Caiado pode ficar fora do 2º turno em 2018? Sua tática atual é parecida com a de 1994

Marqueteiros e cientistas políticos sugerem que estratégia do ataque, fórmula do candidato do DEM, não funciona. O que vale são propostas de melhores dias para os indivíduos

Rafael Oliveira

Cada eleição tem sua especificidade e sua história. As eleições não se repetem de maneira integral. Mas há similaridades entre vários pleitos. O de 2018 é uma obra aberta e, por isso, não dá para formular juízos definitivos — sua história se “fechará” unicamente depois do pri­meiro turno e, se houver, do segundo turno. Ainda assim, é possível perceber que o pleito de 1994 guarda semelhança com a recém-iniciada campanha do pleito de 2018. Agora, estão na disputa Ronaldo Caiado, do DEM, José Eliton, do PSDB, e Daniel Vilela, do MDB, para arrolar apenas os nomes mais consistentes, a se aceitar os resultados das pesquisas de intenção de voto.

Na campanha deste ano, o senador Ronaldo Caiado repete o feito de 1994 — há 24 anos (ele tinha 45 anos e, agora, tem 69 anos) — e aparece em primeiro lugar nas pesquisas de intenção de voto — com números de 37% a 39%. Trata-se de uma liderança expressiva e, até, folgada. Em 1994, nos primórdios da campanha, Ronaldo Caiado liderava — com Lúcia Vânia, então deputada federal pelo PPB, em segundo lugar e Maguito Vilela, pai de Daniel Vilela (então um garoto de 10 anos), em terceiro lugar. O vice-governador Maguito Vilela contava com o apoio de Iris Rezende. Era o candidato do governo, da estrutura mais ampla. Lúcia Vânia não era candidata do governo, mas contava com uma estrutura partidária ampla, congregando vários partidos, como o PSDB. No mo­men­to, Ronaldo Caiado está em pri­meiro, com o candidato do go­verno, o governador José Eli­ton, em segundo e o postulante do MDB, o deputado federal Daniel Vilela, em terceiro lugar.

Oposição sem renovação

O publicitário Hamilton Car­neiro planejou o marketing de campanha do candidato Maguito Vilela em 1994. O marqueteiro afirma que o acerto da equipe naquela campanha foi apostar em programas sociais muito demandados pela população, como o “Pão e Leite”. Tratava-se de uma aposta no assistencialismo — bem antes do surgimento de programas como a Renda Cidadã e o Bolsa Família.

O PMDB (não era MDB) tinha o controle do Executivo estadual. A chapa majoritária era formada por Iris Rezende, que havia se desincompatibilizado para disputar mandato de senador, Maguito Vilela para governador, Naphtali Alves na vice e Mauro Miranda para o Senado. A publicidade elaborada por Hamilton Carneiro — com a participação de outros estrategistas da campanha, como o economista Euler Morais — contribuiu, de maneira decisiva, para eleger os governistas: cabelo, barba, bigode e sobrancelhas. “Iris Rezende vinha de um governo de muitas realizações e era candidato ao Senado, o que contribui para a vitória de todos, inclusive de Maguito Vilela para o governo”, afirma o marqueteiro. Deu-se o somatório do programa social — a proposta de distribuição de cestas básicas em todo o Estado — com o peso da máquina e a força de um líder político consolidado. Chegou-se, na época, a nominar Mauro Miranda de “senador-mochila”, porque teria sido carregado por Iris Rezende.

O cientista político Itami Campos, professor aposentado da Universidade Federal de Goiás, explica que o “discurso de oposição” vulgarizado por Ronaldo Caiado em 1994 não foi identificado como “discurso de renovação”.

Itami Campos aponta dois fatores para a queda de Ronaldo Caiado: a força de articulação política de Iris Rezende e a aliança partidária malfeita. “Uma composição política mal ajustada prejudica o desempenho do candidato. Iris estava no auge de sua carreira política, com uma trajetória sólida no go­verno de Goiás.” Sem conseguir articular uma aliança consistente, com ramificações em todo o Estado, o postulante do DEM não tinha quem sedimentasse sua mensagem nos municípios. Não muito diferente do que está ocorrendo hoje — quando tem como aliados partidos que, de tão inexpressivos, são conhecidos como nanopartidos. Eles não têm tempo de televisão, fundo eleitoral e estrutura política no interior do Estado.

