Em 1998, Caiado disse que jamais subiria no palanque do PMDB

Hoje aliados, senador do DEM e Iris Rezende parecem ter esquecido das eleições daquele ano, quando se atacaram mutuamente

Apesar dos ataques feitos no passado, o senador Ronaldo Caiado e o prefeito de Goiânia, Iris Rezende, estão caminhando juntos desde 2014 e devem seguir aliados nas eleições deste ano | Foto: Leandro Vieira/Divulgação

Em uma matéria publicada pelo jornal “Diário da Manhã”, em 26 de junho de 1998, uma fala de Ronaldo Caiado, então candidato a deputado federal pelo PFL, cha­ma a atenção. Um dos principais nomes da oposição centro-li­be­ral ao governo estadual — que te­ve Marconi Perillo (PSDB) na ca­beça da chapa —, Caiado foi ca­te­górico ao afirmar que jamais defenderia uma coligação com o PMDB — hoje MDB.

Trecho de matéria do “Diário da Manhã”, em 26 de junho de 1998. À época, era inimaginável que, 20 anos depois, Iris e Caiado seriam aliados | Foto: Marcelo Mariano/Jornal Opção

“Você até poderá botar em dúvida o comportamento de algumas pes­soas, mas jamais me verá de­fen­dendo uma coligação com o PMDB. Independentemente de ser pre­sidente do PFL ou não, eu ja­mais irei ao palanque do PMDB por­que as minhas posições são con­trárias aos métodos usados pa­ra administrar o Estado e de fazer po­lítica”, disse o atual senador pe­lo DEM.

O discurso foi feito em um con­texto específico: ventilava-se a ideia das oposições não lançarem cha­pa e se unirem ao MDB. Caia­do, no entanto, era contrário. Mas, de qualquer forma, a fala não deixa de ser contraditória, haja vista que o senador está, atualmente, próximo de Iris Rezende e, portanto, su­bentende-se que a opinião de Cai­ado sobre os tais métodos de administrar o Estado e de fazer política tenha mudado, tornando-a incoerente.

O pleito daquele ano foi marcado por uma virada histórica de Marconi Perillo (PSDB), que, antes da definição de sua candidatura, se preparava para a reeleição à Câ­ma­ra Federal. O candidato de oposição ao governo do MDB, que estava no poder desde 1983, tinha tu­do para ser Roberto Balestra, en­tão filiado ao PPB — hoje no PP —, cujo nome não empolgou, co­mo ele mesmo admitiu ao renunciar.

Para Iris, à época senador, o ob­­jetivo não era só vencer no primeiro turno, mas também ser o mais bem votado do Brasil. E a indefinição da oposição o ajudava. As pesquisas de intenção de voto lo­go após a oficialização de Mar­co­ni davam a entender que o emedebista alcançaria seu objetivo. Contudo, a acomodação em virtude da vantagem folgada refletiu nas urnas e o cenário foi se alterando.

Pesquisa Serpes de 7 de julho da­va Iris com 66,1% e Marconi com 6,5%. Em 2 de agosto, o eme­debista chegou a atingir 67,6% das intenções de voto. O tucano foi crescendo pouco a pouco — em setembro, a diferença já era de apro­ximadamente 10%. Em 4 de ou­tubro — data do primeiro turno —, a surpresa: Davi venceu Golias por 48,59% a 46,91%.

Pesquisas “deixaram” Iris sonhar em ser o governador mais bem votado do Brasil, mas emedebista sofreu revés histórico | Foto: Fábio Costa/Jornal Opção

Iris não só fracassou na intenção de ser o governador mais bem vo­tado do País, como também te­ve que enfrentar um segundo tur­no saindo na desvantagem.

Na edição 1.191 do Jornal Op­ção, o emedebista argumentou que “as oposições estão em decadência em Goiás justamente porque não são capazes de sentir a rea­li­dade e perderam a capacidade de renovação”. A fala de 20 anos atrás pode servir para a conjuntura po­lítica atual. Talvez sem saber, Iris fez uma previsão certeira, mas não conseguiu prever mais uma der­rota no segundo turno de 1998. Ele estava crente que iria sair vitorioso. Porém, o Tempo Novo de Mar­coni ganhou com 53,28% ao fi­nal das urnas apuradas.

