Em meio à crise, grupos de investidores estrangeiros estão de olho em Goiás

Estado é alvo de investimentos externos que enxergam na cadeia produtiva goiana uma plataforma segura e rentável no longo prazo. Alta do dólar frente ao real, boa infraestrutura, mineração e crescimento da demanda por alimentos são os principais atrativos

Após receber capital de fundo de investimento americano, a Creme Mel se tornou a terceira maior do Brasil | Foto: Divulgação

Após receber capital de fundo de investimento americano, a Creme Mel se tornou a terceira maior do Brasil | Foto: Divulgação

Frederico Vitor

A desvalorização da moe­da brasileira frente ao dólar, a previsão do aumento da demanda por alimentos fez investidores estrangeiros voltarem suas atenções para Goiás com a possibilidade real de concretizar investimentos para prospectar resultados a longo prazo. Apesar da crise, este fenômeno não ocorre somente no Estado mais central do País, outras unidades federativas que possuem base econômica agroindustrial também estariam no radar dos fundos de investimento.

Outro tipo de investimento que ocorre é em carteiras, ou seja, aquisição de ações e de empresas ou indústrias. Os fundos de participações estrangeiros estabelecem parcerias com executivos e empreendedores brasileiros para construírem negócios com rentabilidade em médio e longo prazo. Estes fundos vêm com uma sólida experiência operacional, em consultoria, tecnologia e gestão financeira, que permitem contribuir significativamente com o portfólio das empresas receptoras de investimentos.

Alguns investidores classificam seus negócios em duas categorias: aquisições e recapitalizações. No primeiro caso, empresas estabelecidas e rentáveis, sejam industriais ou prestadoras de serviços, são inteiramente adquiridas pelo investidor. Já o segundo é quando há investimentos de capital para expansão e desenvolvimento das companhias associadas. Os fundos fornecem recursos estratégicos e financeiros que possibilitam os proprietários adquirirem outras empresas para se fortalecerem no mercado.

Deste modo, os investidores por meio de seus executivos criam metas, reconsideram oportunidades para eliminar os baixos desempenhos, gargalos operacionais e, se for o caso, possíveis questões estruturais. Os novos chief executive officer (CEO) a serviço dos investidores fornecem ampla base de serviços estratégicos e de consultoria, focando o desenvolvimento e implementação de melhorias operacionais específicas. O foco das intervenções é sempre voltado para aumentar o valor da empresa receptora do investimento.

Outro alvo dos fundos de investimento são as empresas de pequeno e médio porte, com produtos de alta qualidade e de valor agregado. Estas são atraentes por terem perspectivas de crescimento favoráveis — dependendo da área de atuação. Empresas que também atraem atenção dos investidores são as com posições líderes no mercado, com tecnologias comprovadas e com marca estabelecida.

Fundo internacional mantém representação em Goiânia, no setor Oeste

Fundo internacional mantém representação em Goiânia, no setor Oeste

Em Goiás o caso emblemático mais recente de investimento direto de capital externo ocorreu em 2013, quando a H.I.G. Capital, uma companhia de investimentos americana se associou a Creme Mel Sorvetes. O valor da operação ainda é desconhecido, mas os principais sócios da empresa goiana, Antônio Benedito dos Santos e o Grupo Odilon Santos, permanecem ao lado do fundo de participações, no comando dos negócios.­

À época da operação, a Creme Mel já estava estabelecida em nove Estados e no Distrito Federal. Recentemente, a empresa anunciou a aquisição da Zeca’s Sorvetes — a maior do Nordeste e quinta do País — e se tornou uma das maiores fabricante de sorvetes e picolés do País e um player na América Latina. Com o negócio, a Creme Mel se consolidou como a terceira no mercado — atrás da Kibon e Nestlé — com vendas em 17 unidades federativas.
Com presença em oito Estados do Nordeste, o posicionamento geográfico da Zeca’s foi altamente complementar ao da Creme Mel, que até então estava focada nas regiões Centro-Oeste, Norte e Sudeste. Com a união das companhias, ambas vão se beneficiar da sinergia ao longo dos próximos anos, por meio de ganhos operacionais, logísticos e administrativos.

Creme Mel

Criada em 1987, a Creme Mel tem uma história interessante e é exemplo bem-sucedido de empreendedorismo. O ex-motorista de ônibus Benedito dos Santos utilizou os recursos do Fundo de Garantia para abrir uma pequena fábrica de sorvetes, com apenas uma máquina e dois funcionários. O antigo patrão, Odilon Santos, vendo o negócio crescer tornou-se sócio do ex-funcionário no empreendimento. Atual­mente, a empresa é líder absoluto na região Centro–Oeste, com faturamento próximo a R$ 200 milhões. Responsável pela produção de 250 mil picolés e 45 mil litros de sorvete por dia, a companhia emprega pouco mais de mil funcionários.

