É impossível negar a gravidade da denúncia

Defensores do presidente Michel Temer, com razão, dizem que áudio não mostra que ele avalizou “cala-boca” para Eduardo Cunha, mas há muito mais fatos que precisam ser explicados

Afonso Lopes

A manchete explodiu co­mo uma bomba arrasa-país-inteiro: o presidente da República, em conversa gravada por um empresário, teria dado o seu aval para pagamento de pro­pina ao ex-deputado E­duardo Cunha com o objetivo de fazer com que ele fique longe da tentação de aderir ao programa de delação premiada. Mas quando a Justiça resolveu levantar o sigilo que ainda existia sobre essa gravação, que compõe um arsenal bem maior da delação dos irmãos Joesley e Wesley Batista, donos do grupo JBS, constatou-se que a tal bomba deu chabu: o presidente não afirmou em nenhum momento dos 39 minutos gravados que apoiava uma ação como a descrita.

Isso gerou certo ânimo inicial não apenas no presidente Michel Temer como em alguns dos seus mais fiéis escudeiros palacianos. Enquanto Brasília já especulava, na tarde de quinta-feira, 18, que a renúncia do presidente poderia ocorrer já no início da noite, Temer surgiu em rede nacional para garantir que não deu aval a coisa alguma e que não vai renunciar.

Essa pode até ser a intenção do presidente Michel Temer, mas se é verdade que o áudio gravado não mostra ele avalizando o pagamento de propina para manter Eduardo Cunha calado, outras bombas, de menor repercussão, mas igualmente complicadas, causaram ferimentos muito grandes na credibilidade do principal mandatário do Brasil.

Temer precisa explicar inicialmente porque se reuniu com um em­presário suspeito de ser beneficiário de um milionário esquema que re­cebeu bilhões de reais em empréstimos pra lá de privilegiados do BNDES, e que responde a inquérito por esse motivo, de forma extremamente discreta, quase secreta, embora não clandestina. Esse fato fica evidenciado no teor do diálogo gravado entre os dois.

Joesley disse que tinha acertado o encontro com o presidente através do deputado Rodrigo Rocha Loures, ex-secretário de Temer no Palácio das Esmeraldas, e que foi afastado de suas funções por determinação da Justiça. Joesley contou que na hora marcada para o encontro, no período da noite, no Palácio do Jaburu, residência do presidente, o deputado estava em outro compromisso. Ainda assim, e dirigindo o próprio carro, Joesley não foi parado pela segurança, que apenas conferiu os números da placa do seu carro e permitiram sua passagem imediatamente. “Não te viram (chegar)?”, perguntou Temer. “Não. Funcionou super bem”, respondeu Joesley. Temer concluiu: “Melhor assim”.

O que precisa ser explicado nesse caso é por que o presidente recebeu um empresário à noite, no Palácio residencial, extra-agenda. Mais do que isso, por que ele achou que dessa forma foi “melhor”. Qual é a explicação para isso?

Outro ponto inegavelmente bombástico é a parte da conversa em que Joesley Batista conta para o presidente da República que subornou um procurador da justiça federal, além de ter feito menção ao controle que teria sobre um juiz e seu substituto – não se informou de qual tribunal. Esse encontro ocorreu em março deste ano, e o procurador Ângelo Vilela teve sua prisão temporária decretada com a homologação da delação premiada de Joesley.

Temer precisa explicar exatamente o que ele fez após tomar pleno co­nhecimento, de viva voz, de que um acusado conseguiu subornar um procurador da Justiça. O chefe desse procurador, Rodrigo Janot, foi informado pelo presidente da República para que o caso fosse in­vestigado? Ele acionou o Mi­nis­tério da Justiça para colocar a polícia federal para investigar se o fato era verdadeiro ou não? Ou ele ficou calado, mesmo sabendo que um crime grave foi cometido?

Por fim, ainda que a grande bomba tenha dado chabu, uma dúvida persiste: por que, ao ouvir de Joesley que sua relação com Eduardo Cunha era boa, Temer fechou com a frase que se tornou famosa — embora em outro contexto: “Isso precisa continuar”. Qual é o interesse do presidente da República nessa boa relação entre um empresário com muitos problemas na Justiça, ao ponto de levá-lo à aderir ao programa de delação premiada, com um ex-deputado condenado na operação Lava Jato e que se encontra na cadeia de Curitiba?

Sim, não foi uma bomba arrasa-país-inteiro como se anunciou inicialmente, mas moralmente o governo precisa se explicar para sobreviver.

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