Brasil, a “terra da paz” (e dos panos quentes)

A forma amigável que se encontra de resolver questões graves no País acaba sendo uma meia sola que perpetua todos os males nacionais

"Proclamação da Independência”, de François-René Moreaux (1844)

“Proclamação da Independência”, de François-René Moreaux (1844)

Elder Dias

Nas décadas de 80 e 90, quando o Instituto Fe­deral de Goiás (IFG) ainda se chamava Es­cola Técnica Federal de Goiás, havia uma frase estampada em letras gigantes na fachada da instituição: “Brasil, terra da paz”. Ainda nem era aluno lá, mas já ficava encucado com o que de fato queriam dizer com aquele enunciado na porta de uma unidade de ensino. Refletia assim: se fosse na porta do quartel, ou até mesmo do Corpo de Bombeiros, aquilo faria sentido. Mas ali?

Nunca soube sua origem, se o letreiro foi instalado pelo regime militar ou se tinha uma origem pretérita, já que a escola havia sido transferida da cidade de Goiás para Goiânia ainda em 1942, mesmo ano do batismo cultural da nova capital. De toda forma, a primeira mensagem transmitida com a frase era, e é, a de que os brasileiros compõem uma Nação onde não há guerras. Ou que, se as há, elas só existem em último caso.

No fim, a frase é, ao mesmo tempo, uma falácia e uma verdade. Falácia porque, se não há guerras, também não há nada de “paz” em um País onde se batem mais recordes de homicídio do que marcas olímpicas. Só em 2012, foram 56.337 assassinatos, segundo dados divulgados pelo Mapa da Violência 2014.

Para exemplificar, isso é um número equivalente à média de mortes anuais na atual guerra civil da Síria, ou ao número total de mortes no conflito da Chechênia (1994–1996). Seria menos mal se por aqui houvesse mesmo uma guerra, pois guerras são passageiras.

A frase é também, de certa forma, uma verdade. Na verdade, uma meia verdade. Ou uma verdade transitando entre a ironia e o eufemismo. E é dessa verdade que se trata aqui. No Brasil, se fala em “paz” como forma de — por vias diplomáticas diversas — minimizar ou desconsiderar conflitos, até mesmo os necessários.

É um traço cultural, como o historiador Sérgio Buarque de Holanda dissecou com seu “homem cordial”, no clássico “Raízes do Brasil”. Mas a forma amigável que especialmente as autoridades encontram de resolver questões graves acaba virando uma meia sola que pereniza a desigualdade, a miséria, a falta de educação de qualidade, enfim, todos os males nacionais. Têm sido assim há quase cinco séculos, se se considerar o ano de 1530 como o início da colonização efetiva por Portugal.

Por algum motivo incerto, o Brasil traçou em seu destino uma rota de não colisão interna ou externa durante os momentos críticos de sua história. Pelo menos quando haveria riscos de uma disputa com tamanhos equivalentes de força. É preciso deixar claro aqui, como dois parágrafos atrás, que essa “estratégia inconsciente” não significa ausência de sangue. Que o digam, de modo especial, os índios e os negros dos séculos 16 a 19 e os pobres de todos os tempos, além das várias rebeliões localizadas nos tempos de colônia e império.

Mas, de fato, nos percursos da história brasileira, vivemos uma violência invisível que condicionou o que poderia ser chamado de “jeito de ser” da Nação, algo contra o que poucos ousaram lutar. “O Brasil ainda não teve uma ruptura”, resume a professora Denise Moura, da Universidade Estadual Paulista (Unesp) no campus de Franca, doutora em História Econômica pela Universidade de São Paulo (USP) e autoridade quando se fala em Brasil Colônia.

Meio milênio de conflitos esparsos

Ocupação da parte externa do Congresso Nacional, em 2013: manifestação que arrefeceu sem consequências | Foto: José Cruz/ABr

Ocupação da parte externa do Congresso Nacional, em 2013: manifestação que arrefeceu sem consequências | Foto: José Cruz/ABr

Os maiores conflitos da história brasileira ocorreram bem longe dos grandes centros urbanos. A sangrenta Guerra do Paraguai, com quase meio milhão de mortos (50 mil brasileiros) e a Revolução Farroupilha (total de 47,8 mortes) foram os conflitos mais violentos, mas ocorreram distantes do centro do poder. Assim também ocorreram as revoltas periféricas, das quais a Guerra de Canudos é a mais simbólica.

Talvez a única tentativa de sublevar próxima ao governo central tenha sido a Inconfidência Mineira, em 1789, influenciada pela conjuntura mundial: as ideias iluministas, a independência dos Estados Unidos e a Revolução Francesa. O que teria sido do Brasil se a conjuração tivesse se efetivado? Nunca se saberá, mas sabe-se que os inconfidentes não estavam muito afeitos à ideia de dar fim à escravidão – muitos dos líderes eram proprietários rurais.

A independência do Brasil, comparada à dos Estados Unidos, por exemplo, é algo quase protocolar. Em terras norte-americanas, o 4 de Julho (data da independência dos EUA, em 1776) foi antecedido e seguido por anos de guerra. De 1775 a 1783, foram oito anos de combate que acabaram por envolver, além de colônia e sede do império britânico, também França, Holanda, Espanha e outras nações. Ao fim, cerca de 50 mil mortos, metade de cada lado. Mas tambem um país firmado, forte desde o início, com bases sólidas constituídas a partir das 13 colônias fundadoras.

