Cid Gomes, candidato à Presidência?

Ex-governador do Ceará pode ter feito lance pensado quando foi à Câmara chamar os deputados de achacadores: chegar como nome de oposição ao Palácio do Planalto

Cid Gomes na Câmara dos Deputados, na sessão em que reafirmou insulto aos parlamentares: mais do que falar o que os brasileiros querem, ele expressa a arrogância característica de um neocoronel político | Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/ Agência Brasil

Cid Gomes na Câmara dos Deputados, na sessão em que reafirmou insulto aos parlamentares: mais do que falar o que os brasileiros querem, ele expressa a arrogância característica de um neocoronel político | Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/ Agência Brasil

Cezar Santos

Que tal um candidato que se apresente contra o governo petista que colocou a economia em frangalhos e que tenha como “credencial” o fato de ter sido demitido por esse governo inoperante? Pois há um sério risco de que isso venha a acontecer em 2018, na sucessão de Dilma Rousseff. Esse candidato pode ser Cid Gomes, que até há duas semanas era o ministro da Educação.

Nessa altura, todo o mundo razoavelmente bem-informado sabe do episódio: o cearense Cid Gomes foi demitido após reiterar em plena Câmara dos Deputados que os anfitriões são um bando de achacadores. Rememorando: Achacar, no Dicionário Houaiss, ganha seis acepções, entre elas: roubar (alguém) com ameaças, com intimidação; e extorquir dinheiro de (alguém).

O fato ganhou mais estridência porque o presidente da Casa, Eduardo Cunha, foi quem anunciou, antes mesmo do Palácio do Planalto, a demissão do ministro falastrão. Para um governo em crise de popularidade e que se vê paralisado na inércia política e administrativa, foi mais um desastre, entre tantos.

A afirmação tinha sido feita dias antes, quando Cid pregou o epíteto aos deputados que davam trabalho ao governo. “Tem lá [no Congresso] uns 400 deputados, 300 deputados que, quanto pior, melhor para eles. Eles querem é que o governo esteja frágil porque é a forma de eles achacarem mais, tomarem mais, tirarem mais dele, aprovarem as emendas impositivas”, dissera a um grupo de estudantes de três universidades paraenses dentro da sala do reitor da Universidade Federal do Pará, depois de ser questionado sobre a falta de recursos para a pasta.

A imprensa noticiou o fato, que repercutiu, claro — ainda estamos num regime em que os poderosos não exercem “controle social” sobre o que eles não querem que seja divulgado —, e Cid até quis se retratar, num arrazoado um tanto confuso: “Se alguém teve acesso a uma gravação não autorizada que não reflete a minha opinião pública que me perdoe. Eu não tenho mais idade. Eu não tenho direito de negar a tantos quanto nesses 20 anos de vida pública. Eu não tenho como negar aquilo que pessoalmente, de maneira reservada, falei no gabinete do reitor.”

O dito estava dito. Os deputados não gostaram e convocaram o ministro para se explicar. Cid adiou como pôde, fingiu doença, mas a situação do governo com os congressistas, que já estava muito ruim, ficou péssima. Ele teve de comparecer diante dos parlamentares. E o caldo entornou de vez, porque as hostilidades ficaram patentes. Insulto confirmado, demissão consumada.

Evidente que o Congresso não é feito de mocinhos. Ali há maus e bons, como em qualquer lugar. Certamente há ali gente de pesada folha corrida. A começar pelo próprio presidente do Congresso, Renan Calheiros, que em 2007 teve de renunciar à presidência do Senado Federal para suspender um processo em que ele fatalmente perderia o cargo. Renan fora acusado de usar ‘laranjas’ para comprar um grupo de comunicação em Alagoas. No processo, o relator apontou sete indícios de quebra de decoro por parte de Renan. Mas não há só bandidos no Congresso. E não cabe a um ministro de Estado achincalhar parlamentares.

