Educação: aquilo que dá certo deve ser aplicado

Há muito a ser feito e o Jornal Opção tem mostrado isso nas últimas duas semanas. Nesta, a série de reportagens é fechada mostrando que há pessoas pensando na educação de forma global

Ao contrário do que se pensa, o sistema educacional brasileiro tem sido estudado e boas práticas têm sido cada vez mais elencadas / Fernando Leite/Jornal Opção

Ao contrário do que se pensa, o sistema educacional brasileiro tem sido estudado e boas práticas têm sido cada vez mais elencadas / Fernando Leite/Jornal Opção

Marcos Nunes Carreiro

— A educação é um tema complexo. Fala-se muito de tecnologia como meio de criar avanços no setor. Mas há um modo efetivo de a tecnologia ajudar nisso, Camila?
— Sim, sim. É importante garantir, por exemplo, que a tecnologia faça pela educação aquilo que já fez por outras áreas. Não falo de hardware, de colocar computadores em sala de aula ou dar tablets para os alunos, mas de software, das soluções que podem ser usadas dentro da sala para apoiar o professor e o aluno com o objetivo de garantir um aprendizado melhor.
— Mas, para isso, é importante também melhorar a formação dos professores.
— Sim, ter professores que garantam o aprendizado de seus alunos é algo que deve ser buscado. Temos um trabalho grande de formação de gestores escolares, diretores de escola, mas também de gestores de rede como secretários de educação. Porque, quando falamos de gestores, olhamos muito no impacto que eles têm no trabalho com o professor. Queremos que todos os profissionais da educação, que são líderes no sistema educacional, estejam alinhados no sentido de garantir o aprendizado efetivo dos alunos.
— Fazer com que os professores em formação tenham mais contato com a prática é algo a ser explorado. Atualmente, os cursos de licenciatura são predominantemente teóricos.
— Temos programas voltados para esse sentido, com foco na prática, embora também seja muito bem embasado teoricamente. Por exemplo, os professores podem filmar suas aulas, colocando em prática aquilo que foi aprendido no cur­so, fazem o upload do vídeo na pla­taforma e um tutor do curso as­siste a esse vídeo comentando pon­to a ponto onde o professor foi bem e o que ele poderia melhorar sem se distanciar da sua realidade escolar.

A Camila do diálogo acima leva o sobrenome Cardoso Pereira, jovem que tem como cargo a gerência de projetos da Fundação Lemann, uma das instituições que mais investem em educação no país. A conversa aconteceu por telefone na tarde da quinta-feira, 5, e teve por objetivo explicitar algumas das boas práticas que visam desenvolver o sistema educacional brasileiro.

A Fundação Lemann tem vários projetos no setor educacional, calcados em quatro pilares: inovação e gestão — abarcadas pelo diálogo; políticas educacionais e talentos. As duas últimas estão bastante ligadas, como se verá:

Camila Pereira: “Diversidade deve ser valorizada, mas desigualdade é algo grave” / Divulgação/Fundação Lemann

Camila Pereira: “Diversidade deve ser valorizada, mas desigualdade é algo grave” / Divulgação/Fundação Lemann

Na edição 2064 o Jornal Opção publicou entrevista com a secretária de Educação de Goiás, Raquel Teixeira. À época, ela apontou algumas ideias que pretendia colocar em prática na gestão que se inicia. Naquela semana, Raquel tinha chegado dos Estados Unidos, onde se reuniu com três professores da Universidade de Stanford: Martin Carnoy, David Plank e com o brasileiro Paulo Blikstein. Os três fazem parte do Lemann Center, iniciativa mantida na Faculdade de Educação de Stanford, que conta também com o professor Eric Bettinger.

O objetivo do Centro é, entre outros, estabelecer as bases para a formulação de modelos de ensino inovadores e que estejam baseados em evidências. Para isso, são necessários estudos e pesquisas rigorosas, mas também com orientação em relação a valores como equidade e diversidade. Equidade é, inclusive, uma dos pontos pelos quais a secretária disse que norteará suas ações nos próximos quatro anos — o outro é excelência. Ou seja, promover ensino de qualidade para todos os alunos.

Curiosamente, essas duas palavras estão em um estudo realizado pela Fundação Lemann e o Banco Itaú. “Excelência com equidade”, que reconheceu 215 escolas que recebiam alunos de perfil socioeconômico baixo, mas conseguiram bons resultados de aprendizado por parte de seus alunos. Um delas, inclusive, é de Goiás: a Escola Municipal João Batista Filho, de Acreúna. Mas a intenção do estudo foi além da identificação. Como ressalta Camila, foi-se “buscar as boas práticas dessas es­co­las para poder aplicar em outras”.

