“Desconstruindo Teo” em “Desconstruindo Sofia”

Obra do escritor goiano e membro da Academia Anapolina de Letras, Solemar Oliveira, é marcada por traços do niilismo, doutrina filosófica que indica um pessimismo e ceticismo extremos perante qualquer situação ou realidade possível. Consiste na negação de todos os princípios religiosos, políticos e sociais. Teo, o anti-herói, do romance, ora analisado, é a representação imagética desse conceito

Escritor goiano e membro da Academia Anapolina de Letras, Solemar Oliveira: obra niilista | Foto: reprodução

Edergênio S. Vieira
Especial para o Jornal Opção

Qual, ou melhor, quais desafios são apresentados ao escritor na concepção de uma obra? A feitura de um livro pode ser comparada ao ato de conceber? No sentido gramatical, a concepção é um substantivo feminino que, entres outras coisas, quer dizer ato ou efeito de conceber ou gerar um ser no útero. A concepção, no sentido biológico, é um eminentemente feminino. Mas não é estranho o fato de que as narrativas das religiões deístas apontem para o criador como um ser masculino? E a concepção ser um ato exclusivamente das fêmeas?

A palavra concepção é polissêmica, no campo da Filosofia o léxico corresponde ao ato de elaboração de conceitos. Iniciando com a compreensão da essência de um objeto e culmina na elaboração de um conceito. Logo, a concepção é fruto da inteligência de alguém, e pari passu contribui para formação de múltiplos conceitos. Então, neste breve ensaio sobre a obra “Desconstruin­do Sofia”, do escritor goiano e membro da Academia Anapolina de Letras, Solemar Oliveira, quero somente conceber conceitos. Aqui, no caso, eu serei o criador, cabe tão somente a mim a missão de conceber uma análise sobre a obra, identificando características niilistas no presente excelso opúsculo.

Niilismo é uma doutrina filosófica que indica um pessimismo e ceticismo extremos perante qualquer situação ou realidade possível. Consiste na negação de todos os princípios religiosos, políticos e sociais. Teo, o anti-herói, do romance, ora analisado, é a representação imagética desse conceito.

E por falar em conceito, a palavra ni­ilista teve origem na palavra em la­tim nihil, que significa “nada”. O seu sentido original foi alcançado graças a Friedrich Heinrich Jacobi e Jean Paul. Este conceito foi abordado mais tarde por Nietzsche, que o descreveu como falta de convicção em que se encontra o ser humano, após a desvalorização de qualquer crença. Essa desvalorização acaba por culminar na consciência do absurdo e do nada.

O niilismo representa uma atitude crítica em relação às convenções sociais, e o termo aparece pela primeira vez na obra de Turguêniev, “Pais e Filhos”. Nesta obra literária, uma personagem afirma: “Um niilista é um homem que não se curva ante qualquer autoridade; nem aceita nenhum princípio sem exame, qualquer que seja o respeito que esse princípio envolva”. Essa fala, presente na referida obra, poderia muito bem sair da boca de Teo, ao desafiar alguma autoridade, ou um monólogo pronunciado em sua cabeça por meio de um fluxo de consciência.

Niilismo moral, ético, existencial, político e negativo

Mas qual seria o grau de niilismo de Teo perante a vida? Apresento-lhes a definição de cada um dos niilismos apontados acima.

O niilismo moral (ou niilismo ético) consiste em um ponto de vista em que nenhuma ação pode ser considera moral ou imoral. O niilismo existencial significa que a existência do ser humano não tem qualquer sentido ou finalidade, e, por isso, o homem não deve procurar um sentido e um propósito para a sua existência.

O niilismo político tem como fundamento que a destruição de todas as forças políticas, religiosas e sociais, são essenciais para um futuro melhor.

O niilismo negativo, que deu origem a todos os outros, consiste na negação do mundo perceptível aos sentidos, para buscar um mundo ideal, um paraíso. Teve origem graças ao platonismo e cristianismo. Teo não se preocupa com regras (apesar de ser brilhante matemático), pode-se dizer que é avesso a elas. Teo é a personagem que levaria Sofia para o quarto e a comeria no velório de sua própria mãe. A personalidade de Teo evidencia que não há qualquer sentido para existência humana. Ele é contra tudo, religião, política, valores sociais e morais. Para Teo, Deus é “…uma estaca enfiada no seu cu”. Para ele, “os pastores, padres e outros seres desta fauna falida só podem ser admirados pela façanha de terem encontrado no humanos uma fonte inesgotável de renda…”.