Juventude e terno bem-cortado não traduzem modernidade

Ciro Gomes foi processado pelo ex-governador de Goiás Henrique Santillo

Ciro Gomes foi processado pelo ex-governador de Goiás Henrique Santillo

Cid Gomes é um político que se apresenta como moderno, até pela estampa, pela juventude, na flor de seus 51 anos. Ele tem um vasto currículo político, como deputado estadual, prefeito de Sobral e governador do Ceará, e bisou o mandato em todos esses cargos. Consta que fez uma boa gestão na área de Educação em Sobral e no Ceará. Oficialmente, foi esse o motivo que levou Dilma Rousseff a delegar-lhe a missão de botar a andar uma tal “pátria educadora”.

O motivo verdadeiro, no entanto, é que Cid e o irmão, Ciro, traíram o então correligionário Eduardo Campos na candidatura à Presidência, justamente em favor da candidatura petista. Eles eram do mesmo PSB de Eduardo, com quem romperam e em seguida bandearam-se para o Pros, o qual colocaram a serviço de Dilma no Ceará. O cargo de ministro foi um prêmio. Nada ilegal nisso, é assim que a política é tocada.

Mas o fato é que Cid e Ciro são dois políticos modernos só na aparência. Na verdade, eles se assemelham àqueles velhos coronéis políticos do passado. São neocoronéis, por assim dizer. Fazem política da forma mais atrasada possível, embora com ferramental moderno e ternos bem-cortados. Por isso, estranho foi o fato de a presidente Dilma ter dito que “não precisava ter sido assim”, lamentando a saída tempestuosa de Cid.

O que Dilma estava lamentando, de fato, era mais uma crise em seu governo e o aumento das dificuldades com o Congresso, além da deselegância toda do imbróglio. Mas a presidente não tem direito de lamentar nada em se tratando de Cid Gomes — ou, se fosse Ciro, daria na mesma, se não pior, o caso poderia ter sido de briga física com os deputados em plena Câmara.

Aqui, não custa lembrar um episódio que dá bem a medida do caráter de Ciro Gomes. Ao suceder Henrique Santillo no Ministério da Saúde, o cearense acusou o antecessor de ser corrupto. Claro que ele não tinha prova, o que não o impediu de lançar aleivosia em rede nacional, num programa de TV, contra um homem que marcou sua trajetória de vida pela honradez. O ex-governador goiano o processou e Ciro teve de indenizar a família de Santillo.

Quem acompanha a política nacional vê, volta e meia, episódios de grosseria, falta de modos e arrogância dos irmãos Gomes cearenses. E para além da ingenuidade de achar que Cid seja um lídimo representante do povo brasileiro ao arrostar os parlamentares, a verdade do fato é bem outra. As primeiras declarações contra os deputados foram frutos apenas da “boquirrotice” mesmo. Ele não imaginou que aquela fala teria repercussão nacional. Mas na sequência, quando ficou claro que não teria com escapar de se apresentar aos deputados, na obrigação de se desculpar de forma humilhante, resolveu “chutar o balde” de vez.

Logicamente que isso foi conversado com um mau conselheiro, no caso o irmão mais experiente: “Se temos um limão, vamos fazer uma limonada, mano velho”. E assim aconteceu. Cid foi demitido e ganhou generosos espaços na imprensa. E qual o efeito disso? Primeiro, a adesão de quem acha que Cid é esse “justiceiro” verbal a expressar o que todos os brasileiros querem falar, gente que pensa que achincalhar o Congresso é boa obra. Segundo, descolou-se de um governo impopular atolado na corrupção e na paralisia administrativa.

Ou seja, uma plataforma e tanto para uma campanha à Presidência em 2018, quando Cid Gomes, com o irmão Ciro a tiracolo, poderá se apresentar como um candidato que não coaduna com “esse governo que está aí” e tudo de negativo que ele representa. Portanto, como oposição, Cid Gomes poderá canalizar a insatisfação com os governos petistas, que levaram o País para o atoleiro econômico em que está.

Pela falta de apoio em nível nacional, é mais certo que a jogada dos Gomes não dê certo. Mas, aí, a candidatura ao Senado é tranquila. Ou mesmo à Prefeitura de Fortaleza. Depois ele e o irmão aderem ao novo governo, seja qual for. Tem sido sempre assim. l

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