Ataques

Outro presságio que Iris não fa­ria naquele ano era o de que, dé­ca­das mais tarde, se aliaria a Ro­nal­do Caiado. Caso contrário, teria pou­pado críticas àquele que, em 1998, chamava de “força do atraso”, conforme mostra capa da última edição do Jornal Opção antes do primeiro turno.

Chamada na capa da última edição do Jornal Opção antes do primeiro turno destaca ataque de Iris a Caiado| Foto: Fábio Costa/Jornal Opção

Também na capa, mas desta vez do “Diário da Manhã”, de 10 de outubro, um informe especial da campanha de Iris classificava Mar­coni de ser “a face jovem das ve­lhas oligarquias que tentam restaurar seus privilégios”.

O emedebista batia pesado tanto em Marconi quanto em Cai­ado. Uma semana antes do segundo turno, Iris alegou que o tucano ti­nha o apoio de coronéis, como Ary Valadão, Otávio Lage e o próprio Ronaldo Caiado. Para o atual pre­feito de Goiânia, Marconi deveria ter vergonha de caminhar ao la­do de políticos como estes, que, se­gundo ele, perseguiram, prenderam e torturaram pessoas durante a ditadura militar.

“Marconi deveria ter vergonha de andar com políticos como Ronaldo Caiado, que representa ‘as forças do atraso'”

Iris Rezende

Iris parecia gostar deste discurso, pois dizia que a imagem que a oposição à época defendia era de vol­tar ao tempo dos Caiado, “que só nos trazem imagem de destruição”.

E mais: “Ronaldo Caiado apareceu anunciando medidas e mais me­didas, como se fosse ele o go­ver­nador. Aí ficamos pensando co­mo seria um hipotético governo de­les. Seria um verdadeiro balaio de gato, com todos querendo mandar, cada um puxando para o seu la­do”, sublinhou Iris em entrevista ao Jornal Opção (edição 1.215).

“A união forçada deles já não está dando resultado na Prefeitura de Goiânia. A vice-prefeita [de Ni­on Albernaz, Maria Valadão (PTB)] renunciou antes mesmo de as­sumir”, complementou na mes­ma entrevista — aqui, cabe destacar mais um paralelo na fala de Iris com o futuro: eleito prefeito em 2016, seu vice, Major Araújo (PRP), também renunciou antes de assumir.

Por fim, o emedebista denunciava a coligação de Marconi por pra­ticar “familiocracia”, citando os exem­plos de Ronaldo Caiado e do ex-deputado estadual Luiz An­tô­nio Caiado. Mas é impossível não lembrar que a sua esposa, Iris Ara­újo, foi suplente do senador Ma­guito Vilela (MDB) — que enxergava Caiado como cacique e acusava Marconi de comandar o atraso — naquelas mesmas eleições.

O troco

Ao seu melhor estilo, o senador Ro­naldo Caiado não deixava barato as criticas que recebia de Iris Re­zende e atacava tanto a figura do hoje prefeito de Goiânia quanto do MDB como um todo.

Caiado expressava, na edição 1.199 do Jornal Opção, não conseguir entender por que o povo con­tinuava votando no MDB, que, na sua opinião, tinha feito “governos nefastos”. “A prática adotada por eles é a do massacre, da prepotência.”

“Não estamos lutando contra apenas um PMDB, nós estamos lu­tando é contra a venda de Ca­cho­eira Dourada e do BEG [Banco do Estado de Goiás], contra candidaturas de pessoas que não tem nenhum nome na política do Estado e que, de repente, acha que pode leiloar e comprar a consciência do povo goiano”, externou Cai­ado (“Diário da Manhã”, 27 de junho).

Já após o resultado final (Diário da Manhã, 27 de outubro), o deputado federal eleito pelo PFL se pre­ocupava com a maneira com que Marconi receberia o governo. “O governador Marconi Perillo vai re­ceber o governo, no dia primeiro de maio, em estado de terra arrasada como resultado dos desmandos pra­ticados pelos governos do PMDB ao longo dos anos.”

