Economista Nathan Blanche sugere que 2015 pode ser “desastre” para o Brasil

Um dos mais experimentados estudiosos do País sustenta que o próximo governo terá de adotar o tripé de responsabilidade fiscal, controle da inflação e câmbio flutuante para aumentar o crescimento da economia. Ele acredita que a inflação sem maquiagem chega a 9% e sustenta que é preciso acabar com o rombo do setor energético

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Economista Nathan Blanche: “Governo tem uma visão totalmente populista, de baixar juros e desvalorizar câmbios por decreto”

O próximo presidente da República não terá tarefa fácil no ano que vem na área econômica. Os prognósticos não são nada favoráveis e o cenário pode se tornar de­solador se o novo chefe do Exe­cu­tivo federal, independentemente se for Dilma Rousseff (PT) ou Aécio Ne­ves (PSDB), hesitar em tomar frente a uma gama de reformas para que o Brasil volte a crescer.

O próximo presidente precisa construir um governo que tenha confiabilidade dos investidores internos e externos, que estão deixando de investir no Brasil. Pelo menos é o que recomenda o economista e empresário Nathan Blanche, um dos maiores especialistas em mercado cambial do País, sócio-diretor da Tendências Consultoria Integradas, de São Paulo.

Segundo ele, para que o Brasil volte a crescer é necessário aumentar o nível de investimentos — passar de 18% para 27% do Produto Interno Bruto (PIB) —, e fazer com que o Estado venha a gastar menos, diminuindo as despesas correntes, numa rígida política de austeridade. O Estado deve chamar a iniciativa privada para efetivar concessões, ou parceria público-privadas (PPP) para poder aumentar a infraestrutura do País de forma mais ampla. A máquina estatal tem que melhorar a eficiência dos gastos da gestão pública e direcioná-la para questões necessárias, mesmo que isso venha a implicar medidas impopulares.

Segundo relatório divulgado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o Brasil deve crescer 1,4% em 2015 contra 0,3% neste ano, muito abaixo de países emergentes e desenvolvidos. A economia brasileira anda tão apática que a alta do PIB em 2014 deverá ser inferior inclusive à da Zona do Euro (0,8%), que ainda não conseguiu se recuperar totalmente da crise financeira.

Em 2015, projeções indicam que o Brasil vai apresentar taxas de crescimento abaixo dos países que integram os Brics — bloco de países emergentes formados por Brasil, Rússia, Índia China e África do Sul. A economia chinesa, por exemplo, vai crescer no próximo ano cerca 7,3%, e a indiana terá avanço de 5,9%. O PIB dos Es­tados Unidos, a maior economia do mundo, deve crescer 3,1% em 2015, enquanto o da Alemanha, a maior potência econômica europeia, deve ter expansão de 1,5%.

Conceito ideológico

Aécio Neves e Dilma Rousseff: caberá a um deles tomar medidas para “consertar” a economia do País

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A queda do desempenho da economia nacional não ocorreu de repente. Nos últimos três anos, o PIB teve uma expansão tímida de 2,7%, 1% e 2,5%, respectivamente, menor do que na década de 2000 e 2010, quando, mesmo com duas crises financeiras internacionais, o crescimento médio foi de 3,7% ao ano. O anúncio do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de que os indicadores econômicos tiveram retração de 0,2% no primeiro trimestre de 2014 e 0,6% no segundo, levou o governo a admitir que o País havia chegado numa encruzilhada.

A atual gestão tem atribuído a freada da economia ao contexto internacional desfavorável e a uma onda de “pessimismo” em parte motivada por questões políticas. Ao tentar explicar os números negativos, a presidente Dilma Rousseff também culpa os feriados da Copa do Mundo pela queda da atividade de setores como varejo e indústria. Nathan Blanche pensa o contrário. Ele aponta para erros na condução da política econômica do governo, que tem adotado um conceito ideológico de nacional-desenvolvimentista, responsável por trazer resultados desastrosos.

