Ao reaparecer em público, Marconi assinala disposição para guiar o PSDB em Goiás

Após dois anos longe dos holofotes, o ex-governador ressurge em Goiás, levantando dúvidas e curiosidade sobre seus próximos movimentos

Marconi é figura carimbada em Goiás, e sua reaparição gera burburinhos / Foto: Reprodução

O nome dele é familiar a todo e qualquer goiano, seja ele novo ou velho. Afinal, são quase 30 anos de presença constante na política, sendo eleito e reeleito nos cargos aos quais outrora se candidatou. Marconi Perillo é figura carimbada no Estado de Goiás e pode ser considerado a liderança personificada do PSDB. Ele, que já foi deputado estadual, federal, governador e senador, renunciou à cadeira do Palácio das Esmeraldas em 2018 para se lançar, mais uma vez, na corrida pelo Senado Federal. Perillo teria tido êxito em sua busca, como mostram as pesquisas iniciais da época, se não fosse um acontecimento, definido por duas palavrinhas em inglês, que viria a se tornar seu pior pesadelo: Cash Delivery.

Marconi foi da ascensão à queda. Como Ícaro, que na mitologia grega voou alto e perto demais do sol e acabou tendo suas asas de cera destruídas, o tucano começou a sentir as chamas em suas asas no dia 28 de setembro de 2018, quando a Polícia Federal deflagrou a ação com o objetivo de apurar o pagamento de propina a agentes públicos de Goiás.

A Operação Cash Delivery, que nasceu com estrondo, fora motivada pelas delações premiadas de executivos da Odebrecht que afirmaram ter repassado R$ 12 milhões para campanhas de Marconi em 2010 e 2014, em troca de supostos favores no governo. Na ocasião da deflagração da operação, a Polícia Federal prendeu Jayme Rincón, o policial militar Márcio Garcia de Moura, o ex-policial militar e advogado Pablo Rogério de Oliveira e o empresário Carlos Alberto Pacheco Júnior.

Na busca e apreensão na casa do PM, a PF encontrou uma mala com R$ 1 milhão. A Cash Delivery foi a bala de prata que matou de vez a candidatura de Marconi ao Senado. O tucano acabou ficando em quinto lugar na corrida eleitoral e não foi eleito. Porém, o pesadelo do ex-governador só estava começando. Em 10 de outubro do mesmo ano, ao comparecer para prestar depoimento no âmbito da Cash Delivery, Marconi foi preso pela Polícia Federal.

Dinheiro apreendido na Cash Delivery / Foto: Polícia Federal

O ex-governador foi liberado um dia após a prisão, depois de Kakay, seu advogado na época, ter conseguido um habeas corpus. O tucano estava solto, mas derrotado. Com a eleição perdida, sem mandato, sem foro privilegiado e contando apenas com o apoio dos partidários mais fiéis, Marconi fez as malas e se mudou para São Paulo, onde foi trabalhar na holding da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), da família de Benjamin Steinbruch.

E por dois anos, Marconi desapareceu dos holofotes, exceto quanto, vez ou outra, trocava farpas com o atual governador do Estado, Ronaldo Caiado. No último domingo, dia 21, num palanque ao lado de nomes como o do secretário de Transportes Metropolitanos de São Paulo, Alexandre Baldy, e do presidente da Associação Goiana de Municípios (AGM) e prefeito de Hidrolândia, Paulo Rezende, lá estava ele. Após um longo hiato, Marconi fazia um discurso a uma pequena plateia na inauguração do Hospital Municipal de Hidrolândia.

Seria o evento um marco do reentrada do ex-governador na vida pública? Estaria ele se articulando para voltar com todo vapor à política de Goiás? Seus aliados duvidam, mas os sinais apontam que Marconi está tão adormecido na vida política como um folião em cima de um bloco de carnaval.

“Ele vai deixar as coisas acontecerem naturalmente”, diz prefeito de Hidrolândia

Além de gestor do município de Hidrolândia e da AGM, Paulo Rezende, o Paulinho, do PSDB, é também um amigo pessoal de Marconi, como ele mesmo afirma. O prefeito conta que o ex-governador marcou presença na inauguração do tão esperado hospital municipal devido a um convite seu, e que o sentimento para com o tucano é de gratidão. “O Marconi é meu amigo pessoal, ele gosta daqui, e já ajudou demais a cidade de Hidrolândia. Eu fiz questão que ele viesse aqui ver a obra que ele ajudou a fazer. A presença dele foi pra matar a saudade e agradecer ele por tudo o que ele fez pelo município”, disse.

No palanque, usando máscara de proteção, Marconi elogiou Paulinho e também manifestou solidariedade para com os familiares das vítimas da Covid-19 no Brasil. Ainda no discurso, o ex-governador afirmou que se afastou da vida pública e que tem cuidado de seu trabalho, mas que não se esqueceu dos amigos. “Eu vim aqui hoje especialmente para dizer que ele [o prefeito Paulo] merece o nosso aplauso porque está ajudando o povo trabalhador e pobre”, enalteceu.

