Coronel Silvana comanda PM numa região moderna mas conservadora

Silvana Ramos, primeira coronel da PM goiana, torna-se também a primeira mulher a assumir um comando regional no Estado, o de Rio Verde

Silvana Ramos, primeira coronel da PM goiana, torna-se também a primeira mulher a assumir um comando regional no Estado, o de Rio Verde | Foto: Cabo Luisa/PM-GO

Em 1987, aos 19 anos, a personalidade de Silvana Rosa de Jesus Ramos ganhou contornos pouco comuns para a época. Vestida à farda, com o revólver calibre 38 posicionado em um coldre na cintura, Silvana talvez não pudesse imaginar que, em uma turma com 100 moças proponentes à Polícia Militar (PM), se tornaria, em 2017, a primeira coronel goiana e, meses depois, receberia, honrada, o convite para comandar o batalhão regional de Rio Verde que engloba 18 municípios. A menina simples entraria para a história da Polícia Militar do Estado de Goiás pelo pioneirismo.

Os relatos que envolvem o nome da policial esbarram em um currículo especializado naquilo que ela mais gosta de fazer nos últimos 32 anos: garantir a segurança dos goianos por meio de disciplina e estratégia. A platéia que assistiu à posse de Silvana no início do mês de março, no entanto, não poderia imaginar os percalços por que ela passou para a honraria. Quando a empossou ao cargo, o secretário de Segurança Pública, Irapuan Costa Junior, declarou: “A coronel Silvana tem grandes serviços prestados e nos enche de orgulho”.

Reservada, a policial desconversou sobre alguns assuntos com o repórter, mais para preservar esta característica que a transforma em um exemplo para policiais que a procuram, com admiração e respeito. Este estilo pautado pela lealdade, pouca fala, sempre cautelosa, talvez seja o segredo do sucesso da militar. É assim que age quando assume que trocou tiros com bandidos. “Revidei à injusta agressão”, disse, sem dar detalhes.

Este status reservado, contudo, é reforçado por amigos e colegas de trabalho que lidaram com Silvana, que escalou a hierarquia da Polícia Militar goiana a partir de muito estudo. Em meio às escalas nas ruas ou nos batalhões, atuando nos bastidores de ações da PM, teve de conciliar a criação dos três filhos. Sem surpresa, o trio pretende seguir o caminho da mãe.

Os filhos, contudo, não são os únicos. Dois irmãos mais novos dela são policiais promissores. É que eles lembram que a coronel, filha de uma mãe que trabalhou de serviços gerais e um pai carpinteiro, suportou a dificuldade de viajar de Goiânia a Anápolis todos os dias para cursar Direito.

Conforme a policial, um fator importante para as primeiras mulheres da PM foi o pioneirismo da turma da Marinha à época. “Mas, para mim, o mais importante seria conseguir pagar a faculdade. Eu trabalhava como professora, mas não era suficiente.”

Foi então que um vizinho policial, o cabo Rosemar, a informou sobre o concurso. “Não pensei duas vezes e me inscrevi.” Passou e, ao assumir o trabalho, percebeu que inicialmente a atuação mais pareceria ao de relações-públicas. “Nós, mulheres, ficávamos muito em shoppings, rodoviárias e aeroportos. Não éramos reconhecidas como policiais.”

Uma curiosidade no início da car­reira da coronel foram os casos em que as policiais transitavam pelo Centro de Goiânia usando boinas vermelhas e, confundidas com estudantes, ou qualquer outra atividade menos de policial, eram assaltadas. O que os ladrões levavam? “As boinas vermelhas que a gente carregava sobre a cabeça”, conta. “Aí tínhamos de acionar viaturas para procurá-los.”

Também no início, a policial teve de obedecer algumas regras inexistentes atualmente. Nenhuma policial feminina poderia, por exemplo, chupar picolé ou beber caldo de cana publicamente enquanto estivesse de farda. Maquiagem, tintura no cabelo? Nem pensar. “Hoje o armamento e o uniforme são o mesmo para homens e mulheres. Há igualdade”, garante.
Simone Aparecida Clemente de Paula, 51 anos, também fez parte da primeira turma de policiais femininas. Mesmo depois de deixar a PM cinco anos após assumir , ainda consegue se lembrar bem de como iniciou a amizade com Silvana. “Ela sempre foi esforçada, nunca se deixou abater pelas dificuldades. Superou os obstáculos e ainda ajudou muitas pessoas.”
Atualmente voluntária na ONG Grupo Fraterno Paulo de Tarso, fundado pela sogra dela, Simone conta que já recebeu ajuda da coronel. “Ela sempre nos ajuda, sempre com muito carinho. Realmente, ela tem muito mais do que talento para a polícia, tem amor às pessoas”, elogia a colega de turma.

A ex-policial e amiga da coronel relembra que bem no início do trabalho, dificilmente revelava que era policial. “Eu não era a única que me escondia, pois já existia preconceito aos policiais. Ainda hoje a sociedade não vê o policial militar com bons olhos, mesmo que precise deles”, reclama Simone.

Uma das primeiras atitudes da coronel foi se encontrar com a Delegada Titular da 8ª Delegacia Regional de Polícia, de Rio Verde, Taisa Antonello. “Ela está muito entusiasmada com o plano estratégico de segurança para a nossa região, sempre com ações conjuntas entre PM e Polícia Civil”, disse Antonello.

Há 14 anos da Polícia Civil, a delegada, que passou pelos municípios de Mineiros e Rio Verde, não tem dúvidas: a coronel vai desempenhar um trabalho exemplar na região. “É visível a capacidade dela”, observa.

Nos próximos dias, a comandante vai cumprir um cronograma de visitas às cidades onde ela dará assessoramento e, com isso, levar as demandas de efetivo e viaturas para o Comando Geral, em Goiânia. “Temos o grande comprometimento com a sociedade, levando segurança, defendendo as pessoas.”

Para ela, o segredo para ter alcançado o alto escalão da PM são a fidelidade e a lealdade. “E é por aí que também reconheço os comandantes que estão nas unidades da minha região”, declara. A respeito de como se comportaria em casos em que tivesse de punir policiais por desvios de conduta, não pestaneja: “Sou técnica e terei como base a legislação, mas quem deverá tomar decisão é o comando-geral.”

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