Começar na frente é bom, mas nem sempre garante chegada

Senador Ronaldo Caiado tem o histórico de dar boas partidas em campanhas majoritárias, o que está ocorrendo de novo, mas se perde no meio do caminho, como em 1994

Senador Ronaldo Caiado: ele precisa do PMDB e rachou o partido | Foto: Fernando Leite/ Jornal Opção

Cezar Santos

O PMDB é o maior partido de oposição à ba­se governista comandada pelo tucano Mar­coni Perillo. A rigor, é o único partido de oposição, considerando que os outros carecem de estrutura, de nomes competitivos e de capilaridade no interior. Por isso, claro está que o PMDB forçosamente será o esteio da oposição no embate contra os partidos da base aliada.

Não é por outra razão que o senador Ronaldo Caiado, do DEM, põe tanto empenho em ter consigo o PMDB. A ponto de não descartar a possibilidade de filiar-se ao outrora adversário, como quer o decano Iris Rezende. Caiado tem essa alternativa guardada no bolso da algibeira, mas teme que Iris não consiga garantir sua candidatura.

O líder ruralista está em plena campanha ao governo estadual desde que se elegeu senador, em 2014, trabalhando com denodo para ter o PMDB. O senador já tem a ala irista, essa ala jurássica, passadista, rancorosa — há poucos dias, o prefeito Adib Elias (Catalão) lhe manifestou apoio.

A questão é que uma boa parte do partido não quer um “estranho” como candidato. Essa ala, capitaneada pelo presidente regional da sigla, deputado federal Daniel Vilela, e o ex-prefeito Maguito Vilela, controla boa parte das instâncias decisórias no interior do Estado.

Por sinal, na quarta-feira, 14, na cidade de Itaberaí, Daniel Vilela disse a vereadores e líderes políticos locais, que Ronaldo Caiado “um dia vai entender que o momento é de renovação e que o PMDB terá, de qualquer maneira, candidato a governador de Goiás em 2018”.

O recado claríssimo é da ala que não admite que a forte estrutura do PMDB seja agora entregue “de graça” a alguém que não tenha história com a sigla, por conta única de preferência de Iris Rezende, que se encantou com Caiado.

E, pior que isso, um nome que até há pouco tempo era adversário ferrenho do PMDB. No interior, os poucos demistas de velha cepa não se misturam aos peemedebistas, a rixa é histórica e notória. Aliás, nunca é demais lembrar que o DEM está organicamente ligado à base aliada, embora Caiado mantenha o controle da sigla com mão de ferro, aniquilando toda e qualquer liderança que lhe contrarie ou que mostre não estar totalmente alinhado ao seu projeto pessoal.

Numa lista longa, para não estender demais, os mais recentes foram os deputado José Vitti, hoje presidente anterior do Legislativo (em 2014 ele se reelegeu deputado mesmo sob total abandono do comando do DEM) e o prefeito Paulinho Sérgio de Rezende, de Hidrolândia. Os três foram para o PSDB de Marconi Perillo.

O PMDB que não está sob a influência de Iris Rezende tem no próprio presidente Daniel Vilela seu nome preferencial para disputar o governo em 2018. Com a “intromissão” de Ronaldo Caiado, o partido está rachado, e se vê às tontas, incapaz de apresentar um projeto alternativo consistente ao marconismo, aprofundando seus problemas numa inócua briga por nomes, com o agravante de um desses nomes não ser das hostes do PMDB.

O fato é que Ronaldo Caiado é candidato e precisa do PMDB, mesmo rachado. E curiosamente, um dado é semelhante ao que já ocorreu quando o líder ruralista foi candidato ao governo, há 23 anos. Como daquela vez, agora também os primeiros levantamentos sobre intenção de voto colocam Caiado à frente. O senador está na pole position, portanto, nessa corrida.

A pesquisa mais recente confirma essa posição dianteira do líder ruralista. Na semana passada, levantamento realizado pelo Instituto Paraná (divulgada em primeira mão com exclusividade pela Record TV Goiás e o Jornal Opção), em todas as regiões do Estado mostra o democrata em primeiro lugar nos cenários estimulados.

Se as eleições fossem hoje, em uma disputa contra o vice-governador do Estado, José Eliton (PSDB), e o deputado federal Daniel Vilela (PMDB), Caiado teria 44% das intenções de voto, enquanto o tucano e o peemedebista marcariam 10,4% e 10,3%, respectivamente. O nome do advogado Djalma Rezende (sem partido) também foi testado e ele alcança, no primeiro cenário, 6,6% das menções.

