Cid Gomes assume com a intenção de mudar 40 anos de políticas educacionais

O novo auxiliar da presidente Dilma Rousseff pretende implantar mudanças profundas em um sistema já ultrapassado, o que é bom. A questão: conseguirá vencer o desafio proposto nesses 4 anos?

Reforma no currículo do ensino médio é prioridade para Cid Gomes | Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/ABR

Reforma no currículo do ensino médio é prioridade para Cid Gomes | Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/ABR

Frederico Vitor

Selecionado pela presidente Dilma Rousseff (PT) para di­rigir o Ministério da E­du­cação em seu segundo man­dato, o agora ex-governador do Ceará Cid Gomes (Pros) pretende fazer pe­los próximos quatro anos uma revisão profunda na prioridade de investimentos do governo para a área, no qual o ensino básico terá mais ênfase em detrimento do superior.

Entre as medidas defendidas pelo ministro está um novo currículo para o ensino médio, com o objetivo de possibilitar ao aluno se aprofundar nas áreas com as quais tenha mais afinidades. A questão: ele acredita que os estudantes não devem ser obrigados a ter conhecimento em todos os campos. O novo modelo de ensino médio idealizado pelo próximo ministro é o mesmo utilizado nos Estados Unidos e em países da Europa.

Se o estudante tem maior habilidade e vocação na área de humanas, por exemplo, ele se aprofundará em disciplinas como História, Geo­grafia, Sociologia e Filosofia. Caso o aluno tenha facilidade em matérias que envolvam cálculos e ti­ver mais vocação para o campo de tecnologia, ele terá mais horas-aula em Matemática, Física e Química. A grade curricular não mais forçaria os alunos a aprender de tudo como é atualmente, acabando, dessa maneira, a obrigatoriedade de conhecimento em todas as áreas.

Como este modelo ainda é uma novidade no País, a sua implantação será precedida de ampla discussão junto ao meio acadêmico. O próprio ministro nomeado já declarou à imprensa que vai ouvir sugestões e estudar as experiências de outros países, pois não será fácil implantar um programa educacional em substituição a um modelo consolidado no Bra­sil há mais de 40 anos. Cid acredita que o ensino médio “enciclopedista” desmotiva e provoca evasão escolar.

Outro desafio assumido por Cid Gomes é em relação aos investimentos prioritários da área que, depois de décadas, vão se voltar para o ensino básico em detrimento do superior. O novo ministro acredita que atacar o problema nos primeiros anos de ensino seja um caminho para melhorar sua qualidade.

Para isso, ele sabe que a pasta vai necessitar de mais recursos, porém, acredita que a verba necessária para a redefinição das prioridades no financiamento educacional virá à medida que o Congresso Nacional encarar a questão como prioritária e colocar o projeto do aumento do porcentual do Produto Interno Bruto (PIB) para a Educação em votação.

Cid Gomes pretende adotar estratégias diferenciadas para melhorar o ensino em regiões onde os indicadores são piores, como no Nordeste e Norte e alguns centros urbanos. O novo ministro defende que o foco deve ser onde se concentra a pobreza e que um caminho será ampliar a oferta de escolas de tempo integral para evitar o contato de estudantes com o mundo das drogas. Para ele, não é correto tratar os desiguais igualmente, e que as questões regionais e os baixos indicadores da Educação no Norte e Nordeste são associados à pobreza.

Em relação ao Enem, Cid Gomes diz que o exame nacional para o ensino superior é um caminho sem volta. Segundo ele, no futuro, as provas de acesso às universidades poderão acontecer a partir de um grande banco de dados com questões que possam ser feitas a qualquer momento, em diferentes locais, em um sistema similar ao do exame de legislação de trânsito.

Em relação ao Índice de Desen­volvimento da Educação Básica (Ideb), no qual Goiás tirou o primeiro lugar no último balanço, a ideia é reduzir sua periodicidade para fazer avaliações anuais.

Sobre o ensino superior que, desde os governos militares tem sido a prioridade de investimentos, o desafio será a da retomada da qualidade priorizando sempre a integração com as necessidades do País. O novo ministro pretende aproximar as universidades da sociedade e do meio empresarial. Cid Gomes quer um sistema de para evitar que mais estudantes ingressem em cursos de má qualidade. Outro objetivo é aproximar os secretários estaduais de Edu­cação com o governo federal, porém, sem alterar a legislação de responsabilidade de cada ente para com a área.

As medidas anunciadas vêm em boa hora, apesar de os desafios da educação no Brasil serem árduos. Agora, resta saber se o projeto é a longo prazo ou meramente populista.