Vídeos

Um vídeo disponível no You­Tube, intitulado “Ronaldo Caiado em entrevista ao programa Goiâ­nia Urgente, em 1998”, evidencia as divergências do senador com o MDB.

“O PFL deu uma lição a nível nacional que não só é o maior partido do País. É um partido competente que sabe governar essa Nação. Quando o PMDB reúne, tem que levar polícia. Na reunião do PMDB executivo, dá polícia. Pa­lavrões, agressão, desrespeito à po­pulação, sem proposta nenhuma, fisiologismo total”, ataca Caiado.

“Quando o PMDB reúne, tem que levar polícia. Na reunião do PMDB executivo, dá polícia. Pa­lavrões, agressão, desrespeito à po­pulação, sem proposta nenhuma, fisiologismo total”

Ronaldo Caiado

Em outro vídeo, também en­con­trado no YouTube, chamado “Eleições 1994 para o Governo de Go­iás”, o pré-candidato ao Palácio das Esmeraldas critica a família Vi­le­la, que havia feito um acordo com os Carvalho no passado para te­rem todas as terras banhadas por águas afluentes do Rio Ariranha.

A família de Maguito e seu fi­lho, Daniel, acabou não ficando com as terras. No debate das eleições de 1994 — marcadas por fortes ataques de todos os lados —, Ca­iado não mediu esforços para ten­tar abalar a imagem dos Vilela. “Vos­sa Excelência não teve a terra. Isso é incompetência, congênita e ge­neticamente determinada.”

Vinte anos depois…

Se fosse coerente, Iris Rezende apoiaria seu correligionário Daniel Vilela ao invés do antigo adversário do DEM | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Em 1998, se alguém dissesse que Ronaldo Caiado e Iris Re­zen­de seriam aliados no futuro seria taxado como louco. Mas foi justamente o que ocorreu. Em 2014, o eme­debista saiu can­didato ao go­ver­no e o democrata ocupou a vaga única da chapa para o Se­na­do.

Dois anos mais tarde, o apoio per­maneceu. Iris concorreu à Pre­feitura de Goiânia com o respaldo do senador, cuja filha, Anna Vitória Ramos Caiado, foi no­meada à Procuradoria-Geral do Município pelo emedebista.

Agora, o desenho político pa­ra a eleição deste ano se encontra da seguinte maneira: o vice-go­ver­nador José Eliton, do PSDB, está consolidado como o candidato da base; na oposição, há quem defenda a união, mas, no momento, tanto Daniel Vilela quanto Ronaldo Caiado se apresentam como postulantes ao governo.

Um dos políticos que defendem tal união é o próprio Iris Re­zen­de. Além dele, o senador con­ta com o apoio de outros emedebistas importantes Goiás afora, co­mo Adib Elias, Ernesto Roller e Paulo do Vale, prefeitos de Ca­ta­lão, Formosa e Rio Ver­de, respectivamente.

Vinte anos depois, Iris e Cai­a­do parecem mesmo ter esquecido da campanha agressiva de 1998, especialmente o primeiro em relação a uma entrevista à edição 1.215 do Jornal Opção.

Nela, o prefeito de Goiânia diz que sempre estimulou o jo­vem a participar da política. “Nes­ses 40 anos de vida pública, nunca estive distante dos movimentos jovens. Na política, só in­cen­tivei e apoiei os jovens.”

Nos bastidores, circula a in­for­mação de que Iris quer convencer Daniel a apoiar Caiado. Por coerência, não seria natural que o emedebista apoi­as­se seu correligionário, de 34 anos, ao invés de seu antigo rival, de 68? Di­­fícil é cobrar coerência de quem não se en­ver­gonha em andar com aquele que já chamou de “for­ça do atraso” e, dessa forma, ten­de a passar a im­pressão pa­ra o eleitor de que o grau de con­fia­bili­dade da ali­ança é praticamente nulo.

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