Em um segundo quadro, em que o nome do PMDB seria o ex-prefeito de Aparecida de Goiânia, Magui­to Vilela, pouco se altera: Caiado oscila para 42,1%; o peemedebista marca 16,4% e o vice-governador, 10,4%. Djalma Rezende teria 6,2%.

Em ambos os cenários, o porcentual de eleitores que não votariam em nenhum dos candidatos postos chama atenção: mais de 20% de “votos nulos”.

Os números:

Cenário 1
Ronaldo Caiado (DEM) – 44%
José Eliton (PSDB) – 10,4%
Daniel Vilela (PMDB) – 10,3%
Djalma Rezende (Sem partido) – 6,6%
Não sabe – 6,1%
Nenhum – 22,6%

Cenário 2
Ronaldo Caiado (DEM) – 42,1%
Maguito Vilela (PMDB) – 16,4%
José Eliton (PSDB) – 10,4%
Djalma Rezende (Sem partido) – 6,2%
Não sabe – 4,7%
Nenhum – 20,2%

O Paraná Pesquisas testou, também, cenários sem Caiado na corrida ao Palácio das Esmeraldas, o que não é o caso de mostrar aqui (quem quiser, aqui está o link da reportagem no Jornal Opção).

A pesquisa foi realizada pelo Instituto Paraná entre os dias 7 e 11 de junho de 2017, com 1.505 eleitores de todas as regiões do Estado. A margem de erro é de 2,5 pontos porcentuais para mais ou para menos.

Voltemos ao histórico político de Ronaldo Caiado, no que diz respeito a candidaturas a cargos majoritários.

Primeiramente, ele foi candidato à Presidência da República pelo PSD, em 1989, quando obteve menos de 1% dos votos. Uma aventura que pode ser classificada de fiasco total.

Depois, já no PFL, candidata-se ao governo de Goiás, em 1994, quando ficou em terceiro lugar, com 23,18% dos votos. Eram três os candidatos competitivos: Maguito Vilela, pelo PMDB, que era governo; Lúcia Vânia, pelo PP; e o próprio Caiado. O curioso dessa campanha é que o líder pecuarista começou na frente nas pesquisas, embora praticamente empatado com Lúcia. Maguito era o terceiro colocado.

Lúcia Vânia: em 1994, ela superou Caiado, mas ele não a apoiou | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Tinha-se como certo que Caiado estaria no segundo turno. Mas, abertas as urnas, Maguito surpreendeu e passou para a fase seguinte da eleição, com Lúcia Vânia. Caiado e Lúcia pertenciam ao mesmo espectro político e havia o entendimento tácito de que quem ficasse fora apoiaria o outro na contenda contra o PMDB. Irritado com Lúcia, Caiado não a apoiou e o peemedebista ganhou a eleição.

Outro exemplo de desidratação eleitoral de Ronaldo Caiado ocorreu em 2006. Quando ele “bancou” a eleição ao governo estadual do então senador Demóstenes Torres, que naquele momento era o grande nome da política goiana, um líder reconhecido nacionalmente e tal. Caiado rachou a base marconista, não se importou com o isolamento do DEM, e fez campanha em todo o Estado com Demóstenes. Resultado: o senador do DEM ficou em quarto lugar, perdendo até para Barbosa Neto – Alcides Rodrigues (PP) foi eleito, com Maguito em segundo lugar.

Demóstenes Torres: bancado por Caiado, teve votação pífia em 2006 |
Foto: Fernando Leite/ Jornal Opção

Mais um exemplo: campanha ao Senado em 2014. As primeiras projeções davam uma frente de quase 1,5 milhão de votos em relação ao adversário mais consistente, Vilmar Rocha, do PSD e da base governista. Apoiado pelo PMDB, com Iris Rezende, então candidato ao governo, pedindo votos para o líder pecuarista, Caiado foi perdendo fôlego durante a campanha, na mesma medida em que Vilmar ia ganhando números. Ao final, o líder ruralista foi eleito, mas por meros 200 mil votos de frente. Foi o que se chama “sufoco”.

A súmula de tudo o que se escreveu é que o senador Ronaldo Caiado exerce uma liderança que se pode chamar de desagregadora, o que impacta diretamente seus números nas eleições. Para o legislativo não tem sido problema, mas para campanhas majoritárias a história mostra que ele não tem sido feliz. Neste momento, sua frente nas pesquisas certamente não significa muita coisa.

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