O economista argumenta que, o primeiro passo a ser tomado pelo governo, é de reconquistar a confiança dos investidores. Atualmente o risco Brasil, comparado aos países do chamado Pacto do Pacífico — bloco econômico antagônico ao Mercosul formados por Chile, Colômbia, México e Peru —, é mais elevado, e isso afasta os investimentos externos. “Enquanto as economias competitivas apresentam 100 pontos no índice de confiabilidade, o Brasil tem 150. São 50 pontos de diferença para chegarmos ao elementar para que tenhamos confiança externa.”

O setor industrial, por exemplo, está negativo neste ano e, segundo projeções, vai seguir em baixa em 2015. O mesmo panorama contraproducente é vivido pelo setor de construção civil, que esteve aquecido antes da recessão, pela explosão de linhas de créditos de fácil acesso e subsidiados. Segundo Nathan Blanche, essas áreas têm sido alvo de políticas eleitoreiras que, no curto prazo, poderão trazer consequências graves se não forem corrigidas a tempo. “Foi uma visão totalmente populista, de baixar juros e desvalorizar câmbios por decreto.”

Estado deve diminuir sua intervenção na economia e desonerar setor industrial

Indústria brasileira precisa ser desonerada para produzir mais e investir em inovação por meio de estímulos

Indústria brasileira precisa ser desonerada para produzir mais e investir em inovação por meio de estímulos

Afinal, quais são as medidas que podem incentivar o crescimento do País? Segundo Nathan Blanche, o primeiro passo deve ser a retirada massiva da intervenção do Estado na economia, freando os gastos que cresceram consideravelmente acima da proporção do PIB. O superávit fiscal que o ex-ministro da Fazenda Antônio Palocci entregou em sua última passagem pela pasta, em março de 2006, foi de 3,15%. Atualmente, o saldo é um décimo daquele número, ou seja, praticamente não existe mais superávit primário.

A segunda providência é a retomada da confiança do investidor externo. Blanche lembra que em 2011, a demanda de financiamento de fora do País para fechar as contas correntes era de 1,9% do PIB. Atualmente este índice está próximo de 4%. O fluxo externo está se deteriorando e a imprensa internacional — “The Economist” e “The New York Times” — tem se voltado com mais atenção ao panorama econômico do Brasil. E as notícias disseminadas lá fora não são as melhores. Trocando em miúdos, as publicações estrangeiras têm indicado que o Brasil tomou a direção de países como Argentina e Venezuela, o que tem espantado os investidores externos.

Mais estímulos

O que estaria então ao alcance do governo federal para conter a desindustrialização? Para Nathan Blanche a indústria brasileira é ineficiente e engessada muito por conta da “impostação” em enfeito cascata. Um produto formado por 100 componentes, por exemplo, vai ter que pagar em 100% o custo de sua produção. Para comparação, em 1993, a carga tributária do Brasil era de 22% do PIB e, atualmente, a taxa está em 37%. “Como é que o governo quer incentivar a industrialização se ele fecha a economia brasileira e encarece a produção?”, questiona Blanche.

O parque industrial brasileiro precisa ser livre para produzir e investir em inovação, mas para isso precisa de mais estímulos. O industrial brasileiro necessita se livrar da alta carga tributária, dos entraves com a burocracia e da legislação trabalhista que demanda por reformas. Se o governo adotar políticas nesse rumo, poderá haver a expansão da produção industrial, resultando na geração de mais empregos e renda com a injeção de divisas na economia, estimulando a circulação de mais capital no mercado.

O economista lembra que o governo deve se preocupar com a baixa produtividade do País. A produtividade brasileira é equivalente a 18 % da americana e 50% da mexicana, ou seja, muito abaixo do ideal se comparada à de economias competitivas emergentes ou desenvolvidas. Para Nathan Blanche, independentemente de quem for eleito presidente neste domingo, 26, o termômetro para julgar se economicamente o próximo ano será melhor ou pior do que 2014, vai estar amarrado a uma possível elaboração de novas diretrizes econômicas com começo, meio e fim.

Segundo ele, a “lei bíblica” de políticas econômicas de, primeiramente o Estado planejar para em seguida agir, foi perigosamente desobedecido nos últimos anos, deixando a economia à baila de sua própria sorte. Algo que em 2015 não poderá ser sustentado. “Foram remendos atrás de remendos, principalmente na área cambial. Isso demonstra que houve negligência na condução dos rumos macroeconômicos.”

