Criadores de abelhas e produtores de agrotóxicos buscam consenso

Morte de meio bilhão de abelhas devido a agrotóxicos em 2019 chamou atenção para ameaça à biodiversidade e à própria agricultura 

Abelhas, girassóis e agrotóxicos

O girassol é uma espécie dependente da polinização por abelhas | Foto: Fábio Costa / Jornal Opção

James Allen Brockes foi apicultor na região de Piracanjuba até outubro de 2018. Sua propriedade ficava a três quilômetros de uma lavoura de soja. Durante a pulverização de agrotóxicos por avião, que levava dois a três dias para cobrir os 400 alqueires da fazenda vizinha, ele se fechava em casa para não sentir o cheiro de 2,4-D, neonicotinóides e glifosato. Biólogo por formação, James Allen sabia que, apesar de as abelhas não terem predileção pela soja, o desfolhante de folhas largas misturado aos inseticidas eram um problema.

Por uma questão de rotação de culturas, é comum que produtores de soja plantem girassol na safrinha. As plantas são colhidas durante a seca, mas algumas sementes caem no solo e germinam na época das chuvas, esporadicamente em meio à plantação de soja, atraindo abelhas. A legislação proíbe a aplicação de agrotóxicos durante a floração das culturas, mas eventuais girassóis em flor em meio à soja são negligenciados pelos aviões pulverizadores. 

“Uma abelha que pegava o veneno no girassol era capaz de matar toda a colmeia”, disse James Allen Brockes. “Eu perdi mais de metade dos meus enxames. A cera e as caixas onde elas estavam também foram contaminadas. Infelizmente tive de parar com a atividade… eu gostava muito”, lamenta ele. Quando perguntado a que ele atribui esse acontecimento, ele começa por explicar como é falha a legislação, já que o vizinho produtor de soja matou suas abelhas sem quebrar nenhuma lei.

Criador de abelhas agrotóxicos

O apicultor James Allen Brockes teve de deixar sua atividade pelas baixas em suas colmeias | Foto: Reprodução

Apicultura versus agricultura

A Instrução Normativa do Ministério da Agricultura permite a aplicação aérea de agrotóxicos a 500 metros de povoações, apesar de James Allen Brockes poder sentir o cheiro dos defensivos a três quilômetros de distância. Ele tinha as autorizações necessárias para criar abelhas, bem como para explorar comercialmente o mel, mas nunca foi comunicado a respeito de quando ou quais agrotóxicos seriam utilizados. 

Maria José Oliveira de Faria Almeida, presidente da Associação dos Apicultores de Goiás (Api-Goiás), relata que histórias semelhantes têm se tornado frequentes. “Um apicultor associado perdeu um apiário com 60 colmeias no ano passado, morreram todas. Outro, em Vianópolis, perdeu por dois anos consecutivos; ano passado foram 90 colmeias. Aí tem de começar do zero. O prejuízo é muito grande, se investe material, esforço. Além da tristeza de ver o fruto do trabalho perdido. Chegar ao apiário e ver a quantidade imensa de abelhas mortas é muito triste”.

Apenas nos três primeiros meses de 2019, meio bilhão de abelhas morreram por decorrência da intoxicação por defensivos agrícolas. Por conta da situação, a Confederação Brasileira de Apicultura (CBA) organiza, no dia 9 de julho, a Frente Parlamentar de Apicultura e Meliponicultura, com apoio de mais de 200 parlamentares. O objetivo não é combater o agronegócio ou defensivos agrícolas, mas promover a produção sustentável de mel. A mortandade de abelhas por conta de agrotóxicos vem chamado a atenção de parlamentares de diversos setores.

“Não queremos que as pragas destruam as lavouras, mas com o uso desenfreado agrotóxicos quem acaba prejudicado é o próprio agricultor e o meio-ambiente”, diz Maria José Almeida | Foto: Arnaldo Alves / ANPr.

“Conscientizar tem de ser trabalho do ministério da agricultura”, afirma Maria José Almeida. “Órgãos de apoio têm de ser mais contundentes, explicar aos produtores agrícolas que eles próprios são prejudicados quando se utiliza pesticidas nas lavouras em dosagem inadequada”, diz a presidente da Api-Goiás.

James Allen também ressalta que não vê agricultores como vilões: “Hoje em dia é impossível produzir alimentos sem agrotóxicos. É difícil se manter competitivo e nem todas as culturas podem ser de cultivo orgânico. Não dá para pedir para o fazendeiro aplicar muito dinheiro e correr o risco de perder tudo com uma praga”.

