Blitz de vereadores constata caos na área de saúde da Prefeitura de Goiânia

Membros da CEI da Saúde flagram pacientes em corredores, falta de medicamentos, equipamentos danificados e servidores indignados com a gestão do prefeito Iris Rezende

Foto: Andre Saddi/Jornal Opção

A Comissão Especial de Inquérito (CEI) instaurada na Câmara de Vereadores de Goiânia para investigar os problemas da rede municipal de saúde na capital surpreendeu servidores em visita, na quinta-feira, 30, a dois Centros de Atendimento Integral à Saúde (Cais) — Cândida de Moraes e Bairro Goiá— e ao Centro Integrado de Assistência Municipal de Saúde (Ciam) do Novo Horizonte. Acompanhados de representantes dos profissionais da área, do Conselho Municipal de Saúde, os membros da CEI e seus assessores entraram em consultórios, enfermarias, corredores com pacientes medicados com soros com frascos pendurados em janelas e pessoas à espera de atendimento há horas, deitadas em bancos de concreto.

As cenas verificadas no Cais Cândida de Moraes são um fragmento do que passam goianienses que amargam o caos da Saúde na capital. Com o fechamento de unidades pela prefeitura, as que funcionam estão sobrecarregadas, sem médicos e enfermeiros suficientes. Para piorar, profissionais trabalham sem equipamentos de proteção individual (EPIs).

Muitos servidores se esconderam, outros decidiram denunciar, diante das câmeras e celulares dos assessores que transmitiam ao vivo, pelas redes sociais, a falta de medicamentos, de luvas, máscaras, seringas, bolsas de sangue e infraestrutura desgastada por infiltrações e rachaduras.

As reclamações pipocavam sob o olhar constrangido de Luiz Antônio Teófilo, representante da secretária de Saúde de Goiânia, Fátima Mrué. Teófilo assumiu o cargo de diretor administrativo da pasta na gestão de Iris Rezende — foi um dos candidatos a vereador em 2016 que não conseguiu se eleger e ganhou espaço na equipe irista. Ele tentava amenizar o clima de caos confirmado por depoimentos emocionados de pacientes e familiares que não conseguiam transferência para hospitais mais capacitados para atendimentos complexos.
Na entrada da Emergência, por onde deveriam transitar pacientes trazidos pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), segurando um microfone acoplado ao celular, o vereador Jorge Kajuru (PRP) esbravejava que a porta estava amarrada com um pedaço de faixa para ataduras.

“Vou arrebentar, ajuda aqui, vereador”, pedia Kajuru para Anderson Sales Bokão (PSDC), que puxou a faixa com força. “Tem que ficar aberta, prefeito Iris, pode falar que eu abri”, dizia Kajuru às centenas de pessoas que acompanham online na rede social do vereador. “Em uma das 26”, como ele gosta de repetir.

Médico Maurício Chatter: a situação está muito pior do que na gestão anterior | Gestante, a médica Bruna Araújo já atendeu sozinha em unidade de saúde | Fotos: Yago Sales / Jornal Opção

Kajuru se juntou aos outros vereadores que encontraram um médico cansado de ficar em silêncio. Em um depoimento transmitido ao vivo pelas redes sociais do presidente da CEI da Saúde, vereador Clécio Alves (PMDB), o médico Maurício Chatter desabafou, comovido: “Alguns de nossos pacientes esperam até seis dias para conseguir uma vaga em UTI”. Há 26 anos na unidade, Chatter afirma que “a situação está muito pior do que na gestão anterior”.

Gestante, a clínica-geral Bruna Araújo denuncia que o sofrimento dos pacientes se estende também à equipe. Ela relatou que, por falta de outros médicos, teve de trabalhar sozinha, atendendo à emergência e aos pacientes internados. “Como pego atestado? Os pacientes ficariam sem atendimento. Raramente, quando fico sozinha, eles mandam outro médico para me ajudar”, disse ela, que deve entrar de licença médica em breve, mas sem qualquer indício de que pode ser substituída na unidade.

Ao lado de Bruna, a única enfermeira de plantão no Cais, Vanessa Araújo, acrescenta que tudo piora pela falta de reforço de mais enfermeiros. “Fico sobrecarregada e preciso fazer triagem, cuidar dos internados, supervisionar tudo. Muitos acompanhantes ficam nervosos, mas não podemos fazer muita coisa. Isso daqui é um campo de batalha, uma guerra diária pela sobrevivência”, disse ela, antes de ser interrompida por uma técnica de enfermagem que denuncia a falta de gazes, seringas e luvas. “Às vezes sobram apenas luvas grandes”, revela, mostrando as pequenas mãos. “O paciente corre um grande risco.”

A técnica de enfermagem identificada apenas como Kelly lembra ainda que falta alimentação aos pacientes. “A gente precisa escolher para quem entregar. Vem apenas quatro refeições. Dá pena”, denuncia ela, lembrando que os servidores também sofrem. “Não recebemos nosso vale-alimentação há três meses. Um vale de 7 reais não cai há três meses”, esbraveja uma colega dela, ao mesmo tempo em que afere, no corredor, a pressão de um idoso ofegante.

Juramento
De volta à van que transportou a comitiva de vereadores e assessores pelas unidades de saúde, os comentários eram de consternação. “É revoltante ver como o cidadão é maltratado”, afirmou o vereador Bokão. “Um horror, gente, um horror!”, exclamou a vereadora Dra. Cristina Lopes (PSDB). “Essa é a melhor gestão do Iris, é isso mesmo?”, acompanhou o coro de indignação Max Nascimento, representante de trabalhadores da saúde pública.

