Como professores de Stanford podem ajudar Goiás a unir pesquisa e políticas para a educação

Em visita ao Estado, David Plank e Martin Carnoy concederam entrevista exclusiva ao Jornal Opção e apontam: conhecimento acadêmico e política precisam caminhar lado a lado

Várias são as pesquisas que tentam descobrir o que é ideal para ser ensinado em sala de aula, mas nem sempre os gestores estão atentos a isso. Acadêmicos apontam: é preciso mudar essa cultura| Divulgação

Várias são as pesquisas que tentam descobrir o que é ideal para ser ensinado em sala de aula, mas nem sempre os gestores estão atentos a isso. Acadêmicos apontam: é preciso mudar essa cultura| Divulgação

Marcos Nunes Carreiro

Já faz algum tempo que as universidades brasileiras discutem a questão da aplicabilidade das pesquisas acadêmicas. Isto é, incentivar os pesquisadores a produzirem estudos com maiores chances de serem utilizados na melhora real da sociedade. Isso acontece devido à inevitável separação existente entre os mundos acadêmico e “prático”, aquele em que pesquisas extremamente teóricas não se fazem entendidas.

Nesse ponto, as universidades brasileiras têm avançado muito. A Universidade Federal de Goiás (UFG), por exemplo, tem incentivado seus pesquisadores, sobretudo os dos cursos de pós-graduação como mestrado e doutorado, a aproximarem suas pesquisas das demandas da sociedade nas suas mais variadas áreas humanas, biológicas e matemáticas.

No que concerne à educação, o Brasil, embora tenha se desenvolvido nos últimos anos, ainda peca. E são muitos os pontos que demandam a atenção das políticas públicas, muitas vezes criadas por gestores que não têm o conhecimento dos pesquisadores, o que provoca o aumento da distância entre a academia e o pragmatismo da administração pública.

Nesse ponto, algumas instituições contribuem para promover a melhor interação entre as duas partes. No Brasil, além dos programas das universidades, como o da UFG, institutos têm trabalhado firme em relação a isso, inclusive com a parceria de universidades e pesquisadores estrangeiros. Foi assim que os professores de Stanford, nos Estados Unidos, Martin Carnoy e David Plank chegaram a Goiás na última semana.

Ligados à Fundação Lemann, criada pelo empresário brasileiro Jorge Paulo Lemann, os dois pesquisam a educação na América Latina há anos, mas apenas recentemente aproximaram suas relações com o Estado de Goiás. Em janeiro a secretária de Educação, Raquel Teixeira — que é PhD em Lin­guística e professora da UFG —, foi à Stanford se encontrar com os dois pesquisadores com o objetivo de saber mais de quem pesquisa educação. A intenção de Raquel, embora também seja ela mesma uma pesquisadora, foi a de se preparar para gerir o setor educacional no Estado.

Secretária Raquel Teixeira: ligação direta com as pesquisas realizadas acerca da educação brasileira aumenta as chances de políticas mais bem elaboradas | Fernando Leite/Jornal Opção

Secretária Raquel Teixeira: ligação direta com as pesquisas realizadas acerca da educação brasileira aumenta as chances de políticas mais bem elaboradas | Fernando Leite

Visando retribuir a visita, Martin e David vieram a Goiás nos dias 28 e 29 de julho, onde também se en­con­traram com o governador Mar­coni Perillo (PSDB) para conversar so­bre educação. Mas antes do en­contro com o governador, no Pa­lácio das Esmeraldas, os dois concederam exclusiva ao Jornal Opção.

David, que é diretor executivo de Análise das Políticas Educa­cionais para a Califórnia (Pace, sigla em inglês para Policy Analy­sis for California Education), explica que ele e Martin, junto com a Fundação Lemann, estudam promover seminários no Brasil — e Goiás estaria no roteiro — para promover a aproximação entre a pesquisa e os políticos, visto que este é o principal objetivo de seu trabalho à frente do Pace, em Stanford.

“Tentamos ligar os mundos da pesquisa e da política. Isto é, fortalecer as relações entre os professores e os políticos para guiar a política educacional do Estado em direções certas, apoiadas pela evidência. Acho muito importante ter um sistema educacional, seja na Califórnia ou em Goiás, que esteja permeado por estudos científicos e não por referências ideológicas”, relata David.