Colmeia Viva

Grupos ligados a produtores de defensivos agrícolas alegam que há um campo comum entre a agricultura e a apicultura. O Colmeia Viva é um movimento sob a governança do Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para a Defesa Vegetal (Sindiveg) que busca proteger as abelhas e defender o setor de produtores de defensivos agrícolas simultaneamente. Os interesses não são necessariamente conflitantes, já que dois terços de todos os vegetais que consumimos dependem de insetos polinizadores.

Segundo o movimento Colmeia Viva, “o maior desafio é estimular o diálogo entre agricultor e apicultor. O criador de abelhas deve contactar o proprietário ou responsável pela área para saber onde é permitido colocar as caixas de abelhas. Com o pasto apícola devidamente formalizado, agricultores deverão avisar sobre a pulverização, como recomendados na bula dos produtos, indicando o tempo de proteger as caixas de forma correta”. 

Para isso, o Colmeia Viva criou um Plano Nacional de Boas Práticas para prevenção da mortalidade de abelhas, além uma plataforma digital para estimular o diálogo. Informações como as espécies de plantas mais atrativas para as abelhas e como incentivar a visitação nas áreas de cultivo estão disponíveis no site do movimento. O Colmeia Viva afirma que, mesmo em culturas que não dependem de abelhas para sobreviver, o inseto pode oferecer vantagem competitiva entre os produtores incrementando a produção em até 40%. 

Meio termo

O principal argumento dos grupos ligados a produtores de defensivos é que o uso correto de defensivos agrícolas não compromete a polinização realizada por abelhas. Em participação com a Universidade Estadual Paulista (Unesp) e a Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), a iniciativa realizou uma pesquisa que concluiu que, caso os produtores sigam o manual com mais de 70 dicas de práticas agrícolas e apícolas, não há mortalidade de abelhas próximo a culturas dependentes de polinização.

Entretanto, na prática, a questão parece ser mais complexa. O ex-apicultor James Allen Brockes afirma: “É complicado. Depende do tipo de agrotóxico usado. Alguns permanecem nas lavouras por meses. O agricultor tem de ter alguma razão para usar o menos prejudicial. Certos defensivos, mesmo se aplicados conforme a legislação, contaminam abelhas meses depois. Para dar certo, é necessária muita pesquisa científica e muita boa vontade dos apicultores, governos e fazendeiros”.

Maria José Oliveira de Faria Almeida concorda: “Seria possível ter abelhas e defensivos agrícolas se a legislação fosse mais favorável à proteção das abelhas. Hoje, com a autorização de novos pesticidas a cada ano, mesmo com boas práticas, a adoção indiscriminada de novos agrotóxicos torna a apicultura imprevisível”.

Boas Práticas

Algumas medidas trazidas no Manual de Boas Práticas da realização Colmeia Viva:

Boas práticas para proteger abelhas de agrotóxicos

Foto: Reprodução / Colmeia Viva

1. Corredores naturais: São corredores de plantas que conectam matas ao longo da paisagem agrícola e possibilitam a movimentação das abelhas, trazendo benefícios para a biodiversidade, para a saúde e a nutrição das abelhas.
2. Pasto apícola e área de forrageamento: As abelhas costumam forragear áreas com até 2 km de distância de seus ninhos ou colmeias, dependendo da espécie, em busca de recursos florais. Atribuímos o nome de pasto apícola às áreas de forrageamento de abelhas criadas comercialmente, visto que a escolha de instalação da caixa de abelhas é uma opção do criador de abelhas.
3. Área de mata: As áreas de matas são locais relevantes para a utilização como pasto apícola. As áreas de matas (fragmentos nativos ou restaurados) podem ser espaços territoriais especialmente protegidos (ETEP) que são públicos ou privados e têm diferentes graus de proteção e exigências para instalação de colmeias.
4. Faixa de Segurança: É a distância mínima e regulamentada que a aplicação aérea de defensivos agrícolas deve manter de determinadas áreas.
5. Cultura dependente: É a cultura que depende da polinização realizada por abelhas para expressar todo o seu potencial produtivo.
6. Cultura beneficiada: É a cultura que pode melhorar seu potencial produtivo em função da polinização realizada por abelhas.
7. Cultura não dependente: É a cultura que não depende da polinização realizada por abelhas para produzir.
8. Aplicação de defensivos: São todos os métodos e mecanismos utilizados para a aplicação de defensivos agrícolas nas culturas. Todo o procedimento deve ser orientado pelo rótulo e a bula de cada produto, seguindo ainda o receituário agronômico.

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