“Recurso tem, mas onde estão?”, indagou, no fundo da van, Elias Vaz. “Tá de brincadeira. O povo sendo massacrado pelo Iris. Massacrado!”, devolveu Jorge Kajuru, antes de o presidente da CEI, vereador Clécio Alves, murmurar: “Todos sofrem com a falta de respeito da Gestão”.

Irmã de servidora efetiva trabalha sem vínculo em Cais

Vereadores chegam à unidade no Novo Horizonte onde nenhum médico na escala apareceu ao trabalho | Foto: Yago Sales/Jornal Opção

No Cais do Bairro Goiá, os vereadores integrantes da CEI encontraram um jovem enfermeiro literalmente encurralado. Diretor técnico na unidade, Ramon Bene­vides assumia toda a responsabilidade do Cais sem a presença da diretora, que estaria em Brasília – que, segundo levantamento dos vereadores, cumpria, além das 40 horas na unidade outras 40 em Brasília. Ainda, no momento da blitz dos vereadores, nenhum enfermeiro estava de plantão na unidade. “Eu assumo quando não temos enfermeiros”, justifica ele, que não soube explicar, também, o motivo de uma enfermeira, sem vínculo com a prefeitura, prestar serviços no Cais no lugar da irmã servidora efetiva.

Ao ouvir a denúncia, o diretor administrativo Luiz Teófilo informou que apuraria o fato junto à secretária e que, a partir daquele dia, ninguém sem vínculo com a prefeitura poderia prestar serviços. “É para chamar Guarda Municipal se ela insistir”, determinou Teófilo, preocupado com as perguntas dos vereadores.

Depois de abrir a porta do consultório, uma médica decidiu falar dos transtornos por que passam os médicos da unidade no cotidiano de atendimentos no Bairro Goiá. Em determinado momento, ela se emocionou ao relatar ao vereador Elias Vaz, relator da CEI da Saúde, que trai diariamente o juramento de dar dignidade e respeitar a vida de pacientes que procuram atendimento na unidade.

“Perdi um idoso alguns dias atrás por falta de sangue. Sangue”, repete, indignada, sob anonimato, apontando ainda para as paredes úmidas e com rachaduras. “Não temos condições de trabalho, falta quase tudo”, lamenta a profissional.

A dona de casa Luiza Vieira, de 52 anos, aguardava os vereadores em frente à sala de reanimação, onde a mãe, Maria de Lourdes Vieira, de 88 anos, aguardava vaga em um hospital ou pelo menos uma bolsa de sangue para diminuir seu sofrimento. Diagnosticada com leucemia há cerca de dois anos, a idosa, anêmica, apresentava um olhar de abandono. “Eu pago 450 reais a sessão de quimioterapia para minha mãe. Não sei mais o que fazer”, diz, chorando, Luiza.

Ela ainda tinha alguma esperança de que algum vereador pudesse ajudá-la, mas nenhum deu muita atenção às duas, que não conseguem vaga em nenhum dos hospitais conveniados ao Sistema Único de Saúde (SUS) nos últimos dois anos. “Minha mãezinha precisa ser internada para pelo menos diminuir as dores”, disse ao repórter do Jornal Opção, voltando-se para perto da mãe.

Na unidade, os vereadores percorreram os quartos e encontraram pacientes à espera de transferências. Enquanto alguns parlamentares entrevistavam doentes deitados outros inquiriam servidores que revelavam os problemas que têm prolongado a espera dos pacientes no saguão do Cais ou inviabilizado até o atendimento. Assessores anotavam tudo, inclusive os medicamentos que teriam sido adquiridos em grande quantidade nos últimos meses pela Secretaria de Saúde de Goiânia.

A artesão Maria Zélia, de 49 anos, ia saindo do Ciams Novo Horizonte quando a comitiva dos vereadores chegou. O neto dela, de 6 anos, teve a cabeça perfurada por um vizinho, mas foi impedida de fazer ficha na unidade às 19 horas e orientada a procurar atendimento em outro lugar. “Me mandaram pra cá com meu neto machucado. Nem olharam para ele. Disseram que não tinha pediatra”, contou à reportagem.

Ao saber da situação de Maria e seu neto, o vereador Clécio Alves, que já tinha encontrado em uma sala a diretora da unidade, Maísa Vieira, perguntou se ela deixaria o garoto sair sem ser atendido.

A diretora pediu ao médico que havia acabado de chegar para “dar uma olhada na criança”, que foi levada a uma sala, onde seria atendida por uma técnica de enfermagem. “Preciso saber se meu neto não sofreu algo pior, não podia ir para casa sem passar pelo atendimento. Nem dinheiro para procurar outro lugar eu tenho”, disse a artesã, um pouco satisfeita.

Na unidade, no entanto, precisaria ter três médicos no início da noite. Por isso, a CEI solicitou que a transferência de pelo menos 6 dos 133 médicos lotados na Superintendência de Regulação do Município para a unidade do Novo Horizonte. Na diligência da quinta-feira, 30, os vereadores identificaram pela segunda vez que a escala de médicos não estava sendo cumprida. Dos três profissionais que estavam na escala informada pelo site da prefeitura, nenhum tinha ido trabalhar naquela noite. E um quarto foi chamado para atender os casos de urgências e emergência.

Os vereadores, então, solicitaram esclarecimentos à diretora da unidade, Maísa Vieira, que, na manhã da sexta-feira, 1º, tentou se justificar dizendo que seis médicos foram descredenciados, a maioria por atrasos no pagamento, e por isso estaria fazendo ajustes na escala.

Sem resposta
O Jornal Opção solicitou um posicionamento à Secretaria Municipal de Saúde, mas a pasta não respondeu aos questionamentos. l

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