Esqueceu propostas

O geólogo e marqueteiro Carlos Maranhão, membro da equipe de marketing da candidata Lúcia Vânia naquele ano, sublinha que, no lugar de armar um discurso propositivo, Ro­naldo Caiado concentrou sua campanha em denúncias contra o candidato do PMDB — o que não permitiu que o eleitorado o avaliasse como candidato. Parecia, ante os olhos e ouvidos dos eleitores, o candidato do rancor, do negativo, do apocalíptico. A exclusão do candidato pefelista do segundo turno se deu por consequência de seu comportamento na campanha.

“As atitudes do Caiado foram baseadas mais em oposição ao PMDB do que em propostas. Ele caiu basicamente por falta de projetos para Goiás. Lúcia Vânia fez uma campanha propositiva, escapando do viés populista, e conseguiu ir para o segundo turno. Aquela eleição foi pautada em propostas”, enfatiza Carlos Maranhão. O eleitor ficou com a impressão de que Ronaldo Caiado era exclusivamente o candidato do “não” — do negativo. O postulante que atacava, mas não oferecia uma alternativa. Ele tinha um projeto de poder, mas não de governo. Teria sido assimilado assim pelo eleitorado, que, no fundo, quer saber o que o candidato vai fazer para melhorar sua vida — e rapidamente, não num futuro remoto. Ganha eleição o candidato que “vende” esperança e não o apocalipse.

“A eleição é, em si, influenciada por aquilo que se se propõe na campanha”, sugere Carlos Maranhão. “Tem candidato que consegue fazer uma campanha equilibrada entre oposição e propostas. Outros fazem apenas oposição, como Caiado. Ele perdeu a eleição de 94 por usar só o denuncismo.” Hoje, sem campanha e sem verificação de propostas, não tem como se avaliar os candidatos. Por isso, as pesquisas de intenção de voto, por mais verdadeiras que sejam, não estão avaliando candidatos e seus projetos — e sim meramente o fato de que uns são mais conhecidos do que os outros. “Pode-se dizer que não há favas contadas em política. O quadro de hoje pode não ser o de amanhã”, sublinha o marqueteiro que contribuiu para vitórias do tucano Marconi Perillo para governador. “De um dia para o outro, assim que as propostas são conhecidas e avaliadas, a configuração eleitoral, a respeito das posições dos candidatos, pode mudar tudo.”

As bases eleitorais municipais têm papel decisivo na eleição para governador. Hamilton Carneiro menciona o suporte recebido por Maguito Vilela nos municípios goianos, apesar de uma coligação partidária menor. O candidato de Hamilton contava com quatro partidos na coligação: o PMDB, o Partido Republicano Progressista (PRP) e os extintos Partido da Reconstrução Nacional (PRN) e Partido Liberal (PL). Na época, independentemente da coligação, o peemedebismo representava uma força política extraordinária. Um verdadeiro exército — que não perdia eleição desde 1982, atropelando gigantes políticos como Otávio Lage, Mauro Borges e Paulo Roberto Cunha.

“Eu fiz 36 campanhas majoritárias na minha carreira e trabalhei até o mesmo candidato à reeleição. Embora tenhamos outra geração de candidatos, o Ronaldo Caiado continua o mesmo”, Hamilton Carneiro | Foto: arquivo

De acordo com o cientista político e professor aposentado da UFG, o “discurso de oposição” vulgarizado por Ronaldo Caiado em 1994 não foi identificado como “discurso de renovação”, Itami Campos | Foto – Itamar Sandoval

“O eleitor quer confiabilidade e equidade entre o que pode ser feito na realidade do Estado. É preciso apresentar uma ideia clara de como se pretende governar. Não basta ser honesto, é preciso saber administrar”, Wilson Ferreira | Foto: arquivo

