Com novos líderes a postos, Congresso tende a redesenhar cenário político para 2022

Por vezes considerada como “a eleição que definiria o destino do País” as votações que escolheram Lira e Pacheco como presidentes da Câmara e Senado talvez seja, de fato, o momento mais importante para o próximo pleito. Entenda o porquê

Da esquerda para a direita: Presidente Jair Bolsonaro; governador de São Paulo, João Dória; governador de Goiás, Ronaldo Caiado; deputado federal Vitor Hugo; deputado federal, Delegado Waldir / Foto: Colagem

Foi dada a largada para um novo ciclo do cenário político brasileiro. O mês de fevereiro de 2021 chegou acompanhado de mudanças significativas para o plano nacional. Isso porquê novas eleições definiram os responsáveis por conduzir o trabalho do Poder Legislativo pelos próximos dois anos. O resultado surpreendeu a muitos e será fator crucial para um redesenho da política em 2022.

A grande mídia chegou a tratar — por diversas vezes — a eleição do próximo biênio como a decisão que definiria o destino do País. E talvez esse tenha sido, de fato, o momento mais importante para o próximo pleito. O resultado consagrou o deputado federal Arthur Lira (PP-AL) para a presidência da Câmara. Ele foi eleito em primeiro turno com 302 votos, o que significa mais da metade do número de votantes. Tratando-se do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG) também terminou eleito em primeiro turno com 57 votos.

Para entender melhor o que isso significa para um futuro próximo reservado à política brasileira, o Jornal Opção conversou com estudiosos, deputados e senadores. As opiniões em determinado momento divergem, mas são unânimes no quesito ‘mudanças virão’.

“A vitória de ambos será muito importante para a governabilidade do presidente”, avaliou o senador Vanderlan Cardoso (PSD-GO). “De agora para frente teremos, sem dúvidas, um empenho de ambas as Casas para apreciação das reformas, tanto administrativa quanto tributária. Estamos muito animados, creio que essa nova disposição tende a acelerar tudo”.

Senadores por Goiás, Luiz do Carmo (à esq) e Vanderlan Cardoso / Foto: Reprodução

Mas ele não é o único a pensar desta forma. O colega de Parlamento, Luiz do Carmo (MDB), por exemplo, considera que Pacheco e Lira no comando de ambas as Casas representam, agora, “lideranças focadas em um único propósito: trazer maior celeridade ao desenrolar de assuntos importantes ao País”.

“Teremos mais harmonia. Infelizmente presenciamos uma certa resistência em relação ao nosso presidente nos últimos dois anos, e agora, com lideranças unidas em um único propósito, ele vai ter maior liberdade para colocar em prática seus projetos, que não há dúvidas serem positivos para o Brasil”, avaliou.

Apesar de não avaliar com o mesmo apreço a eleição de Lira para o comando da Câmara, o deputado federal Delegado Waldir (PSL) não nega que Bolsonaro terá mais facilidade para provocar mudanças significativas ao País. “Agora o presidente terá condições de passar todas as reformas necessárias, como a administrativa e tributária, além de outros assuntos delicados”.

Questionado sobre ambos os nomes, disparou: “O Rodrigo Pacheco é muito inteligente e preparadíssimo; quanto ao Lira, o respeito, mas ele é contrário à Lava Jato, à prisão em segunda instância, ou seja, com Lira na presidência as pautas de combate à corrupção vão para o buraco”, considera

Debandada

O DEM, que compõe o centrão no Congresso, flertava com o governo de João Dória (PSDB), de São Paulo, mas cedeu aos encantos de Bolsonaro com a chegada das eleições no Congresso. A aproximação de ambas as forças agradou alguns, contrariou outros. A estratégia do presidente para angariar apoio da força até então isenta foi considerada assertiva ao passo em que foi vista também como contraditória.

O ex-líder do governo Bolsonaro na Câmara, deputado feral Vitor Hugo (PSL-GO), lembrou que o DEM, historicamente, é um partido mais à direita. “Porém influenciado pelo Rodrigo Maia acabou sendo levado mais para uma ala muito mais fisiológica do que a tradição do que ele tinha ao longo da história. Agora, com esse movimento que está sendo feito de aproximação com o presidente, acho que vai tende a ser algo que traga ganhos não só para o País, mas também para o próprio partido”.

Deputados federais Vitor Hugo (à esq) e Delegado Waldir | Fotos: Reproduções

Já o deputado federal, Delegado Waldir, politicamente falando, Bolsonaro acertou ao trazer o centrão para si. “Isso sempre gerou resultado. Em todos os governos vimos isso, foi assim com Collor, em todos os governos petistas, com Temer e agora com Bolsonaro. O aceno do DEM para o governo Bolsonaro sem dúvidas fortalece o presidente em uma eventual disputa em 2022. O que podemos perceber é que o DEM se mostrou o partido da ‘boquinha’, querem abocanhar cargos, ministérios”.

Na visão técnica do cientista político Guilherme Carvalho, o DEM até então figurava como um partido que queria se “configurar como a grande força de centro direita no Brasil”. “Depois de tantos anos navegando dentro do centrão e aprendendo com seus correligionários sobre as formas de sobrevivência, o DEM acabou percebendo a necessidade de compor bases adesistas a governos que lhe ofereçam cargos, emendas e outros benefícios. Há uma parte do partido que tenta dar uma fisionomia mais prática e ideológica, mas há uma outra que é fisiologista, que realmente está pensando na sobrevivência política e, por isso, acabou aderindo ao bloco do Lira — candidato de Bolsonaro”.