“A inflação real chega a 9%”

Prejuízo da Petrobrás em não corrigir preços de combustíveis chega a R$ 59 bilhões, enquanto rombo com o represamento dos preços da tarifa energética pode ter chegado a R$ 120 bi lhões

Prejuízo da Petrobrás em não corrigir preços de combustíveis chega a R$ 59 bilhões, enquanto rombo com o represamento dos preços da tarifa energética pode ter chegado a R$ 120 bi lhões

No caso da inflação oficial, as expectativas também estão longe de serem otimistas. Economistas esperavam que o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) — considerado o indicador oficial de inflação do País — fosse de 5,96% em 2014. Mas a taxa deve fechar o ano em 6,29%, e índice superior a este é esperado para 2015. O quadro é de inflação elevada e sem arrefecimento no médio prazo, mesmo após o recente ciclo de aperto monetário, que levou a taxa básica de juros a 11% ao ano.

Enquanto os presidenciáveis discutem a necessidade ou não de um “tarifaço” em 2015, as tarifas públicas e outros preços monitorados pelos governos — ônibus interestaduais, planos de saúde, óleo diesel, táxi, correio, produtos farmacêuticos, gás veicular e de cozinha — já estão subindo acima da meta oficial de inflação. A imprensa tem mostrado a aceleração aguda desses preços que o governo represou para segurar a alta da inflação.

O controle de preços como os da gasolina e da energia elétrica evitou que a inflação, acima da meta de 4,5% desde 2010, estourasse o teto de 6,5% no ano passado. Mas a administração petista já está sendo forçada a rever essa estratégia. Depois de impor uma redução das contas de luz no início de 2013, o governo federal acabou tendo de permitir uma forte elevação neste ano, porque a escassez de chuvas comprometeu a geração da energia hidrelétrica e forçou o uso de termelétricas, de operação muito mais dispendiosa.

O represamento das tarifas de energia quebrou o setor elétrico, segundo Nathan Blanche. De acordo com informações de especialistas da área, consultados por sua empresa, o subsídio no preço da energia bancado pelo governo teria gerado um rombo de 120 bilhões de reais. Já o prejuízo da Petrobrás em não corrigir o preço do petróleo foi de 59 bilhões.

O economista alerta que o próximo presidente não terá condições de recuperar o prejuízo em um único ano, e será preciso um planejamento de médio em longo prazo. “Se tentar fazer em um ano só quebra o contribuinte, porque o Tesouro está deficitário. É uma visão totalmente populista esta de congelar os preços tarifários da energia e gasolina.”

As tarifas subiram 13,58% em um período de um ano, e a taxa só não é mais alta porque o Tesouro Nacional está gastando R$ 13 bilhões em subsídios para compensar as perdas das empresas do setor. A principal incógnita é como o governo atual e o futuro vão reajustar os preços da gasolina, que têm grande impacto na taxa de inflação. Para 2015, a estimativa é de inflação de 7% nos preços dos monitorados.

Tripé econômico

Nathan Blanche diz que o receituário para conter a inflação começa pela transparência. Para ele, manipular e tentar manter os índices com artimanhas nunca deram certo. O economista sugere que a inflação real no Brasil, sem o congelamento do preço dos combustíveis, tarifa de ônibus e energia elétrica, chegaria facilmente ao patamar de 8% ou 9%.

Blanche explica que, com o Plano Real, o País teve grandes ganhos, porém as conquistas estão se perdendo com o fim do tripé econômico: responsabilidade fiscal, meta de inflação e câmbio flutuante. Por muito tempo esta política monetária foi o sustentáculo da economia brasileira, sendo a base para o crescimento econômico experimentado pelo País na última década.

Nathan Blanche afirma que, numa época em que a inflação esteve em 2.500% ao ano e 40% ao mês, a adoção do tripé trouxe confiança aos agentes externos a investirem no Brasil. Este modelo também instaurou no País a cultura de proibição da emissão de moedas sem lastros, medida importante para a redução drástica da inflação. “O mundo hoje é uma montadora de eficiência e quem tentar artifícios vai ficar fora do jogo.”

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