De acordo com Nietzsche, o niilismo pressupõe a morte da Divin­da­de Cristã e seus princípios. O homem se despede assim dos valores morais e regras estabelecidas por essas doutrinas.

Para Nietzsche, existem dois tipos de niilismo: o passivo e o ativo. O niilismo passivo pode ser visto como uma espécie de evolução de uma pessoa, apesar de não haver uma mudança dos valores. Por outro lado, o niilismo ativo vira todas as suas forças para a demolição da moral, sendo que tudo fica no vazio e o absurdo ganha preponderância, de tal forma que o niilista só tem como solução esperar ou causar a sua própria morte.

O niilismo passivo é o niilismo de Schopenhauer, em que, para o ser humano, nada faz sentido, a vida é uma batalha sofrida. Nietzsche tem como objetivo dar mais importância ao niilismo ativo do que ao passivo, indicando que o Homem é mais forte sabendo que o mundo não tem sentido. Só dessa forma o ser humano é capaz de criar novos valores adequados.

Não à toa, numa previsão epifânica, Teo deseja que seja escrito em sua lápide o seguinte texto: “Ainda vestimos o luto pela morte de Deus, desde o enunciado de Zarastustra, nas letras gloriosas de Nietzsche, no nascimento da revolta. E, em decorrência desse estado lastimável, depositamos flores em seu túmulo todos os dias. Na véspera da incerteza, esperamos encontrá-lo bruto, novamente, nos jardins da vida, penalizando a nossa moral conturbada e ditando novas normas absurdas de comportamento. Enquanto isso o Super-homem dorme!”.
Teodoro e Sofia. O amor sufocante entre o criador e a criatura. O romance entre o professor e a puta. O amor levado até as últimas consequências. O amor visceral, desnudado, os traços literários de Solemar transporta-nos para uma cidade fictícia, mas carregada de verossimilhanças com a Santana das Antas. É a mimese completa na perspectiva aristotélica. A tragédia que marca nossas vidas é desnudada aos nossos olhos, com palavrões que vociferam da boca abjeta do professor.

O olhar sobre a tragédia é uma narrativa interessante, partindo de Nietzsche no livro “O Nascimento da Tragédia”, ao analisar a obra de três importantes escritores gregos, Ésquilo, Sófocles e Eurípedes, o filósofo alemão analisa por meio da sua concepção idiossincrática do papel da tragédia. Para Nietzsche, a grandeza do gênero está alicerçada na sua possibilidade de realizar uma translação do que se passa no universo, ao demonstrar o combate entre dois impulsos fundamentais. Nesse sentido a concepção nietzschiana de tragédia parte de dois conceitos basilares no pensamento do filósofo alemão: o apolíneo e o dionisíaco. Esses dois conceitos na verdade são dois elementos da natureza que se combatem e se complementam o tempo todo. Afinal, não encontramos essas forças em Teo e Sofia?

Teo lembra Apolo, o deus da simetria, da beleza corporal formal e das artes plásticas. Lembra a perfeição matemática, mas também diz respeito à individualização de todas as coisas. Um típico narcisista, que não consegue enxergar nada além do seu redor. Ao passo que Sofia é Dionísio, vinculado ao vinho, ser hibrido, dado ao excesso, ao movimento (Sofia, tal como uma pipa no mês de julho, flutua pela cidade), é sensualidade no corpo e no olhar, Sofia é música, sinfonia.

Mesmo seres tão opostos, um não vive sem o outro. Sofia e Teo, Teo e Sofia se completam. Um não vive sem o outro e vice-versa. Mas há sempre a inveja da beleza do outro, no caso, da outra. E, por isso, aquele que cria, tem o poder de destruir, ao perceber que a criatura superou o criador.

Porém, o que Teo não sabe é que ao matar a sua criatura, ele está matando a si mesmo, porque Teo e Sofia são os dois lados de uma mesma moeda.

Deixe um comentário