Guilherme Carvalho, cientista político | Foto: Reprodução

Na outra ponta da análise, o cientista político Pedro Célio avalia que diante das últimas estratégias adotadas, o presidente Bolsonaro abandonou de vez o discurso de combate à “velha política”, que lhe garantiu uma boa fatia de apoio na opinião pública desde as eleições de 2018. “Na prática, ele se reconcilia com o mundo do qual veio, mas buscava criar a imagem de combater e condenar, que são as negociatas corriqueiras da atividade política, quase sempre mal vistas e moralmente condenáveis pelo eleitorado médio. Isso é um aspecto que vai gerar alterações daqui pra frente”, garantiu.

Vinte e dois

A partir da debandada do DEM para o lado de Bolsonaro, Dória é quem ficou fragilizado na visão da maioria. “Ele próprio consegue se esvaziar com aquela ideia de fechar São Paulo e ir para Miami descansar e através das demais atitudes midiáticas dele. Acho que quem sai fortalecido é o próprio presidente”, disse o deputado federal Vitor Hugo.

Em paralelo, a opinião em relação ao fator tempo também é praticamente unânime: “ainda há muito para acontecer”, como disse o senador Vanderlan Cardoso ao ser questionado obre os rumos que a eleição do Congresso poderá trazer à disputa em 2022.

No entanto, há quem arrisque desenhar alguns possíveis cenários, como fez o especialista Pedro Célio, por exemplo. “A tendência do DEM é de reconciliar-se com o Planalto. Aliás, não do DEM, mas da ala alinhada a Rodrigo Maia. Se ele vier a abrir um movimento de dissidência, não será por agora. O projeto de Dória, necessita de bons contatos dentro do PFL [Partido da Frente Liberal, como era conhecido o Democratas após sua fundação no ano de 1985]”.

Para Pedro Célio Alves Borges| Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Guilherme Carvalho, por sua vez, vai ainda mais além: “Se o MDB perceber que o projeto Dória vai naufragar, o próprio partido tende a caminhar para uma adesão ao governo Bolsonaro, de forma bem pragmática como sempre fez. Esse ano que está se iniciando agora será fundamental para que essa configuração seja mostrada. A tendência é que deputados fisiológicos e suas bancadas caminhem em direção a esse governo, diante da disposição em liberar recursos e cargos em prol da sobrevivência do presidente. Tudo dependerá muito mais do Executivo em relação aos partidos”.

O senador Luiz do Carmo também ponderou que diante de um cenário onde Dória se mostra esvaziado, o único fortalecido na história é Bolsonaro. “Dória travou uma verdadeira batalha contra o presidente. Uma batalha totalmente desnecessária. Como disse anteriormente, no início da pandemia era comum a divergência de ideias, mas acabou tomando outras proporções. Agora, caminhando para a retomada pós-pandemia, vemos as coisas se alinhando e com certeza nosso presidente sai fortalecido por seu trabalho”.

Governo de Goiás

A aproximação do Democratas com o governo Bolsonaro pode refletir ainda no fortalecimento da candidatura do governador Ronaldo Caiado em seu projeto de reeleição em 2022. “O Caiado já fez manifestações no sentido de apoiar o presidente e contribuir com a aproximação do DEM. Isso será importante para aproximação de ambos”, avaliou Vitor Hugo.

Já na interpretação de Waldir, o governador dependerá muito mais do sucesso de sua gestão para se reeleger do que do apoio do presidente. “Ele [Caiado] parece uma barata tonta. Antes era proibido falar de Bolsonaro, depois virou bolsonarista; depois fez um espetáculo na praça e rompeu com o presidente, agora já está com o presidente de novo. Sem contar que o Bolsonaro tem enfrentado um desgaste muito grande e quem se alia a ele pode, consequentemente, herdar esse desgaste ou um eventual sucesso”.

Governador Ronaldo Caiado e presidente Jair Bolsonaro / Foto: Reprodução

Vanderlan, ao ser questionado, atribuiu um eventual sucesso desta aliança à aceitação popular de Bolsonaro em 2022. “Se até lá o presidente tiver uma boa aprovação, esse apoio será, sem dúvidas, muito interessante. Estamos esperançosos. Tudo indica que o impasse do Executivo com o Congresso, especialmente com a Câmara, tenha acabado. A partir do momento que todas as reformas forem aprovadas e o resultado disso chegar, a economia voltará a crescer e sua aprovação do presidente consequentemente se fortalece”.

Já o senador Luiz do Carmo acredita que com o DEM mais próximo de Bolsonaro, a relação de Caiado com o presidente, apesar dos desgastes pontuais, também irá se estreitar. “Acredito que a política goiana seja impactada positivamente, ela passa cada vez mais a ser beneficiada. É a união de dois grandes gestores”.

Mas o cientista político Guilherme Carvalho ponderou que Caiado tem se mostrado “pragmático” diante de uma relação de “bate e assopra” constante. “Ele acena a população e as camadas que defendem o isolamento social ao passo em que acena para o Governo Federal no sentido de mostrar que o Estado não está o contradizendo. A tendência é que ele seja um postulante ao apoio do presidente Jair Bolsonaro em 2022. Apesar de, em certo momento, demonstrar que caminharia junto ao governo de São Paulo, vimos que isso já se desconfigurou”.

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