Eleitor goiano está mais informado e menos confiante

Cientistas políticos, sociólogos, marqueteiros e pesquisadores ouvidos pelo Jornal Opção tentam traçar perfil das pessoas que votarão em Goiás

Cenário repleto de escândalos de corrupção reflete em índice de abstenção cada vez mais expressivo | Foto: Elza Fiuza/Agência Brasil

Felipe Cardoso

A visão do eleitor tem mudado ao longo das últimas décadas. O atual cenário político, repleto de escândalos de corrupção, reflete em um índice de abstenção cada vez mais expressivo. Pesquisas apontam que há um conjunto de fatores que influenciam as tendências de voto, não apenas a educação dos eleitores. Para falar sobre isso, o Jornal Opção conversou com cientistas políticos, sociólogos, marqueteiros e pesquisadores na tentativa de traçar o atual perfil do eleitor goiano.

O diretor da Empresa de Pesquisa de Opinião e Mercado (Epom), Roque Toscano, diz acreditar que o eleitor está propício à renovação. Para ele, não há mais espaço para tanta corrupção e desonestidade. “Nota-se que há, por parte do eleitor, uma busca incansável por alguém que fuja desse perfil.”

Na visão de Toscano, desta vez os eleitores estão mais informados e, consequentemente, avaliam a situação com mais cautela a procura de alguém que represente uma verdadeira proposta de mudança. “Não basta ser novo no cenário político. Deve haver propostas que farão o eleitor se posicionar e ir ao contrário daquilo que rejeitam: a corrupção.”

Roque Toscano diz acreditar que o eleitor está propício à renovação

Para ele, o eleitor goiano carece de alguém que resolva, de fato, os problemas. “O candidato já não se sustenta apenas com promessas. Tem de haver um perfil capaz de gerar a confiança que o eleitor precisa. Hoje, temos visto uma decepção geral com o que se passa.”

O sociólogo e professor universitário Silvio Costa diz acreditar que é possível ter uma avaliação geral a partir das tendências recorrentes tanto nas ruas quanto nas redes sociais. Para Costa, um conjunto de fatores poderia explicar essa situação de repulsa que percebemos hoje. Para analisar esse cenário, seria necessário retomar as manifestações que ocorreram com o objetivo de reivindicar a maior efetividade da gestão pública. “A cada novo escândalo de corrupção que se apresenta, cria-se uma sensação de decepção nos eleitores, pois eles presenciam a substituição de pessoas corruptas por outras de mesma índole. Isso desgasta a confiança de qualquer um.”

Crescimento da esquerda

Silvio Costa: a cada novo escândalo de corrupção que se apresenta, cria-se uma sensação de decepção nos eleitores

Até o momento, em Goiás, o eleitor está condicionado a decidir entre três pré-candidaturas que, de fato, possuem força política no Estado. “Atualmente essas personalidades são as que disputam o voto do eleitorado. Porém, pode haver um crescimento de esquerda e centro-esquerda que irá depender dos resultados obtidos na esfera nacional da disputa”, avalia o professor.

Apesar de parte da população goiana estar a par dos principais acontecimentos que envolvem o cenário político e caminhando para a construção de uma decisão mais concreta, o sociólogo afirma que “o mês de agosto será decisivo para avaliar e transformar essas tendências”.

Silvio diz acreditar também que, apesar das recentes pesquisas mostrarem um número expressivo de votos brancos e nulos, isso deve mudar ao longo dos próximos meses. “Haverá uma tentativa de mobilizar o eleitorado para se posicionar nas urnas. A tendência é que haja uma redução desses votos brancos”, destaca. Para ele, se não houver alternativas, o eleitor acabará por decidir com base no seguinte pensamento: “Se não o melhor, que seja o menos pior”.

Expectativa é de que números da rejeição a este modelo político sejam aprofundados em outubro, diz Pedro Célio | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Já o cientista político e professor da Universidade Federal de Goiás (UFG) Pedro Célio discorda da reflexão e diz acreditar que os números de abstenções devem se intensificar ao decorrer dos próximos meses. Para ele, nas votações anteriores ao impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT) e aos processos da Operação Lava Jato, os brasileiros já faziam crescer os índices de votos nulos e brancos, bem como as abstenções.

“Ao contrário do que se esperava, o que ocorreu foi a piora dos serviços públicos e o aumento dos escândalos de corrupção. Nada da reforma política foi encaminhado e a consequência, por si previsível, está na expectativa de que números da rejeição a este modelo político sejam aprofundados em outubro próximo”, pontua Pedro Célio.

Candidato “honesto e competente” é o perfil mais desejado nas urnas

Honestidade é uma característica que contará para eleitor goiano, diz pesquisador Mario Rodrigues Filho

De acordo com a pesquisa Grupom/Diário da Manhã conduzida pelo pesquisador Mario Rodrigues Filho, para 51,7% dos entrevistados bastaria um candidato honesto, com conhecimento de administração pública e direitos humanos. As principais preocupações dos eleitores goianos giram em torno de problemas relacionados a inflação e aumento de preços, a falta de dinheiro, perda do emprego, segurança pública e saúde.

De acordo com o pesquisador, o que de fato chama a atenção é que os eleitores procuram um candidato que tenha honestidade. “O ideal para os eleitores goianos é que haja na disputa um candidato com honestidade e competência. O povo está à procura de um político com esse perfil e isso ficou claro nos resultados da pesquisa”, ressalta.

Para o marqueteiro Leo Pereira, essa expressividade é resultado de uma política goiana que vive na inércia há mais de 20 anos. “Essa inércia não é do eleitor e sim dos políticos que ocupam os nossos poderes. Não temos candidatos, e precisamos de novas propostas. Mais do que nomes, nos faltam projetos.”

Leo Pereira afirma que, apesar de o cenário político estar desgastado, novos nomes podem não ser a solução do problema. “Candidatos novos não são necessariamente sinônimos de renovação. Um candidato velho pode aparecer com novas propostas, projetos e ideias e, com isso, encantar a sociedade. Da mesma forma, um candidato novo pode trazer velhas propostas e ser facilmente rejeitado.”

Leo Pereira: apesar de o cenário político estar desgastado, novos nomes podem não ser a solução do problema | Foto: Fábio Costa/Jornal Opção

De acordo com Pedro Célio, se confirma a hipótese de, nessas eleições, termos eleitores mais críticos e engajados aos acontecimentos corriqueiros do Estado. “Mas não só. Os eleitores também estão mais dispostos a estabelecer cobranças mais radicais em relação aos políticos. Isso é consequência da consciência estimulada e da sequência de frustrações das últimas décadas”, pontua o cientista político.

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