Conheça a médica goiana que participou de duas cirurgias cardíacas pioneiras

Raissa Lagares esteve nas equipes que substituíram próteses de valvas aórticas e implantaram o menor marca-passo do mundo, tudo sem abrir o peito dos pacientes

Raissa Lagares pretende se especializar em implantes pouco invasivos | Foto: Acervo Pessoal

No dia 10 de novembro de 2021, pela primeira vez no Brasil, foi realizada uma cirurgia para substituir uma prótese defeituosa na artéria aorta por uma nova prótese de forma pouco invasiva, com auxílio de câmeras e mecanismos robóticos. Apenas dez dias depois, outra equipe de cardiologia implantou o menor marca-passo do mundo em um paciente – esta foi a segunda vez que o procedimento foi realizado no Brasil. 

As duas operações pioneiras foram realizadas no Hospital da Beneficência Portuguesa (BP) de São Paulo, comandados pelas equipes dos médicos Mohamad Said Ghandour e Carlos Eduardo Duarte, respectivamente. A cardiologista goiana Raissa Lagares é especialista em arritmias cardíacas e cardiologia do esporte, e atuou em ambas intervenções. Em entrevista ao Jornal Opção, ela comenta os procedimentos inovadores, o futuro da cardiologia e seus planos de trazer sua expertise de volta à Goiânia.

Transcateter Valvar Aórtico (Procedimento de Valve in Valve)

No hospital da BP em São Paulo, Raissa Lagares acompanhava um paciente de 85 anos que era portador de insuficiência cardíaca classe III – o enfermo se sentia confortável em repouso, mas tinha sintomas de fadiga, dispneia ou palpitação por conta de doença cardíaca estrutural. O paciente de Raissa Lagares já havia passado em 2017 por uma cirurgia convencional no coração para implantar uma valva “Perceval S” com objetivo aumentar a abertura da válvula aórtica.

Entretanto, nos últimos meses, o paciente se queixava de cansaço aos mínimos esforços. Raissa Lagares verificou repetidamente o quadro de derrame pleural, ou seja, o acúmulo anormal de líquido no espaço entre os pulmões e o interior da parede torácica. Por meio de exames, a arritmologista verificou que a prótese previamente implantada estava com uma importante estenose – um estreitamento que obstruía o fluxo de sangue do ventrículo esquerdo para a artéria aorta.

A prótese precisava ser trocada, mas, em discussão com o Heart Team, os cardiologistas do hospital consideraram que uma nova operação convencional (com abertura cirúrgica do peito do paciente) seria muito arriscada. Após estudo dos exames e imagens, o time decidiu fazer um implante transcateter valvar aórtico (procedimento TAVI) tipo valve in valve (VIV) a fim de substituir a válvula defeituosa. 

Procedimento coordenado por Mohamad Said Ghandour | Foto: Acervo Pessoal

A prótese Perceval S seria trocada por uma valva Myval (produzida pela empresa Meril), por tratar-se da única valva com tamanho intermediário – 21,5mm. O maior risco era o missmatch, que ocorre quando a área efetiva do orifício da prótese é muito pequena em relação à área de superfície corporal do paciente. A revisão dos registros até a data do implante mostrava apenas um relato de implante deste tipo de bioprótese para tratamento de disfunção de Perceval, que havia sido feito na Itália. 

O procedimento foi realizado no dia 10 de novembro de 2021 pelo cardiologista hemodinamicista Mohamad Said Ghandour. Por meio de um cateter introduzido em uma artéria distante do coração e guiado por imagem, a nova válvula artificial foi levada até o coração. Quando a prótese chegou ao local afetado, foi inflada e instalada para restabelecer o fluxo sanguíneo de forma correta. Três dias após a operação, o paciente teve alta, em bom estado geral. Na última avaliação realizada ambulatorial, o paciente encontrava-se sem sintomas.

Raissa Lagares afirma que esse é o futuro da cardiologia: “Trocas ou correções nas válvulas sem a necessidade de corte, procedimentos robóticos e novos protocolos pós-operatórios. Esses procedimentos expõem o paciente a menor risco de infecções e danos em artérias fragilizadas. Isso tem permitido tratar pessoas impossibilitadas de serem submetidas a operações mais complexas.” Essas são as chamadas cirurgias percutâneas, ou seja, que têm capacidade de atravessar a pele. 

O menor marca-passo do mundo

No dia 20 de novembro de 2021, a equipe de cardiologia do hospital da Beneficência Portuguesa de São Paulo, comandada pelo cardiologista Carlos Eduardo Duarte implantou o menor marca-passo do mundo em um paciente – esta foi a segunda vez que o procedimento foi realizado no Brasil. O paciente não fora encaminhado por Raissa Lagares, mas ela também acompanhou o procedimento e relata que o equipamento Micra (da empresa Medtronic) tem o tamanho de uma pílula, pesando apenas 2 gramas. Os marca-passos tradicionais têm de 20 g a 30 g e são pouco menores do que uma caixa de fósforos.

