Das redes para as urnas, mídias sociais farão diferença nestas eleições

Sem financiamento privado e com propagandas mais curtas, a corrida eleitoral contará com maior participação de ferramentas online

Reprodução

Menos tempo de campanha e saldo reduzido. Em uma conjuntura publicitária desfavorável, as eleições deste ano podem encontrar nas redes sociais um peso maior do que nas últimas disputas. Uma década atrás, campanhas como a de Barack Obama se destacavam como verdadeiras lições de marketing, justamente por serem pioneiras ao colocarem a internet no centro de suas ações. Hoje, ainda mais presentes, diversas e com ferramentas mais amplas, as plataformas online são um recurso utilizado por praticamente todos os pré-candidatos a um cargo no Executivo ou Legislativo. Publicitários e pesquisadores especializados em comunicação apontam que as mídias sociais podem ser uma das grandes aliadas dos políticos, ultrapassando, inclusive, caminhos percorridos pela televisão.

Para contabilizar votos até outubro, os candidatos terão que correr contra o tempo, já que o período de campanha em rádio e TV foi reduzido para menos da metade, caindo de 90 para 35 dias. Além disso, a duração das propagandas será menor. Ao contrário de 2014, quando apenas Dilma Rousseff (PT) e Aécio Neves (PSDB) somavam juntos 23 minutos, agora a quantidade total consiste em dois blocos de 25 minutos para todos os candidatos. Quanto ao orçamento, o dinheiro está mais curto. Diante de decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), estas serão as primeiras eleições gerais sem financiamento privado.

“As redes sociais são alternativas mais baratas, no entanto, suas estratégias são frágeis”, aponta professor Daniel Christino

De acordo com o professor da Faculdade de Informação e Comunicação da Universidade Federal de Goiás (UFG), Daniel Christino, as redes sociais tornam-se ferramentas interessantes no contexto de redução de custos. “As redes sociais são alternativas mais baratas, no entanto, suas estratégias são frágeis”, aponta. Para ele, é difícil saber se o voto foi genuinamente influenciado por essas mídias. Por outro lado, “é um lugar de engajamento direto, no qual o candidato pode se relacionar com as pessoas que o defendem, diferente da TV, em que a relação é unilateral”.

Essa interação é fundamental, segundo o publicitário Rodrigo Tizziani. O profissional já realizou o planejamento de campanhas como as de Roberto Naves (PTB), eleito prefeito de Anápolis em 2016, e Daves Soares (PSD), atual chefe administrativo de Itapuranga. Ele afirma que as respostas do público são muito importantes, mesmo as negativas. “Se a pessoa interagiu, é porque ela tem algum interesse em se aproximar daquela personalidade. A indiferença é o pior. Quando alguém faz uma crítica, do tipo ‘todo político é ruim’, você pode ter o voto dele se dialogar”, explica.

Dispositivos

No Brasil, cerca de 116 milhões de pessoas estão conectadas à internet. Isso equivale a 64,7% da população acima de 10 anos de idade. As informações são da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad C), divulgada no início do ano pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Para ter acesso ao mundo online, o celular segue sendo o principal aparelho utilizado pelos brasileiros. Conforme os dados, a maioria esmagadora, 94,6%, conta com esse eletrônico para tal fim. “Por conta do celular, cresceu a capacidade das redes sociais de colonizarem a internet”, afirma Daniel Christino. “E no celular, a principal forma de interação são as redes sociais, WhatsApp, Instagram, Twitter e Facebook”, acrescenta.

Ainda que impactantes, as redes ficarão aquém da TV, segundo o professor. A televisão continua sendo muito marcante na rotina do brasileiro. “Mas a tendência, ao longo do tempo, é haver uma inversão, com o celular se tornando mais presente”, considera. Rodrigo Pzziani acredita que isso já está acontecendo. “Nas eleições de 2018, as redes terão um papel mais relevante que a televisão”, diz. O publicitário afirma que a forma como o horário eleitoral é concebido “desprestigia” o candidato e estima que pelo menos metade do eleitorado será influenciado pelas mídias na internet.

Apesar de serem um dispositivo de campanha eficiente, as redes sociais são regidas por características próprias de cada mídia. “Os candidatos têm o péssimo hábito de utilizar os mesmos conteúdos para todas as redes”, destaca Rodrigo. Ele explica que o Instagram, por exemplo, é um recurso mais pessoal, diferente do Facebook, que seria mais politizado. “Deve existir uma separação e o conteúdo se adaptar de acordo com a mídia que será veiculado”, orienta. Cabe ao marketeiro, portanto, traçar métodos de divulgação para que as publicações sejam dinamizadas e alcancem mais pessoas.

