Como as eleições de 2020 vão mudar o cenário político em Goiás

No estado, ascensão do DEM, PP e Podemos vem acompanhada de queda do PSDB, PT e MDB – entenda como a mudança irá impactar o jogo político

Ronaldo Caiado, governador de Goiás | Foto: Divulgação

As eleições municipais de 2020 servem como indicador da mudança de forças no estado de Goiás. Enquanto uma tradicional liderança perdeu mais da metade de seus representantes nas câmaras municipais e na chefia dos municípios, o número de mandatários de outro grupo político decolou. A flutuação na quantidade de eleitos pelas legendas revelam o realinhamento em torno do poder estadual, segundo os analistas que interpretam os resultados das urnas.

A mudança em números

Em números, o principal derrotado das eleições em Goiás foi o PSDB, que perdeu 155 vereadores em todo o estado (passando de 337 para 182) e 55 prefeitos (indo de 75 para 20 administradores de municípios). O grupo político de Marconi Perillo (PSDB), que de 1999 a 2018 esteve no comando do estado, pôde construir uma arraigada base de sustentação ao seu governo. A legenda ainda comanda importantes municípios, como Morrinhos e Aruanã.

Outra liderança historicamente fortalecida que enfrentou problemas foi o Partido dos Trabalhadores. O PT continuou com apenas três prefeituras (Itapuranga, Professor Jamil e cidade de Goiás) com a possibilidade de conseguir uma quarta (Anápolis) em disputa de segundo turno, ao passo que perdeu 17 vereadores dentro do estado no total. O partido  elegeu um vereador em Goiânia (Mauro Rubem), cidade cuja câmara municipal não tinha representantes do PT desde janeiro de 2017. 

Reunião na sede do PSDB, no Setor Sul, em Goiânia | Foto: Ascom

O MDB, maior partido de oposição ao governo estadual, reduziu de 43 para 29 o número de prefeitos e de 349 para 275 o número de vereadores no estado. Entretanto, quando somados todos os votos para prefeito que cada partido recebeu no estado, o MDB fica em primeiro lugar (com 769 mil votos, à frente do Dem, que obteve 471 mil votos).

Quanto aos vencedores, o principal deles é o DEM. O partido do governador passou a comandar 62 municípios no estado, enquanto em 2016 comandava apenas 10. Em número de vereadores, o Democratas foi de 119 para 366 representantes. Foi também o partido que mais apresentou candidatos, com 2.564 concorrentes a cargos eletivos, segundo as estatísticas do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). 

Partidos ligados à a base de Ronaldo Caiado (DEM) – isto é, que compuseram a coligação de Caiado em 2018 – conseguiram vitórias para o cargo de prefeito em 132 municípios, mais de metade das cidades goianas. Depois do Dem, os partidos que obtiveram mais êxito nas eleições foram o PP e o Podemos. 

O que a mudança significa

Denise Paiva Ferreira é doutora em Ciência Política e leciona na Universidade Federal de Goiás (UFG). Segundo a professora, o resultado já era esperado. “Em vários outros estados, os partidos dos governadores ou ligados à sua base foram os mais bem sucedidos. Isso se dá em função dos recursos políticos que o governador tem para oferecer”.

De acordo com Denise Paiva Ferreira, o rearranjo das forças políticas do estado é um sinal do declínio do legado político de Marconi Perillo e da ausência deixada pela aposentadoria de Iris Rezende. “Veremos se existirá declínio do MDB daqui há alguns anos, mas já podemos observar uma renovação em termos geracionais pela ascensão de Daniel Vilella. O MDB teve o maior número de votos devido a sua maior capilaridade, afinal, o partido tem maior número de diretórios nas cidades goianas e está historicamente arraigado, mas a queda de seus resultados pode significar a fadiga do partido.”

Goiás segue a tendência nacional de busca por políticos experimentados e tradicionais, segundo Denise Paiva Ferreira. O contraste é nítido quando se compara o atual momento com 2018, quando a antipolítica levou à busca de outsiders pela população. “Isso tem aspectos positivos, pois mostra o fortalecimento dos partidos e do próprio sistema político”, afirma ela. 

Para Pedro Célio Alves Borges, pandemia refreou onda antipolítica | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Pedro Célio Borges, doutor em Sociologia pela Universidade de Brasília (UnB) e professor da UFG, interpreta que o discurso da antipolítica deu sinais de esgotamento por diversos fatores, sendo o principal deles a pandemia de coronavírus. “A ameaça de saúde pública criou uma situação em que a coletividade vive insegurança, incerteza, medo quanto aos modos de se defender. Isso faz com que as pessoas busquem forças superiores a ela, e o estado é a organização mais imediata que pode organizar alguma proteção à essa dúvida. Compreendo o enfraquecimento dos outsiders como um retorno da fé das pessoas no poder público.”