“É fantástico que o novo ministro da Educação defenda o ensino básico”
Thiago Peixoto: “O ensino médio atual no Brasil é ultrapassado” | Foto: Fernando Leite/ Jornal Opção

Thiago Peixoto: “O ensino médio atual no Brasil é ultrapassado” | Foto: Fernando Leite/ Jornal Opção

Para o deputado federal Thiago Peixoto (PSD), Cid Gomes está com o pensamento no caminho certo em priorizar a educação básica e implantar uma reforma no currículo do ensino médio. O ex-secretário estadual de Educação de Goiás entende que o atual método utilizado é ultrapassado e que a adequação do currículo à aptidão do aluno é um avanço no sistema educacional do País. “Ele vem com essa visão de fortalecer a educação básica. É fantástico o ministro da Educação reconhecer que é preciso ter mudanças.”

Thiago Peixoto diz que o novo titular do ministério terá dificuldades em realizar as mudanças anunciadas por conta da resistência do meio acadêmico. Atualmente, 75% dos recursos da área vão para o ensino superior e os outros 25% para o básico. Inverter essa lógica exigirá diálogo. O deputado lembra que conhece Cid Gomes e revela que em conversas com o novo ministro notou que o cearense tem conhecimento e experiência na área: “Fazer mudança de currículo é difícil no meio acadêmico, mas ele entende que essa medida é necessária.”

É bom lembrar que Cid Gomes foi o responsável por um projeto bem sucedido de alfabetização em seu Estado, e que se tornou referência nacional. O Programa de Alfabetização na Idade Certa, desenvolvido inicialmente no município cearense de Sobral, foi a base para a criação do Pacto Nacional de Alfabetização na Idade Certa, do governo federal. O programa foi criado quando Cid Gomes era prefeito de Sobral e foi executada a partir de 2007. No Ceará, o programa capacitou cerca de 15 mil professores dos 184 municípios cearenses e beneficia, atualmente, mais de 300 mil alunos de 1º e 2º ano do ensino fundamental, de acordo com o governo do Estado. O projeto recebeu investimento de R$ 20 milhões do governo estadual.

Priorização da educação superior no Brasil é herança do regime militar

A opção pela educação superior em detrimento da básica é uma herança do regime militar que seguiu nos demais governos democráticos. Segun­do estudiosos em educação, a partir da década de 1970, o País errou em não priorizar a universalização do ensino básico de qualidade. Não foi dada a importância que deveria à educação de base, justamente aquela que forma cidadãos. O resultado é sentido atualmente com a baixa escolarização da população brasileira e a falta de mão de obra qualificada para diversas atividades produtivas, que se transformaram em ameaças ao desenvolvimento do País.

Desde o regime militar, o governo vem optando por investir na educação superior, imaginando que isso alavancaria mais rápido o desenvolvimento. A ideia que prevaleceu foi a de que era necessário investir na educação universitária e que, se se elevasse a massa de preparados no terceiro nível, ou seja, graduação em curso superior, a promoção dos primeiro e segundo níveis seriam automáticas.

Apesar de ter semeado um sistema de ensino superior que hoje coloca o País entre os maiores em produção científica (segundo o Instituto Scimago Journal & Country Rank), a escolha feita pelo regime militar, e seguida pelos demais governos, retardou a universalização do ensino e ainda compromete sua qualidade. O investimento em educação leva anos para dar retorno, porém, se formulada uma estratégia de desenvolvimento, o ponto chave deve ser uma virada na educação e no treinamento.

2 respostas para “Cid Gomes assume com a intenção de mudar 40 anos de políticas educacionais”

  1. Avatar jallys Mendes disse:

    A valorização do Ensino Médio e o aumento dos recursos destinados para essa etapa do ensino é algo positivo e necessário. Atualizar o currículo e direcioná-lo segundo a afinidade do educando permitiria o melhor aproveitamento dos conteúdos. Porém, algumas questões não me deixa conceber essa ideia. Tudo isso será possível com as instalações de ensino que temos? Com material didático limitado? Com professores desvalorizados? Desvalorização essa não só expressa na remuneração do professor, mas em sua importância social. Com presença nula da comunidade na vida escolar?
    A educação brasileira necessita de transformações profundas. Estas propostas pelo Ministro Cid Gomes é bem vinda. Mas há muito mais que isso para termos uma educação de boa qualidade e, assim, podermos ser de fato, a “Pátria educadora”.

  2. Avatar João Paulo Silveira disse:

    Thiago Peixoto sabe sobre a educação o mesmo que eu sei sobre os micro-organismos que vivem no lugar mais frio da Sibéria. Sua afirmação sobre o “atraso do ensino no brasil” tem a mesma credibilidade que notas de três reais. Educação tem que ser objeto de educador, isto é, de quem conhece o cotidiano da escola e que sabe o que é fazer parte de uma classe trabalhadora que luta contra uma longa história de desvalorização da educação pública. A valorização do professor é o primeiro passo – mas não o único – para uma caminhada longa cujo o resultado positivo só será colhido a longo prazo. Em tempo: o relativo sucesso que algumas escolas viveram no ano passado foi o produto do esforço da comunidade docente que buscou maior qualificação acadêmica e não da gestão tucana.

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