A questão, para ele, é achar meios de adaptar o que está dando certo em outros lo­cais, aprender com essas experiências e aplicar esse aprendizado nas escolas. “Trabalhamos por um sistema de gerenciamento contínuo onde os gestores sempre aprendam e melhorem suas políticas e práticas. Não estamos procurando a ‘bala de prata’, porque ela não existe. O que procuramos é um sistema que pode aprender e se melhorar a longo prazo”, diz.

Sentado ao seu lado, Martin — que é autor de vários livros sobre a educação latino-americana — complementa a fala: “Nos­so papel é traduzir os resultados das pesquisas acadêmicas para as pessoas que fazem política de educação. Na Califórnia, fazemos reuniões na capital, Sacra­mento, com os deputados visando exatamente isso. E queremos fazer exatamente isso também no Brasil”.

A entrevista começou justamente falando de uma das pesquisas de Martin. Desde o ano passado, ele está no Brasil desenvolvendo o levantamento e análise do desempenho escolar das 27 unidades da Federação, isolando todos os fatores que podem exercer alguma influência sobre o aprendizado dos alunos, como situação socioeconômica, nível educacional familiar, relacionamentos sociais etc. A priori os resultados do estudo seriam apresentados em Washin­gton, no mês de junho.

Porém, Martin explica que a pesquisa ainda durará por mais dois ou três meses, mesmo que dados e ideias já tenham sido produzidos. “Alguns Estados têm resultados melhores que os outros, mas a pesquisa vai continuar. Mas o projeto não envolve apenas pesquisa, pois também queremos fazer ações coordenadas para ter relações de longo prazo com os Estados para fazer uma melhor política de educação, inclusive com Goiás”, afirma.

Em relação a isso, David diz: “É importante notar que a educação no Brasil melhorou bastante nos últimos anos, especialmente em termos de acesso das crianças ao ensino básico. Nos anos 1990, mais ou menos 85% das crianças estavam na escola até os 14 anos. Agora, a presença é quase universal. E isso é um ganho importante. O desafio agora é de evitar a evasão, que ainda é alta. Nisso, o Brasil não está diferente dos demais países”.

Para eles, é impossível separar quantidade de qualidade. Ou seja, os alunos precisam confiar na qualidade do ensino e, por isso, melhorar o que os alunos aprendem nas escolas é ponto chave para aumentar o tempo que as crianças ficam em sala de aula. “Para isso, o importante é que os professores estejam mais bem capacitados. Precisamos aperfeiçoá-los continuamente. Isto é, investir na formação de professores é a coisa mais importante neste momento”, aponta David.

Ensino integral

Sendo importante o fator permanência do aluno em sala de aula, é inevitável pensar que a educação em tempo integral, em que o aluno passa dois turnos na escola, se torne o centro da discussão. David aponta que o ensino integral é normal nos outros países, uma vez que esse sistema dividido em turnos é “coisa brasileira”. Mais tempo na escola traz resultados positivos para os alunos. Ou seja, o ensino integral deve ser alvo. O problema: é muito caro. “Em todo caso, os professores também costumam ter dois empregos. Será que eles quereriam ter um em­prego integral?”, pergunta Martin.

Isso nos leva à questão dos investimentos. Martin e David dizem que, ao contrário do que se pensa, a educação nos Estados Unidos não é tão diferente da do Brasil e também gera muita insatisfação. O que faz o desempenho americano ser melhor é o fator investimento, afinal, a saúde econômica dos Estados Unidos é, no mínimo, mais firme que a brasileira.

Nesse ponto, dados ajudam a compreender a questão: levantamento feito pela Campanha Nacio­nal pelo Direito à Educação, rede que reúne mais de 200 organizações, mostra que, para garantir educação com padrões mínimos de qualidade, o Brasil terá que aumentar em até três vezes o valor investido por aluno na rede pública, sobretudo na educação infantil e fundamental. Isso significa R$ 37 bilhões a mais no sistema educacional público, que engloba 40,7 milhões de matrículas.