“Não se pode deixar que uma fake news fique sem resposta por muito tempo, se não ela vira uma verdade”, afirma o publicitário Rodrigo Tizziani

Daniel Christino, todavia, adverte sobre a decadência do Facebook. Devido aos escândalos recentes de vazamento de dados, além de novas políticas de direcionamento de publicações, a companhia pode estar dando os primeiros passos rumo a sua derrocada. “O Facebook está controlando o que seus usuários postam, por meio de filtragens e taxas. Quando você publica, apenas 3% a 5%, em média, são retornos e likes orgânicos. O resto é preciso impulsionar e isso é um grande problema”, analisa. O Instagram, por sua vez, tem caído no gosto dos internautas, se apropriando de um espaço cada vez maior. “Por permitir maior interação, é uma rede social mais recompensadora”, afirma o especialista.

Fake news

A disseminação de notícias falsas é uma das maiores preocupações neste período eleitoral. Várias instituições públicas têm convocado debates no intuito de encontrar soluções para combater a propagação das chamadas fake news e garantir transparência nas campanhas políticas.

A internet é o hospedeiro perfeito para esse fenômeno. Com a rapidez e o grande alcance proporcionados pelas redes, informações deturpadas ou completamente falsas ganham projeção e se afirmam como verdadeiras. De acordo com pesquisadores da área, isso acontece porque as redes sociais não trabalham com a prerrogativa da informação correta. Daniel Christino salienta para aspectos mais profundos que precisariam ser avaliados, como quem envia e quem recebe a informação.

“Existem dois pólos a serem analisados. O primeiro diz respeito a quem envia, onde entrariam os bots, que disseminam a mensagem e criam volume. O outro é o de quem recebe. Esse pólo é ainda mais interessante porque temos que nos perguntar o que faz com que a pessoa acredite em algo que é claramente falso”, esclarece.

Os robôs ou bots são perfis falsos presentes em mídias sociais e capazes de distribuir mensagens de forma programada. Sendo assim, essas mensagens são entregues em grande escala. O estudo Robôs, Redes Sociais e Política no Brasil, realizado pela Fundação Getulio Vargas (FGV), revelou que partidários utilizam esse tipo de ferramenta, seja para criar ou para fomentar debates em apoio a políticos.

Para o professor, “geralmente, quem recebe e viraliza fake news o faz porque o conteúdo se encaixa naquilo que ela acredita”. Segundo ele, é mais importante, para esse indivíduo, reafirmar suas crenças do que a veracidade da informação. Além disso, repassar aquele conteúdo é uma forma de sinalizar o pertencimento a um grupo. “Apresentar ideias que nem sempre são verdadeiras para mostrar para a pessoas que está do outro lado que alguém pensa da mesma forma que ela”, complementa.

Correlata: Senso crítico e réplica

Muito já se discutiu sobre fake news e, por envolverem espectros tão complexos da comunicação, algumas medidas para combatê-las parecem simples, mas podem ser um bom início. Nos debates, a educação virtual é colocada como uma das armas para identificar notícias falsas. Avaliar a informação em questão, não se limitar a ler apenas o título da notícia e verificar a autoria são algumas orientações.

No campo eleitoral, a resposta imediata contradizendo aquele conteúdo falso é o primeiro passo. Rodrigo Pizziano deixa a dica: “Não se pode deixar que uma fake news fique sem resposta por muito tempo, se não ela vira uma verdade. Então, pelos mesmo meios que a notícia veio, é preciso respondê-la”.

 

Como pré-candidatos ao Governo de Goiás estão utilizando suas redes?

Por meio da ferramenta Likealyzer, que analisa o desempenho de páginas no Facebook, investigamos a performance de quatro pré-candidatos ao Governo de Goiás na rede social. Saiba como Ronaldo Caiado (DEM), José Eliton (PSDB), Daniel Vilela (MDB) e Kátia Maria (PT) estão atuando no mundo online:

Ronaldo Caiado | 920.688 likes

Foto: André Corrêa/Agência Senado

Informações: O menu “Sobre” está 55% completo, faltando informações quanto ao número de telefone e e-mail.

Postagens: São publicadas 3,6 postagens por dia (média).

Tipos de mídias: 48% das postagens são fotos, 35% são apenas texto e 18% vídeos.

