Apelo pela Chapada (3): como o homem deturpou a relação entre os “irmãos” fogo e Cerrado

Avião joga água sobre área de incêndio, durante o grande incêndio de 2017 no Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros | Foto: Secima

As chamas, ao contrário do que se possa pensar, não são inimigas do bioma. Os problemas começam quando entra o ser humano nessa relação

No dia 5 de junho de 2017, como uma das atividades do Dia Mundial do Meio Ambiente, o então presidente Michel Temer (MDB) assinou um decreto sem numeração, mas de sinalização bastante eloquente para a questão ambiental: sublinhava ali a ampliação do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros em quase quatro vezes em relação a sua área de então – de 65 mil para mais de 240 mil hectares.

Não era exatamente um “presente” do governo para a natureza, até porque o passivo gerado pela ocupação humana do Cerrado e de outros biomas é incalculável. Mais do que uma concessão, era uma condição para manter o título de Patrimônio Mundial Natural, concedido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) em 2001 a algumas unidades de conservação nacionais – outra contemplada em Goiás havia sido o Parque Nacional das Emas, na região Sudoeste do Estado.

O título, portanto, não é apenas decorativo: como uma espécie de selo, torna-se um importante instrumento para que o poder público e a iniciativa privada consigam investimentos sustentáveis para a região e, consequentemente, a preservação de espécies bastante ameaçadas de extinção e que têm ali seu habitat, como a onça-pintada e o pato mergulhão.

Para chegar até o dia da assinatura, houve meses de negociação intensa entre a União e Goiás, que deveria ceder terras públicas e particulares. Por sua parte, o governo estadual teve de ter jogo de cintura para sopesar os interesses envolvidos. No fim, claro, houve gente descontente, até porque o processo indenizatório não é algo simples nem rápido: quem sofreu com a desapropriação na criação do parque, ainda em 1961, no fim do governo de Juscelino Kubitschek, ainda não viu chegar às mãos o valor compensatório.

O fato é que, poucos meses depois da assinatura de Temer no decreto, a região sofreria com o maior incêndio de sua história. Uma destruição avassaladora, que durou duas semanas e deixou em completas cinzas 97 mil hectares – ultrapassaram os limites do parque nacional, atingindo áreas dos municípios de Alto Paraíso, Nova Roma e Cavalcante, este o mais afetado, com 80% de seu território tomado pelas chamas.

Pior: um ano depois, mesmo ante a constatação de incêndio causado propositalmente por ação humana – ou seja, criminoso –, os inquéritos civil e policial foram arquivados. No pedido para arquivamento, a procuradora da República Nádia Simas relatou o ocorrido na Chapada. “O grande incêndio florestal em apreço foi desencadeado por intermédio de atuação humana, em razão da multiplicidade de focos, em pontos diferentes e distantes entre si, porém todos em datas similares ou bastante próximas.”

“Irmãos gêmeos”
O fogo, porém, ao contrário do que se possa pensar, não é um inimigo do bioma. O professor Altair Sales Barbosa, doutor em Arqueologia e idealizador do Memorial do Cerrado, na Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO), tem uma visão interessante sobre a relação da vegetação com as chamas: “O fogo é um irmão gêmeo do Cerrado, não só modela a fisionomia vegetal, mas nutre o solo”, diz.

Professor e pesquisador Altair Sales Barbosa: “O fogo e o Cerrado são irmãos gêmeos | Foto: Fernando Leite / Jornal Opção

Mas como pode o fogo ser, mais do que “amigo”, um “irmão gêmeo” do Cerrado, tendo em vista uma devastação tamanha, como a que ocorreu na Chapada em 2017? Obviamente, a natureza se regulou durante milhões de anos, mas nas últimas décadas não contava com a ação maléfica do ser humana para seu balanço entre terra e fogo. “Associamos o fogo ao inferno, mas muitas plantas precisam ser queimadas, a neve queima como o fogo”, diz o professor.

Ele explica como se deu a deturpação da relação entre os dois “irmãos” no Cerrado. “As queimadas naturais sempre ocorreram, em função de uma série de elementos que a natureza usa para provocar o fogo em determinados ambientes. Por exemplo: feixes de quatzo. O reflexo do sol, em determinada época do ano, por ser oblíquo, reflete no capim que está seco, com isso provocando um fogo que se propaga.” Ele diz mais: “Os próprios animais do Cerrado precisam do fogo, desenvolveram suas habilidades lidando com ele: do tamanduá à raposa, do lobo à onça. Até o roçar do pelo dos bichos na vegetação, com a umidade do ar muito baixa – ou seja, tempo muito seco – pode gerar faíscas eletrostáticas”.

O problema, como sempre, é a entrada do bicho-homem nessa equação. A primeira questão imposta pela gestão antrópica do Cerrado vem a troca das gramíneas naturais do Cerrado por outras, exóticas, vindas da África, da Austrália e de outras localidades. É que o “mato” original não era nada adequado para a criação de gado. Muito esparsas e diminutas – até porque, a mãe natureza não previra que o bioma seria invadido por quadrúpedes ruminantes imensos e vorazes.

“As gramíneas originais do Cerrado não passam de dez centímetros de altura. Dessa forma, o fogo se constituía de ‘lambidas’ nessa vegetação originária. Com o braquiária, o capim-colonião e outras gramíneas exóticas é muito diferente, porque a massa e o volume que têm são muito maiores”, explica Altair. O que isso quer dizer? “Quando ocorre um incêndio, como essas gramíneas são altas e mais volumosas, isso torna um fogo de algumas pequenas labaredas numa queimada incontrolável.

No caso do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, o professor considera importante o aumento da área de proteção, mas desde que não se tenha a ideia de que haja ali uma vegetação natural. “Na verdade, o que vemos, mesmo dentro das áreas dos parques e reservas, não é mais a fisionomia original do Cerrado, mesmo em parques nacionais. Já foram quase todas modificadas e os capins de pastagem ou outras plantas exóticas tomaram o lugar, porque são grandes invasores.

Dessa forma, com essas gramíneas mais volumosas, o risco de grandes incêndios sempre vão perseguir as áreas de proteção, diz o pesquisador. Além do que há outra questão séria: a massa que resta quando o fogo é apagado pelas equipes de brigadistas. “Quando as brigadas antifogo fazem seu trabalho, elas apagam onde aparece um tufo de fogo. Com isso, vai se juntando uma massa combustível que fica para a próxima ocasião de incêndio.”

O aprimoramento no manejo, para evitar que grandes tragédias ambientais como o incêndio de 2017 voltem a ocorrer, passa, segundo Altair, por queimadas controladas da área. “Penso que seria necessário fazer aceiros quadriculando o parque, de modo com que o fogo encontrasse essas barreiras a sua propagação, fazendo um controle das áreas que as chamas atingiriam. Assim poderíamos reduzir as massas combustiveis”, explica o professor, sempre considerando o fogo como necessário à sobrevida do próprio Cerrado.

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