Em relação ao fundo de participações sócio da Creme Mel, a companhia é líder global em investimentos com mais de 17 bilhões de dólares em capital sob sua gestão. Baseada em Miami, no Estado da Flórida (EUA), está presente em Atlanta, Boston, Chicago, Dallas, Nova York e São Francisco. A Companhia mantém escritórios em Londres (Inglaterra), Hamburgo (Alemanha), Madrid (Espanha), Milão (Itália), Paris (França) e no Rio de Janeiro. Em Goiânia, o fundo de investimentos tem um escritório de representação no Edifício Euro, localizado no Setor Oeste, região nobre da capital goiana.

O presidente da H.I.G. Brasil e América Latina, Fernando Marques Oliveira, disse ao Jornal Opção que o fundo é a única firma internacional de investimentos presente em Goiânia. Ele afirma que a companhia tem muitos interesses na região e informa que, além da Creme Mel, a companhia também é sócia da LG Sistemas Humanos, uma companhia goiana da área de software. “Goiás está numa região que cresce acima da média do Brasil. O goiano é muito empreendedor e encontramos em­presas com característica satisfatórias para boas associações”, diz.

Fundada em 1985, a LG é especialista em soluções de software para gestão de recursos humanos. A companhia fornece produtos e serviços que auxiliam na execução das atividades da área de recursos humanos para mais de 400 empresas dos mais di­versos ramos de atividade. Com ma­triz em Goiânia, a empresa possui fi­liais em Minas Gerais, Paraná, Per­nambuco, Rio de Janeiro e São Paulo.

 

“Goiás se destaca como um Estado de oportunidade de investimentos”

Bill O'Dwyer: “Incentivos e parceria com governo rende bons resultados”

Bill O’Dwyer: “Incentivos e parceria com governo rende bons resultados”

Superintendente de Co­mércio Exterior do governo estadual, William Leyser O’Dwyer afirma que Goiás se destaca por ser um Estado de oportunidades de negócios e investimentos. Segundo ele, a excelência em infraestrutura, como o aeroporto de cargas e a plataforma logística de Anápolis, são fatores que levantam interesse de investidores estrangeiros. Outro atrativo são os incentivos e parceria com o governo. De acordo com o superintendente, tais ações têm feito a diferença na efetivação da instalação de novas indústrias em território goiano. “Apesar da crise, ainda somos um Estado muito aberto para investimentos”, diz.

Bill O’Dwyer lembra que neste ano a cervejaria holandesa Heineken oficializou a montagem de uma linha de produção em Itumbiara. Além disso, ele informou que o novo embaixador do Canadá no Brasil, Rick Savone, escolheu Goiás como primeiro Estado a ser visitado, em razão do interesse de investidores canadenses na área de mineração.

O superintendente de Comércio Exterior informa que na próxima semana receberá um grupo de investidores japoneses que pretende oferecer ao governo goiano linhas de créditos para investir em diversos setores. Duas semanas atrás uma comissão de investidores sul-coreanos de setores de energias renováveis e com interesses na importação de carnes, grãos e níquel, entre outros produtos, se reuniram na Federação das Indústrias do Estado de Goiás (Fieg) com empresários goianos. “Esses são pequenos exemplos que mostram que estamos prontos aos investimentos. A cada semana recebemos pedidos de audiência, muita coisa não vinga, mas o saldo sempre é positivo”, diz.

 

É preciso melhorar a produtividade e investir em ciência e tecnologia

Jeferson Vieira: “Investir na inovação para agregar valor”

Jeferson Vieira: “Investir na inovação para agregar valor”

De acordo com o economista e professor da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO), Jeferson de Castro Vieira, Goiás precisa melhorar sua produtividade, investir em ciência, tecnologia e inovação, agregar valor a seus produtos industrializados para ganhar competitividade no mercado internacional. Segundo ele, o Estado tem respondido bem aos sintomas da crise, citando, como exemplo, fechamento do primeiro semestre com 23 mil novos postos de trabalho com carteira assinada. “Os dados que mais chamam atenção é o nível de desemprego. A taxa fechou em 7,3% enquanto a média brasileira é de 8,3%”, diz.

O economista afirma que a maior preocupação é a redução da produção industrial e do comércio, principalmente no setor de serviços. O não aumento real da arrecadação de ICMS pode atrapalhar os investimentos do Estado, principalmente em infraestrutura. Apesar do gargalo, Jeferson Vieira diz que a agroindústria goiana não foi tão afetada pela crise, mesmo com a desaceleração da economia chinesa que resultou na queda da demanda e dos preços de commodities. “A alimentação ainda é essencial, portanto a longo prazo há perspectivas de crescimento neste setor.”

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