Caiado deve disputar o Senado. Na base aliada

Poucos se lembram, mas o líder do DEM foi um dos fundadores da união das oposições, em 1996, grupamento que vence eleições desde 1998

Ronaldo Caiado: com exatamente o mesmo roteiro de 2010

Ronaldo Caiado: com exatamente o mesmo roteiro de 2010 | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Afonso Lopes

Não será a primeira vez. O principal líder do DEM, Ronaldo Ca­iado, é, para usar frase comum na política goiana, useiro e vezeiro do voo solo no exercício do mandato e do voo coletivo nas eleições. Aliás, não é somente ele que age assim, não. A grande maioria dos deputados estaduais e federais, inclusive prefeitos e vereadores, fazem exatamente a mesma coisa, embora Caiado seja um dos poucos a abrir o jogo e suas posições tão logo as urnas são fechadas. Os demais, geralmente, ficam no chove-não-molha de idas e vindas de momento.

Difícil entender o jogo cifrado da maioria? Não. Basta puxar rapidamente pela memória sobre prefeitos que estabelecem relações quase afetivas politicamente com governadores e quebram todo esse encanto às vésperas de eleições. Ou vereadores que, eleitos pela base do prefeito vencedor, usam qualquer momento difícil para amolar a faca no pescoço do prefeito aliado para assim conquistar mais cargos ou obras para seus redutos. Os exemplos se estendem aos demais níveis de mandato.

Nesse sentido, portanto, o deputado Ronaldo Caiado é de uma coerência sem igual, e poucas vezes explicitadas no mundo político. Ele faz o caminho de Santiago da Compostela invertido: ganha a eleição com o governo e se afasta logo depois. Geralmente, o que se vê diariamente é quem se elege na oposição, mas caminha rapidamente para o templo do vencedor em seguida.

Origem

É curioso observar Ronaldo Caiado novamente junto ao grupamento que está no poder em Goiás? De maneira alguma. Caiado é um dos fundadores da união que resultou no definitivo fortalecimento desse eixo político. Em 1996, na disputa pela Prefeitura de Goiânia, pela primeira vez na história política de Goiás os grandes partidos que faziam oposição à hegemonia do PMDB irista se uniram em torno da candidatura do ex-prefeito Nion Albernaz, do PSDB.

Caiado resistiu o quanto possível e apostou praticamente tudo em uma candidatura própria, Sandes Júnior. No último momento, ao ver que levaria o DEM para o isolamento total e isso fortaleceria o PMDB e o PT, que comandava a Prefeitura com Darci Accorsi, Caiado aceitou a tese da grande união oposicionista. Chegou a indicar Sandes Júnior como vice de Nion, mas Sandes já estava com um pé no apoio à candidatura do PMDB. A deputada federal Maria Valadão foi então indicada para o cargo.

Foi desse eixo que nasceu o chamado Tempo Novo, que em 1998 transformou um tema de campanha em mote de autêntico movimento político. Hoje, dezenas de siglas, muitas das quais apoiavam o PMDB na época, pululam em torno da base original, criada por PSDB, DEM, PP e PTB.

Mas Caiado estaria sendo incoerente por ter se distanciado desde 2010 do Palácio das Esmeraldas e novamente abrir a possibilidade de aproximação, como, aliás, aconteceu também no processo eleitoral de 2010? Aparentemente, sim. Na verdade, não.

Fora o fato de ser um dos fundadores da base aliada estadual, um dos únicos democratas que se afastou do Palácio das Esmeraldas foi ele, Caiado. Todos os demais, de deputados estaduais a prefeitos e vereadores, permaneceram na aliança. E ele sempre aceitou esse fato, embora tenha total domínio interno. Poderia, como ocorre algumas vezes em outros partidos, expulsar quem não o acompanhasse. Alguns saíram do DEM, é verdade, como o deputado federal Vilmar Rocha, que se aproveitou do momento de criação do PSD e se mandou para lá. Mas não se sabe de nenhuma censura pública de Caiado contra deputado, prefeito ou vereador do DEM que continuou na base aliada.

Mas essa militância pós-eleição numa espécie de limbo oposicionista não seria uma forma velada de oportunismo? Poderia ser, sim, se Caiado rompesse nos momentos de crise. Não é isso o que aconteceu. Ele se separou antes mesmo da formação da equipe de governo. Simplesmente, negou-se a desfrutar do poder que ajudou a conquistar. Além disso, apesar de ser dono de um dos discursos mais inteligentes e agressivos da política estadual, jamais fez oposição acirrada à base. Nem ao governo e nem aos democratas que não o acompanharam.

Então, por que agora ele sinaliza que pode voltar a integrar a base que renegou nos anos de mandato? Porque o momento não é mais de atuação pessoal, mas partidária. Agora, não é mais Ronaldo Caiado, mas o DEM, principalmente. E caberia a ele dois caminhos: ou resolver sozinho e empurrar a decisão para baixo, ou permitir que a maioria indique o caminho. Inédito? De jeito nenhum. Exatamente o mesmo retrato de 2010. Tudo detalhadamente igual.

Em 2010, Caiado fez tudo o que era viável para conduzir o DEM para a terceira via, aquela que se revelou uma aventura fracassada patrocinada pelo Palácio das Esmeraldas contra o eixo liderado por Marconi Perillo. No último momento, como aconteceu em 1996, recuou para a maioria. Como novamente deve acontecer agora em 2014.

Caiado se viabilizou para disputar o Senado. A chapa de Marconi está praticamente pronta, com ele próprio na reeleição, José Eliton como vice e Vilmar Rocha para o Senado. Então, esse agora é o ponto que será discutido e negociado. São quatro nomes e três cargos, sendo duas indicações para somente uma vaga de senador. O DEM, certamente, vai lutar pela candidatura ao Senado, com Ronaldo Caiado. Pelo andar da procissão, pode funcionar. Nesse caso, pesaria bastante a agregação de votos, especialmente numa eleição que todos percebem antecipadamente como acirrada. Sobraria José Eliton, que cederia espaço na vice para Vilmar e reforçaria a chapa de deputado federal.

Mas Caiado como candidato ao Senado seria um reforço ou um peso? Ambos. Reforço para a base aliada e peso-pesadíssimo se ele, como candidato, comprar a briga pelos interesses dos aliados, o que inclui seu próprio DEM.

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