Base Comum

E uma forma de aplicar boas práticas, também, é defender a criação de um currículo comum para o sistema educacional brasileiro. Na última edição, o Jornal Opção discutiu a importância de debater uma base curricular para o sistema educacional brasileiro. O Ministério da Educação (MEC) já estuda a criação da chamada Base Nacional Comum, que determinará quais conteúdos devem ser apresentados aos estudantes e em que série. Isto é, a base fará sabido o que hoje não é: o que os estudantes devem saber e quando. Em um país de extensa massa territorial como o Brasil, tão ponto é importante.

O conceito não é exatamente novo. Vários países já adotaram políticas semelhantes. A Austrália, um país federativo em que a educação é responsabilidade predominante de estados e territórios, construiu um currículo nacional objetivo deixando claro quais os conteúdos a serem ensinados e o que os estudantes devem demonstrar como resultado. Isso facilita, em muitos pontos, o aprendizado e a sua verificação por meio de avaliações.

Camila Pereira diz que a Base Comum é uma das políticas as quais a Fundação Lemann acha importante por acreditar que alguns padrões podem ajudar no avanço da educação no país. Ela aponta que as particularidades regionais, são importantes para o país e que devem ser desenvolvidas. “Diversidade é bom e deve ser valorizada, mas desigualdade é algo muito grave que temos na educação brasileira. Se os padrões forem bem construídos, eles mantêm a di­versidade e ajudam a corrigir as desigualdades, pois estarão todos à procura dos mesmos objetivos”, afirma.

De fato, há atualmente no Brasil certa confusão entre as partes que constituem o sistema educacional. Professores são formados com base em um conhecimento, que não é usado para a criação do material escolar que regerá as aulas e o aprendizado dos alunos, nem na avaliação dessa assimilação de conteúdo. Ou seja, as três partes do tripé não conversam e não partem de um mesmo padrão, o que desalinha muitos esforços do sistema.

Sobre a diversidade, o aluno do Mestrado em Políticas Públicas da U­niversidade de Harvard José Frede­ri­co Lyra Netto aponta que, ao definir o “básico”, a base cria flexibilidade pa­ra adaptações sobre temas mais es­pecíficos. Isso, em sua visão, é importante, porque um currículo totalmente fechado seria um “tiro no pé, principalmente para o ensino médio, que tem uma infinidade de temas que todo mundo é obrigado a aprender, mas que muitas vezes não são úteis, dependendo da carreira escolhida”.

Ele vê a busca pela Base Nacional Co­mum como algo importante, “por uma série de razões”: primeiro, a vida do professor pode ficar mais organizada, uma vez que ele sabe, no começo de cada ano, o que deve ensinar; se­gundo, pela equidade. “Hoje, um aluno pode mudar de cidade e encontrar em uma escola um ‘currículo’ diferente (às vezes mais incompleto), o que tira então seu direito de aprender algo importante, que outros colegas em diferentes regiões estão aprendendo”.

Além disso, o mestrando rebate outra crítica em relação à proposta, como a retirada da autonomia do professor. Segundo ele, é importante reforçar que a base nacional comum define “o que” deve ser ensinado, mas não o “como”. “A forma de ensinar fica a cargo de cada professor”, diz.

Apostar em novos talentos como forma de apoiar o desenvolvimento social
José Frederico Lyra Netto: “Pesquisas podem fortalecer, no Brasil, a cultura de políticas públicas baseadas em evidências” / Youtube

José Frederico Lyra Netto: “Pesquisas podem fortalecer, no Brasil, a cultura de políticas públicas baseadas em evidências” / Youtube

Investir em pessoas é um dos pontos que fizeram de Jorge Paulo Lemann um dos maiores empresários do país. O livro “Sonho Grande”, da jornalista Cristiane Correa, conta a história de Lemann, mostrando sua trajetória — assim como a de seus sócios Marcel Telles e Carlos Alberto Sicupira. No prefácio da obra, o conhecido economista Jim Collins elenca as 10 principais lições que aprendeu ao longo dos anos com a jornada do trio. O primeiro deles: “Invista sempre — e acima de tudo — nas pessoas”.

De acordo com Collins, baseados na filosofia de investir em líderes jovens e talentosos, ainda que novatos, é possível perceber uma coisa: mesmo que os empresários sofram algumas decepções no caminho, acreditar no novo pode gerar bons frutos para todas as partes. Além disso, é necessário que se mantenha esses talentos “a bordo”.