O processo brasileiro é bem diverso. O rei português, Dom João I, havia voltado a Portugal depois de uma longa temporada no Rio, que viveu o gosto de receber a Corte portuguesa durante 12 anos. A família real havia fugido das tropas napoleônicas, em 1808. Mas o retorno à Europa foi necessário quando eclodiu a Revolução Liberal do Porto, em 1820. Pedro de Alcântara ficou no Brasil, como príncipe-regente, mas foi intimado a voltar para Portugal depois que Lisboa viu que proliferavam manifestações emancipacionistas. Veio o Dia do Fico, no início de 1822, e, depois, várias ordens de Portugal para que Pedro voltasse à terra.

Instigado por grupos nacionais, ele por fim proclamou a independência em 7 de setembro de 1822. Alguns focos de resistência espalhados pelo novo país geraram alguns conflitos. Não se sabe ao certo quantos mortos houve nesse processo, mas estimativas oficiais falam de 2 mil a 3 mil mortos.

Mas a independência não foi ruptura. Nem mesmo com a escravatura, cuja abolição já era desejada, e, mesmo assim, seguiria até o fim do regime imperial. Os abolicionistas só venceriam a disputa um ano antes da Proclamação da República, outro momento particularmente estranho. Diante de um reinado decadente, que viveu e morreu por causa da questão escravagista, o marechal Deodoro da Fonseca teve de ser convencido por colegas de farda para sair de casa e proceder o ato, que nada tinha de revolucionário: foi um golpe de Estado em uma situação um tanto patética, que terminou com o saldo total de um ferido — o Barão de Ladário.por resistir à ordem de prisão.

 

Com o passar dos anos, a instalação da política do café com leite e a República Velha não mudaram em nada o status quo para a quase totalidade da população brasileira. As desigualdades perduraram. E da mesma forma, seguiriam o fluxo com Getúlio Vargas e seu Estado Novo. O golpe militar de 1964, justificado como preventivo a uma tomada comunista do País, tampouco alterou a pirâmide social brasileira. A conquista da redemocratização, em 1985, veio após uma anistia que igualou vítimas e carrascos e acabou por transferir o poder para muitas das mãos civis que tinham poder também durante a ditadura.

Todos esses processos vieram como nuances do período anterior. Não houve, no Brasil, nada que transformasse as regras vigentes. Nem mesmo a chegada do PT ao poder trouxe alterações significativas no modelo nacional: é bem verdade que, pela primeira vez na história do Brasil, as classes mais baixas sentiram um avanço econômico mais notável. Mas, politicamente, como desde o período colonial, a mesma elite manteve o comando do País. O ex-presidente Lula se aliou a sobrenomes antigos da política nacional, como Barbalho, Calheiros, Sarney, Collor e outros.

As passagens de nível no Brasil têm mesmo essa característica. Daí, talvez, apareça sentido para a expressão “terra da paz”. Então, o que dizer das manifestações que tomaram corpo em 2013, com foco um tanto difuso, e ameaçam agora recrudescer, puxadas pela insatisfação com o governo, a crise econômica e escândalos de corrupção? Não há nada que, efetivamente, leve a pensar que vá ocorrer uma revolta social e uma explosão de violência a ponto de instalar um conflito generalizado.

Na verdade, ninguém quer um banho de sangue para que se transforme o Brasil. Aliás, em tempos de intervenções militares que se dizem assépticas em países longínquos, derramar sangue em guerras se tornou algo bárbaro, até “démodé”, a não ser que seja para combater outra guerra ou o terrorismo.

Em que se pode apostar, então, para a efetivação do “país do futuro” a que se referia o pensador e escritor austríaco Stefan Zweig? Em transições, lentas transições. As redes sociais, especialmente, têm catalisado de forma mais dinâmica a insatisfação das pessoas. Por outro lado, é um povo que ainda não sabe exatamente o que quer. Canaliza a indignação para um bode expiatório, como tradicionalmente sempre se fez no Brasil.

Goianos caminham pela Avenida 85 em 15 de março, contra o governo do PT: em que isso vai dar desta vez? | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Goianos caminham pela Avenida 85 em 15 de março, contra o governo do PT: em que isso vai dar desta vez? | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

 

A bola da vez é Dilma Rousseff, mas todos sabem que a solução não é o impeachment. A esteira de sucessão da presidente não mostra caminho mais promissor. Pelo contrário, na sequência direta estão três integrantes do PMDB, partido que hoje representa mais do que qualquer outro a arcaica divisão do país em capitanias.

 

A questão que fica: quando o Brasil conseguirá sua ruptura? Talvez não seja mesmo esse seu destino. Na “terra da paz”, as coisas costumam ser resolvidas com panos quentes. É o que a presidente Dilma tenta agora com o pacote anticorrupção, estratégia usada também em 2013. Da mesma forma, fala-se em reforma política. Mas, vejamos, qual a chance de um Congresso interessado em se manter como está fazer uma reforma revolucionária que o atinja? Muito pequena. A aposta é que as brechas das pequenas mudanças que podem ocorrer abram espaços favoráveis. Uma transição lenta, mas então, quem sabe, positivamente progressiva. l

Deixe um comentário