmou que, como deputada, sua opinião tem mais força: “Sou deputada, né, acho que sou uma liderança maior no partido, não é?”

Mais recentemente, ela disse que a oposição em Goiás segue envolvida em um debate “fulanizado” e carente de ideias entre aliados de Caiado e do deputado federal Daniel Vilela (MDB). Eliane observou que os partidos de oposição repetem, no momento, os mesmos erros que os levaram a cinco derrotas consecutivas em eleições estaduais, desde 1998, quando o tucano Marconi Perillo bateu o emedebista Iris Rezende numa virada histórica.

“Os nossos adversários estão quebrando cabeça com um debate estéril. Na base aliada ao governador Marconi Perillo (PSDB) a realidade é diferente: temos um projeto administrativo consistente e conceitos de gestão muito bem definidos para mostrar ao eleitor.”

A deputada afirmou que Zé Eliton tem muito potencial para crescer, porque ainda é desconhecido por boa parte da população. Além disso, observou, Eliton não enfrenta alta rejeição ou o desgaste por ter votado medidas impopulares no Congresso, como fizeram Ronaldo Caiado e Daniel Vilela.

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Weber

Kkk…
Tanto o governo quanto os jornalistas contratados precisarão se esforçar mais para “dinamitar” a campanha do senador.
CAIADO 2018!!!
No primeiro turno….