Currículo nacional exigente e professores mais bem formados: eis o começo para a melhora da educação brasileira 
David Planck: “O ideal é ter um currículo estabelecido para depois formar professores e preparar livros didáticos aliados  com as outras partes” | Martin Carnoy: “As universidades não dão atenção para o que querem nas escolas quando o assunto é formação de professores”

Martin Carnoy: “As universidades não dão atenção para o que querem nas escolas quando o assunto é formação de professores” | David Planck: “O ideal é ter um currículo estabelecido para depois formar professores e preparar livros didáticos aliados com as outras partes”

Na entrevista, que durou quase uma hora, alguns pontos importantes foram abordados. Um deles diz respeito a um estudo feito por Martin Carnoy entre 1997 e 2005, em que comparou o desempenho escolar do Brasil, do Chile e de Cuba. Essa pesquisa resultou no livro “A vantagem acadêmica de Cuba”, publicado no Brasil pela Fundação Lemann. No livro, Martin fala sobre os índices educacionais positivos de Cuba em relação aos demais países da América Latina. E um dos fatores fundamentais para que isso ocorresse, à época, era o currículo educacional do País, que é único. Esse fator é fundamental para que o sistema de um país evolua, uma vez que, tendo um currículo nacional, há melhores condições de desenvolver certa equidade naquilo que é aprendido pelos alunos, sobretudo em um país continental e diverso como o Brasil.

O Ministério da Educação está finalizando os estudos para a implantação do currículo nacional. Assim, ter um currículo nacional é importante, mas também é necessário que ele seja exigente. Certo?
Martin Carnoy – O currículo tem que ser mais exigente, mas os professores precisam ser mais bem formados. O currículo de Cuba é exigente, mas o mais importante no país é que a formação de professores é muito melhor. Primeiro, que eles aliam a formação universitária à prática escolar; segundo, que as universidades ensinam o currículo das escolas. Ou seja, os professores aprendem nas universidades a ensinar o currículo que é apresentado aos alunos. Então, está tudo coordenado. Aqui, como nos Estados Unidos, as universidades formam os professores sem ensinar o currículo, pois ele varia dentro dos sistemas estaduais e municipais. Isso porque não existe um currículo central. Dessa forma, não há como orientar os futuros professores.

David Plank – O Brasil está discutindo a formação de uma base nacional, o que será um passo à frente. Atualmente, o currículo dos Estados e municípios é algo muito improvisado. O ideal é ter um currículo estabelecido para depois formar professores e preparar livros didáticos aliados com as outras partes. Ou seja, essa base nacional é necessária para assegurar isso. O que queremos que os alunos aprendam? Isso deve ser o centro. Depois pensamos no restante do sistema.

Martin Carnoy – Veja: a educação de engenheiros, por exemplo, é muito influída pelo mercado. Nos Estados Unidos, Stanford forma muitos engenheiros e tem relações fortes com as empresas em Silicon Valley. Isso contribui muito na formação desses profissionais. O mesmo acontece com a preparação de professores: a relação entre a universidade e as escolas é muito próxima. Porém, em 90% das universidades dos Estados Unidos, essa relação não existe. As universidades não dão atenção para o que querem nas escolas quando o assunto é formação de professores. Ou seja, a formação de professores é completamente separada da realidade das escolas. Às vezes, apenas depois de formado é que o professor entra pela primeira vez em sala de aula.

David Plank – A formação de professores é, quase sempre, muito teórica. Falta prática.

Se o sistema dos Estados Unidos é semelhante ao do Brasil, por que, então, a educação lá é melhor que a daqui?
David e Martin, juntos: Mais dinheiro. (risos)

David Plank – Mas lá não é perfeito. Os americanos, como os brasileiros, também reclamam do sistema educacional. Não ficamos satisfeitos.