Reaparição de Marconi surpreendeu aliados e opositores / Foto: Reprodução

Paulinho diz que a política não foi pauta da conversa entre os dois no evento, e revelou acreditar que o interesse de Marconi agora é “cuidar da vida dele, continuar trabalhando em São Paulo”. Entretanto, questionado sobre sua opinião sobre uma possível volta de Marconi, Paulinho emite o sinal. “Ele falou que vai dar tempo ao tempo, e que depois da vinda aqui ele recebeu convite de outros prefeitos para ir ao município, mas que ele não vai. Na verdade, ele está deixando as coisas acontecerem naturalmente”, afirmou.

O ex-presidente do PSDB e ex-diretor da Saneago Afrêni Gonçalves também parte do princípio da amizade de Marconi como fator de presença em Goiás. Segundo ele, “Marconi não esquece os amigos, além de ser muito leal, ele é muito grato às pessoas que sempre estiveram com ele”. “E ele também não deixa os companheiros na mão. É líder nato, então ele é sempre consultado, dando as opiniões dele”, diz.

Apesar de também crer que o ex-governador esteja focado em suas funções em São Paulo, Afrêni conta que Marconi tem mantido contato frequente com amigos e aliados em Goiás. De acordo com ele, “eventualmente nessas visitas que de vez em quando faz em Goiânia, Marconi se reúne com amigos, mantém contato por telefone”, mas que “é o jeito dele de sempre estar junto com os amigos”.

O ex-presidente tucano também falou sobre o cenário no PSDB nas eleições, e comemorou o clima de consenso em torno do nome do deputado Talles Barreto. “Não temos uma situação assim desde o Nion Albernaz”, comenta. Segundo ele, Barreto, definido como o candidato do PSDB para as eleições municipais deste ano, está extremamente motivado e dedicado nos trabalhos da pré-candidatura.

Para Talles Barreto, Marconi será fundamental no processo político deste ano

Nome confirmado para representar o PSDB nas urnas nas eleições de ano, Talles Barreto acredita que Marconi será personagem chave nas eleições municipais, o que evidencia que o tucano pode não estar tão adormecido politicamente quanto diz estar. Segundo o parlamentar, o ex-governador “vai ser fundamental nesse processo político de ajudar” a todos os candidatos tucanos que se lançarem na corrida eleitoral.

De acordo com ele, o PSDB está “com uma chapa competitiva, igualitária, chapa muito boa” para este ano. “Estamos acertando com vários partidos e com um grupo político trabalhando constantemente, tomando as precauções necessárias, todo mundo usando máscara, mas estamos trabalhando”, diz.

Talles Barreto diz ter orgulho de Marconi e seus feitos / Foto: Divulgação

Barreto diz que hoje o ex-governador trabalha em São Paulo, mas o histórico dele é de Goiânia. O pré-candidato afirma ter orgulho de Marconi e de “seu histórico”, e que o PSDB vê com bons olhos a dedicação dele nos mandatos em Goiás ao longo da vida política. “Nós sabemos que a história do ex-governador passa pela história do PSDB”, pontua.

Questionado sobre um provável retorno de Marconi, Barreto dá a brecha: “Vai depender dele. Hoje ele trabalha em São Paulo, mas ele tem histórico em Goiás”

Marconi é um animal político e está sentindo o clima em Goiás, diz cientista político

Marconi está para a política assim como o peixe está para a água. Para o cientista político Guilherme Carvalho, um retorno do tucano à vida pública pode ser nada mais que uma questão de tempo.

Segundo Carvalho, é preciso “levar em consideração que Marconi é um animal político”, e deixar a disposição para a vida pública para trás é cada vez menos provável. O cientista avalia que a recente vinda do ex-governador ao Estado pode não ser apenas com um propósito sentimental, mas também de análise de cenário político.

Marconi está sentindo o clima em Goiás, diz cientista político / Foto: Arquivo pessoal

“Levando em conta essa característica, ele veio aqui [em Goiás], para sentir o clima. Na minha avaliação ele está sentindo o clima pra ver como está após quase dois anos fora da vida pública, ou pelo menos articulando somente nos bastidores”, pondera. Para Carvalho, a reaparição de Marconi não traduz necessariamente sua vontade de retomar a vida pública, mas sim o desejo de fazer um raio-x de sua imagem fora das redes sociais.

“Isso significa que nós vamos assistir o Marconi de volta na próxima eleição? Não, não significa isso. Significa que o Marconi veio para estruturar fortemente uma base no interior do Estado? Também não necessariamente. O que precisa ser analisado é que ele quer captar algo para além das redes sociais, porque me parece que a avaliação dele nas redes foi um pouco negativa quanto à vinda dele, então ele queria sentir essa presença não só por parte da população, mas também das lideranças do interior que eram sua base de sustentação”, avalia.

Carvalho diz ser cético quanto a rumores de uma candidatura de Marconi a deputado federal, o que, para ele, pode simbolizar um rebaixamento. Entretanto, deixa claro: Marconi Perillo ainda está plenamente “apto para o jogo”. “Querendo ou não, é uma derrota deixar de ser senador para voltar a ser deputado federal. Eu acho que a implicação do desgaste de Marconi não chega a essa proporção. Ele tem mais solidez eleitoral do que a gente pensa, e ainda tem uma memória afetiva no interior de Goiás muito forte”, finaliza.

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