Ronaldo Caiado contava com seis partidos na sua coligação de 1994. A maior quantidade de legendas por coligação. Em 2018, o candidato do Democratas conseguiu o apoio de 13 siglas. A maioria — nanopartidos — tem a mesma baixa representatividade das legendas da coligação de 1994 (não tem o apoio de 10 prefeitos). Em 1994, Caiado listava o seu PFL e os nanicos PT do B, PSD, PSC e Prona que lhe renderam 364 mil votos e o terceiro lugar na eleição. A estrutura nos municípios dos quatro partidos aliados a Maguito somou 669 mil votos. Quase o dobro: 305 mil votos a mais para o candidato do MDB.

Hamilton Carneiro relata que muitos candidatos agrupam uma quantidade expressiva de partidos para sua sustentação, mas, quando chegam ao segundo turno, não vencem a eleição. “Eu fiz 36 campanhas majoritárias na minha carreira e trabalhei até o mesmo candidato à reeleição. Embora tenhamos outra geração de candidatos, Ronaldo Caiado continua o mesmo”, diz o experimentado Hamilton. O líder do DEM é mais do mesmo.

A semelhança entre 1994 e 2018 é, do ponto de vista de Ronaldo Caiado, a falta de propostas consistentes, para além do lugar comum, das platitudes políticas. Carlos Maranhão frisa que o candidato do DEM continua a primar pela não apresentação de propostas e permanece se concentrando nos ataques àqueles que colocaram propostas em prática. “Caiado mudou a tônica das denúncias. Ele tenta passar agora uma imagem amadurecida, mas não faz o discurso da unidade e da paz. Ele não faz aquele discurso do Goiás do futuro. Ele se limita ao discurso de mudança sem apontar a mudança que pretende fazer e, por isso, as pessoas ficam inseguras.” O marqueteiro afirma que os eleitores estão plenamente amadurecidos, não prestam atenção em “ataques” e “críticas gratuitas” — “pesquisas qualitativas mostram isto com fartura de informações” —, mas observam, com atenção redobrada, o que os candidatos pretendem fazer para melhorar sua vida e a vida do vizinho.

O trunfo do candidato

O professor de Ciência Política da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO) Wilson Ferreira da Cunha — mestre em Antropologia pela Universidade de Moscou e um dos mais experimentados analistas da política do Estado nos últimos 36 anos — assinala que as pesquisas são sinais dos sentimentos dos eleitores e, embora sejam parecidos entre 1994 e 2018, eles podem mudar. Para o professor, a vantagem de Caiado nesta eleição foi manter a coerência política com o seu partido em todos esses anos. O candidato democrata apoiou o Plano Real em 1994 e vinha de uma posição firme da eleição presidencial de 1989. “Ele não tem muitos arranhões políticos na carreira, o que dá certa proteção ao seu nome. Desde 1989 ele manteve a mesma conduta de oposição”, anota Cunha.

O cientista político postula que o cenário político atual — dada a crise ética na conduta de vários líderes partidários — pode favorecer o senador a chegar ao segundo turno na eleição. “Primeiro porque o MDB não tem mais a capilaridade eleitoral de 1994”, analisa Carlos Maranhão. Wilson da Cunha aponta a fragilidade dos principais concorrentes: “O governador não tem o carisma ideal para se reeleger e o candidato do MDB não tem experiência política. O erro estratégico da campanha de 2018 de Daniel e de Eliton é focar no ser humano sem mostrar como isso vai acontecer. O eleitor quer confiabilidade e equidade entre o que pode ser feito na realidade do Estado”, arremata o cientista político. Mas não se pode apenas apresentar um discurso ético, como Ronaldo Caiado vem fazendo. “É preciso apresentar uma ideia clara de como se pretende governar o Estado.” O debate puramente ético tem um limite.