Martin Carnoy – É interessante pontuar o seguinte: os dois sistemas, dos Estados Unidos e do Brasil, permitem que cada Estado tenha a responsabilidade por sua educação. Nos Estados Unidos, temos 51 sistemas de educação – 50 estados mais o distrito federal. O Brasil tem, a priori, 27. E lá o governo federal tem muito menos influência sobre a educação que no Brasil. A grande diferença é que o Brasil tem dois sistemas em cada Estado: o estadual e o municipal. E isso também é um problema. Logo, falar de um sistema educacional estadunidense, assim como no Brasil, é uma construção teórica, pois ele não existe. Por isso, é mais interessante comparar o sistema educacional entre os Estados do que comparar entre países. Há estados no Brasil que fazem reformas fantásticas. Outros não.

Qual Estado tem o melhor desempenho educacional, em sua visão?
Martin Carnoy – Acho que Minas Gerais tem o melhor sistema educacional do País. Cresce muito. Goiás também tem um bom crescimento em relação ao Brasil, que melhorou bastante seu desempenho escolar de 2003 a 2013. Há outros Estados que cresceram, mas não tão rapidamente. Então, é mais interessante fazer essas comparações, pois outros países têm outras condições. Por exemplo: o Brasil é muito mais diverso que o Chile, que tem menos de 20 milhões de habitantes, 10% da população do Brasil, que, por sua vez, ainda conta com uma variação muito maior entre as regiões. Podemos aprender coisas com outros países, mas é muito mais fácil ir a Minas que a Cuba, que está mais longe.

O que faz a educação de Minas melhor?
Martin Carnoy – Os sistemas estadual e municipal são mais bem coordenados. Essa é uma questão.

David Plank – Outro fator é a continuidade das políticas educacionais. Em um período maior que 20 anos, mesmo com as mudanças de governo, não houve alterações radicais nessas políticas. Isso facilitou manter o ciclo de desenvolvimento contínuo.

Martin Carnoy – Mas também existe o seguinte: há Estados em que a reforma começou com um município. É o caso do Ceará, cuja melhora na educação começou com Sobral. Mas é o Estado que deve realizar as reformas, que precisam chegar ao ensino fundamental, que é o começo de todo o processo. E acho que essa relação entre Estado e municípios deve ser boa.

Muito se fala sobre a questão da autonomia das escolas. Ter escolas públicas com maior autonomia de gestão, como acontece com as privadas, de fato, faria com que elas fossem melhores?
David Plank – Não é completamente verdade. O que é necessário é um balanço entre autonomia e as regras do Estado. Um bom exemplo é o currículo. Autonomia curricular não faz sentido, pois os alunos iriam para todos os lados. O Estado tem que definir quais são os objetivos curriculares para assegurar que todos os alunos tenham oportunidades semelhantes. Não queremos determinar a prática de sala de aula. O professor precisa de uma autonomia para adaptar esse currículo a realidade dos alunos. Isso é equilíbrio. Regular o currículo mantendo a autonomia para experimentação ao nível da escola é o ideal. Regulamentação total não funciona, assim como autonomia total.

A grande diferença entre as escolas privadas e as públicas, na minha experiência, são os alunos. Os alunos mais favorecidos vão para as escolas privadas, que tem mais dinheiro e pagam melhor os professores. Logo, o desempenho é melhor. Não é em função da autonomia, mas dos pais, que estão mais comprometidos com a escola. Não é surpresa que elas tenham, então, melhores condições de ensino.

Martin Carnoy – A escola privada tem o direito de selecionar os alunos. Mas há exemplos de que isso não funciona tão bem. 50% dos alunos de Buenos Aires, por exemplo, estão em escolas privadas, que não têm um desempenho muito diferente das públicas. Essa questão de autonomia é complexa, sobretudo em educação. Em todos os setores da economia há regulamentação. No Brasil, é muito difícil, por exemplo, para o diretor entrar na sala de aula.

Tem que ter permissão do professor. Por quê? A educação é a indústria menos supervisada de todos os setores da economia. Temos aqui um diretor para 20 ou mais empregados [professores]. É completamente irregular. Nas outras indústrias, no máximo cinco ou seis pessoas trabalham sob a supervisão de uma. O que deve existir é uma hierarquia de empregados. Mas isso demanda investimentos. Na escola, se o diretor tem uma ideia clara de como fazer uma boa instrução e ter uma boa relação com os professores, a escola funciona melhor. Mas é muito difícil supervisionar 20 ou mais professores. Educação é uma indústria estranha.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.