No caso da educação, esse conceito é extremamente válido. E utilizar o conhecimento das grandes universidades do mundo para preparar os talentos vem bem a calhar. “Acreditamos em gente boa para liderar transformações importantes”, ressalta Camila Pereira. “Nossa missão é melhorar o aprendizado dos alunos. E pensamos em todos os alunos. Por isso, trabalhamos em escala”.

Um dos talentos enviados para se capacitar fora do país é José Frederico Lyra Netto. Ele, que é aluno do Mestrado em Políticas Públicas na Universidade de Harvard, já passou por Goiás; foi superintendente de Programas Especiais da Secretaria de Educação do Estado.

Ao Jornal Opção, Frederico falou um pouco sobre o que tem visto por lá:

Jorge Paulo Lemann: entendimento de que o aprendizado gera evolução / Fundação Lemann

Jorge Paulo Lemann: entendimento de que o aprendizado gera evolução / Fundação Lemann

— Se há brasileiros estudando educação fora do país, também há pesquisadores vindo ao Brasil estudar nossos sistemas educacionais – são muitos. De que forma esses estudos podem impactar a educação brasileira?
— Assim como em qualquer outra área, a educação brasileira ganhará muito se conseguir atrair a atenção de pesquisadores das grandes academias do mundo. Estes estudos trazem perspectivas diferentes, assim como os principais insights da fronteira do conhecimento da área. Se feitos em conjunto com a academia brasileira (o que tenho visto em alguns casos), poderão contribuir muito para nosso progresso no médio e longo prazo. Mais ainda, esses estudos podem fortalecer, no Brasil, a cultura de políticas públicas baseadas em evidências.

Aqui em Harvard, por exemplo, esta filosofia é muito explorada – muitos acadêmicos analisam os impactos de intervenções (premiações para alunos, por exemplo) nos resultados finais (como o aprendizado). Estes estudos, por sua vez, servem de base para que políticos e governantes tomem decisões em relação a qual política pública implementar. Recentemente, tive contato com o professor Roland Fryer, tido como um dos mais importantes economistas da nova geração. Ele lidera um laboratório cuja função é avaliar o efeito de diversas políticas educacionais, que servem de base para a tomada de decisões nos governos. Mais ainda, ele organiza os estudos e os “traduz” para uma linguagem bem didática – algo que facilita muito.

Vejo a Fundação Lemann fazendo ações nesta direção, o que pode ser um diferencial para o gestor público brasileiro.

— O fator formação de professores é um dos “calcanhares de Aquiles” do ensino brasileiro. Um dos argumentos para a fragilidade intelectual dos docentes é justamente o acúmulo de más formações que têm desde o ensino básico. Assim, como fica a questão? O ensino superior é fraco pela fragilidade do básico, ou o contrário? Como melhorar?
— As limitações do nosso ensino básico influenciam, com certeza, a formação dos profissionais nos anos seguintes. Mas isso só explica parte do problema. A formação de professores no Brasil é tida como muito teórica, com pouca ligação com a sala de aula. É importante notar que esse problema não é exclusivo dos cursos de pedagogia e licenciatura – outros cursos superiores estão também distantes das realidades do que os profissionais encontrarão em seus futuros trabalhos. Dito isso, esta área talvez tenha um problema, em média, maior. Uma saída, inspirada na medicina, é a implantação de residências. O professor, em seu estágio probatório (primeiros anos na rede de ensino), ficaria alguns anos aprendendo com profissionais mais experientes e qualificados, antes de liderarem sozinhos uma sala de aula. Esse projeto, inclusive, foi idealizado no Pacto pela Educação – plano de reforma educacional liderado pelo ex-secretário de Educação de Goiás Thiago Peixoto.
— É comum ouvirmos sobre a necessidade de fazer com que os professores, bem formados ou não, acompanhem uma mesma turma por vários anos. Isso aumentaria o senso de responsabilidade por parte do professor, além de criar maior vínculo com os alunos, o que facilitaria o aprendizado. É possível fazer isso no Brasil?
— Este ponto é bastante relevante. Pesquisas recentes têm mostrado, por exemplo, que turmas de ensino fundamental que ficam mais tempo com o mesmo professor (antes de mudarem para o modelo de vários docentes) têm um desempenho em média melhor. Embora tenham sido feitas no contexto americano, essas análises parecem promissoras para a realidade brasileira. Uma forma de fazer isso no Brasil é investir na dedicação exclusiva – em outras palavras, incentivar o professor a ficar em uma só escola. Isso requer recursos, mas também forte reorganização nas redes – gestão!

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