Não basta ser honesto, é preciso saber administrar.” Com quase 70 anos, Ronaldo Caiado não tem nenhuma experiência em termos de gestão, o que reforça a tese de que é um político “mais de discurso do que de ação”. Sua vida política está circunscrita à Câmara dos Deputados e ao Senado. Na Câmara dos Deputados não chegou, por exemplo, a presidir a importante Comissão de Consti­tuição e Justiça (CCJ) — que lhe teria conferido alguma experiência.

Carlos Maranhão acredita em uma mudança no cenário eleitoral para a eleição de 2018. Em 1994, os candidatos tinham indicação de outros políticos para receberem votos — como Iris Rezende indicou Maguito Vilela. Mas o eleitor vai eleger o próximo governador, novamente, baseado em propostas. “A figura da indicação acontece. Maguito Vilela é importante em Goiás e tem eleitores que podem acabar seguindo as orientações dele e votando em Daniel Vilela, seu filho. Mas, definitivamente, o peso maior vai ser o convencimento dos eleitores com as propostas, como foi em 1994, e não a indicação pessoal”, assegura Carlos Maranhão.

“O eleitorado está totalmente diferente, com outras expectativas. As ideologias partidárias foram muito diluídas de 1994 para cá. A vantagem atual que os candidatos precisam ter é ser correto e ter experiência. Como em 1994, vai depender muito do discurso de convencimento dos candidatos”, aposta Hamilton Carneiro.

Marqueteiros e cientistas políticos destacam que o fato de Ronaldo Caiado se manter à margem, com o objetivo de não se desgastar, tem prazo de validade. A partir de certo momento, com os debates na televisão e em auditórios de associações dos segmentos organizados da sociedade, o candidato do DEM terá de aparecer. Se vai conseguir emplacar a ideia de que se tornou “Caiadinho Paz e Amor”, sem a pose aristocrática e, eventualmente, agressiva, é preciso esperar para verificar. Como o eleitor vai avaliá-lo se mudar de conduta? A resposta ainda não pode ser dada. Mas descaracterizar um político para torná-lo palatável nem sempre funciona do ponto de vista eleitoral. A principal arma de Ronaldo Caiado, sua firmeza e ênfase nas opiniões, é sua principal virtude e, ao mesmo tempo, seu principal defeito. Há eleitores que aprovam e há eleitores, a maioria, que não aprovam. Observe-se que as mulheres estão entre os eleitores que mais resistem a votar no postulante do Democratas. Qual Caiado se terá no pleito: o real ou a máscara? É a pergunta dos cientistas políticos, dos marqueteiros, dos pesquisadores, dos políticos e dos eleitores.

Slogan dos postulantes

Os bordões usados na campanha de 1994 parecem se repetir nesta eleição. Ronaldo Caiado volta a repetir o conceito de oposição e a necessidade de mudança no Estado. Há 24 anos era Garantia de um futuro melhor e hoje é Unidos para Mudar Goiás. Marqueteiros dizem que, para um político que disputa mandatos, inclusive governos, há 29 anos — e já bancou Marconi Perillo para governador e indicou José Eliton para vice do tucano —, falar em mudança pode ser considerado um “contrassenso”.

O MDB tinha como slogan Frente Ética de Goiás — mesmo após governar o Estado por 12 anos seguidos (com a vitória, governou 16 anos). Hoje, Daniel Vilela resgata a essência da ética nos discursos e definiu o slogan “Novas Ideias, Novo Goiás” para ressuscitar a esperança no coração dos eleitores. Hamilton Carneiro explica que o uso da “esperança” é um recurso universal no marketing político. Só funciona quando os eleitores a identificam ao candidato.

O PSDB também recorreu à esperança para trabalhar a sucessão do ex-governador Marconi Perillo (PSDB). A reeleição do governador José Eliton adotou uma nova palavra ao slogan de Perillo usado por 16 anos: “Novo Tempo Novo”. O anterior era “Tempo Novo”. O grupo que elegeu Marconi Perillo está há 20 anos no poder (completa em 31 de dezembro). l

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Edilson

Ou seja, temos que escolher entre encefalite, sinusite ou dor de dente…..então vamos nos outros candidatos.