Quanto ao desempenho do PT, Pedro Célio Borges analisa que o partido vem passando por um processo de desgaste semelhante ao PSDB, mas que ao contrário deste, aquele já criou resiliência e está em fase de reestruturação. “A perda do PT foi menor porque o partido já vem de uma curva descendente das eleições de 2018. A legenda ainda tem o resíduo eleitoral ancorado em liderança intermediárias, como o deputado Rubens Otoni e a deputada Adriana Accorsi, mas em Goiás, o PT regional paga pelo sentimento de antipetismo nacional, e não por um processo de dissolução”.

Em relação ao sucesso de partidos de direita e de tradicionais integrantes do centrão, Pedro Célio Borges aponta que em todo o país se percebe a movimentação em direção ao populismo conservador, nacionalista e de direita. “Esta foi a primeira vertente política que conseguiu trabalhar com as novas tecnologias de comunicação eficientemente. Além disso, esses grupos têm sua trajetória enraizada nos municípios, o que os favorece nessas eleições, caracterizadas pela busca pragmática de problemas concretos, em contraste com as eleições gerais nas quais se percebe a orientação por ideias e ideologias mais abstratas”.

Impactos econômicos

Carlo Barbieri, economista e analista político que atua nos EUA há mais de 30 anos e preside a consultoria Oxford, analisa a renovação nas câmaras municipais brasileiras. “Tivemos grande mudança do quadro de representatividade. Em todo o Brasil  as câmaras se diversificaram com mulheres, afrodescendentes e representantes LGBT. Por um lado, será um desafio porque estes grupos não estão normalmente retratados no trato político; mas por outro, o quadro misto trará uma inovação interessante.”

A possibilidade de reinvenção a partir das cidades, diz Carlo Barbieri, é fundamental pois os municípios são as unidades fundamentais com poder de transformar até mesmo o cenário do comércio exterior de um país. “Em nossa experiência internacional, vimos que as cidades são as grandes influenciadoras para favorecer as pequenas e médias empresas, pois elas têm o poder de criar os clusters”, afirma ele.

“Goiás, por exemplo, tem uma série de pequenos produtores de artesanato e semijóias e a prefeitura tem o papel – juntando essas pessoas no comércio local – de organizar um grupo no mercado local, e uma massa tem o poder de dividir custos e aumentar resultados. O processo exportador descentralizado de Brasília e estruturado em pequenas cidades é capaz de transformar o cenário econômico tanto das cidades quanto em nível nacional”, conclui Carlo Barbieri. 

Renovação da Câmara Municipal

Socióloga explica que entrou para a política motivada pelas políticas sociais do PSDB | Foto: Arquivo Pessoal

O Jornal Opção ouviu a única vereadora eleita pelo PSDB em Goiânia, Aava Santiago, para compreender o momento de renovação na Câmara Municipal. A vereadora de 30 anos é socióloga, ativista pelo fortalecimento das mulheres e da escola pública, pesquisadora nas temáticas de juventude, participação política e igualdade de gênero e evangélica.

“Entrei na UFG em 2006, vinda de uma favela violenta no Rio de Janeiro. Sempre estudei em escolas públicas e sempre gostei de política. O que fez com que minha família viesse para Goiás foram os vários sepultamentos de amigos, colegas e parentes a que tivemos de comparecer”, diz a vereadora eleita. 

Aava Santiago conta que, em Goiás, sua família foi integrada a programas sociais que eram iniciativas em curso do governo Marconi Perillo, em cargo na época. “Por conta da vivência da violência extrema, essas coisas me fizeram querer estudar ciências sociais, políticas públicas em juventude”. 

Em 2010, Aava Santiago e outros ativistas por direitos da juventude apresentaram ao então senador Marconi Perillo o projeto do que viria a ser o Passe Livre Estudantil. “Ele nos chamou para fazer um ato público, vinculamos nosso apoio e ele colocou o Passe Livre em seu plano de governo. Então, assumi uma função técnica dentro do PSDB, espaço que ocupei de 2011 a 2018”.

Aava Santiago conta que sua defesa dos direitos humanos causava estranhamento no partido que então era de situação. “Mas em qual outro lugar uma mulher com a minha trajetória – sem padrinhos políticos ou sobrenome – estaria na coordenação de um programa da envergadura do Passe Livre, e depois Goiás Sem Fronteiras, e outros?”

Ela revela que coordenou a Frente Goiana contra a redução da maioridade penal enquanto vários membros do PSDB eram favoráveis à redução. “Eu sempre tive liberdade e autonomia para pensar diferente e tentar virar votos em qualquer questão. Sempre tive noção de que o espaço que ocupava não era de subserviência.” Aava Santiago afirma que tem conhecimento de que não existem partidos fáceis para mulheres, e de que construir o partido “por dentro” antes mesmo de ter mandato é um desafio à altura de quem quer se estabelecer na política.

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