Cardiologista Carlos Eduardo Duarte durante implante do menor marca-passo do mundo | Foto: Acervo Pessoal

O paciente tinha 56 anos e apenas um quarto do coração funcional, pois já havia sofrido um infarto e tinha implantado dois stents. A implantação de um marca-passo convencional seria arriscada, pois o paciente também tinha os rins comprometidos, sendo dependente de hemodiálise diária, o que fragiliza suas artérias. Os marca-passos maiores são formados por uma bateria com eletrodos que levam impulsos elétricos até o coração, com objetivo de corrigir disfunções no ritmo e estimular o batimento cardíaco correto.

O Micra, ao contrário, é uma peça única, sem eletrodos, e é implantado diretamente no coração. Assim, o equipamento não tem risco de obstruir ou danificar vasos. Além disso, ao contrário do marca-passo tradicional, sua implantação não requer uma cirurgia “de peito aberto”, mas é feita de forma percutânea. Por uma incisão na veia femural, catéteres levaram o Micra até o coração, onde ele é liberado e se fixa nos músculos por meio de quatro “garras”. Médicos, técnicos e engenheiros programam o equipamento para emitir impulsos elétricos na taxa desejada para corrigir os problemas de arritmia. 

O procedimento durou pouco mais de três horas e o paciente recebeu alta cinco dias após a implantação do menor marca-passo do mundo. 

Raissa Lagares

A médica nascida em Goiânia fez residência em cardiologia na Beneficência Portuguesa de São Paulo. Se especializou em arritmias cardíacas e cardiologia do esporte no Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, e atualmente trabalha no Centro Avançado de Ritmologia e Eletrofisiologia. Raissa Lagares serviu o Exército Brasileiro por quatro anos e recentemente encerrou seu ciclo como primeiro-tenente.

Sobre o sucesso dos procedimentos pioneiros de que participou, Raissa Lagares afirma: “ “No consultório, está cada vez mais comum pacientes com 80, 90 anos com sua capacidade física e cognitiva preservadas. Através dos avanços na cardiologia, quero que eles vivam muito e além de tudo vivam bem e envelheçam com respeito e integridade. Esses pacientes me deixam bastante otimista em relação ao avanço da cardiologia. Poder proporcionar isso a eles é muito gratificante.”

“Agora, eu planejo buscar novas atualizações”, afirma Raissa Lagares. “Quero conhecer o que há de mais novo na cardiologia. Acredito que o futuro sejam os procedimentos percutâneos, menos invasivos. Para isso, tenho estudado parcerias e orientações em Barcelona, que é um dos maiores centros de estudo da arritmia no mundo. Também pretendo me aprimorar na área de marca-passos sob orientação do Carlos Eduardo Duarte. No futuro, além de São Paulo, quero atender em Goiânia, onde vive minha família, e em Brasília.”

Raissa Lagares diz que, no futuro, pretende atender em Goiânia, onde nasceu | Foto: Acervo Pessoal

4 respostas para “Conheça a médica goiana que participou de duas cirurgias cardíacas pioneiras”

  1. Avatar Jair Patrício de Lima disse:

    Dra Raissa é filha do Zé Nelto meu primo?Se for fico mais feliz pois é minha prima.Sou médico também e entusiasmado com esta reportagem Que beleza de evolução.Parabéns a equipe

  2. Avatar Ana Paula disse:

    Ótima profissional!!!!!

  3. Avatar Franco Brugada disse:

    Ótima profissional, o exército sentira sua falta Tenente.

  4. Olá, que Deus continue abençoando vcs.salvando vidas e dando esperança aqueles que se encontram em condições de saúde debilitada e com os dias contados devido a problemas cardíaco,hoje eu pedi muito a Deus rezando com minha condição de saude pois também tenho insuficiência cardiaca e ja sem esperança de continuar de lutar pela minha vida. Ai quando fui surpreendido pela bela matéria feita pela emissora de TV. Enchendo- me de esperança e radiante por esse momento maravilhoso que essa equipe médica com essa capacidade incrível e radiante e dando esperança a pacientes nas mesmas condições em que eu me encontro..
    Que Deus continue dando a vcs a tecnologia e sabedoria da vida e confortando àqueles que necessitam de profissionais que fazem a diferença na cardiologia.. obrigado por tudo e independente isso já me conforta mesmo que eu não tenha chances de de ser contemplado já e o bastante saber que o próximo seja salvo.beijo no coração da equipe médica.:

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