Interação: Os usuários não têm permissão para publicar diretamente na página ou mandar mensagens privadas, apenas por meio de comentários nas postagens.

Gerenciamento: Segundo a assessoria, a própria equipe de comunicação do pré-candidato gerencia e cria conteúdo para a página.

 

José Eliton | 42.419 likes

Divulgação

Informações: O menu “Sobre” está 20% completo, faltando informações quanto ao número de telefone e e-mail.

Postagens: São publicadas 2,9 postagens por dia (média).

Tipos de mídias: 75% das postagens são fotos, 1% são apenas texto e 24% vídeos.

Interação: Os usuários não têm permissão para publicar diretamente na página, apenas por meio de comentários nas postagens e mensagem privada.

Gerenciamento: A assessoria não informou.

 

Daniel Vilela | 38.762 likes

Arquivo

Informações: O menu “Sobre” está 40% completo, faltando informações quanto ao número de telefone.

Postagens: São publicadas 2,1 postagens por dia (média).

Tipos de mídias: 59% das postagens são fotos, 23% são apenas texto e 17% vídeos.

Interação: Os usuários não têm permissão para publicar diretamente na página, apenas por meio de comentários nas postagens e mensagem privada.

Gerenciamento: Segundo a assessoria, a própria equipe de comunicação do pré-candidato gerencia e cria conteúdo para a página.

 

Kátia Maria | 823 likes

Reprodução

Informações: O menu “Sobre” está 24% completo, faltando informações quanto ao número de telefone e email.

Postagens: São publicadas 2,3 postagens por dia (média).

Tipos de mídias: 72% das postagens são fotos, 9% são apenas texto e 19% vídeos.

Interação: Os usuários têm permissão para publicar diretamente na página, comentar nas postagens e enviar mensagem privada.

Gerenciamento: Segundo a pré-candidata, uma equipe está sendo estruturada para gerenciar as mídias sociais, mas ela afirmou que continuará produzindo conteúdo e interagindo com os usuários por conta própria.

 

O riso é livre

Pode fazer sátira política em período de campanha eleitoral? Agora pode. O STF decidiu, no último dia 21 de junho, liberar veículos de comunicação a utilizarem o humor para tecer críticas aos candidatos. A Corte atendeu ao pedido da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert) para derrubar um trecho da lei que proibia emissoras de TV de “usar trucagem, montagem ou outro recurso de áudio” que “ridicularizem” candidatos, partidos ou coligações.

Os ministros entenderam que a antiga norma enquadra-se como censura. Rodrigo Tizziani, que além de publicitário é idealizador do programa de humor Papo de Garagem, concorda. “Medidas como essa ferem o princípio da liberdade de expressão e carregam consigo um alto teor de censura”, argumenta. Segundo ele, o humor é saudável, não somente para um processo eleitoral, mas para a política em si.

Dizem que rir da tragédia entorpece o sofrimento. Se a política vai mal, o humor pode ser um jeito de lidar com a situação. E engana-se quem pensa que essa é uma saída despolitizada. “É uma forma de expressão, uma maneira de comunicar com a sociedade, afirma Rodrigo. “Convenhamos, o brasileiro é um povo alegre, que sabe satirizar fatos importantes e, acima de tudo, dizer verdades de forma divertida e atraente”.

Há mais de 40 anos colorindo a imprensa, o personagem Katteca também comemorou a liberação. Ou melhor, seu criador, o cartunista João Luiz Brito, que acabou ficando conhecido pelo nome do protagonista das tirinhas de humor publicadas no jornal O Popular. Apesar de a medida não se referir a veículos impressos, João Luiz vê o ocorrido como uma conquista. “Já pensou se a gente não criticar os políticos? Temos que ter essa liberdade”, questiona.

Em seus cartuns, o desenhista traça críticas certeiras por meio do índio Katteca, figura mordaz, sempre atenta aos acontecimentos políticos. “Já tive processos policiais, recadinhos que mandam para o jornal, sou bastante criticado. Não sei como o Katteca está vivo”, conta. Apesar das represálias, João Luiz preza por uma “autocensura”. O cartunista explica que o humor deve ser perspicaz, jamais vulgar.

Quanto aos limites da piada, Rodrigo acredita que as pessoas têm naturalmente um filtro com relação às sátiras. “Geralmente quando a piada passa dos limites existe uma rejeição natural por parte da maioria do público. Para mim isto é muito mais saudável do que uma medida judicial que impede esta piada de acontecer”, analisa. Nas palavras de Katteca: “Não se deve calar o humor”.

 

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