Antídoto de Lula, Marina carrega o PT dentro de si

Ao dizer que Chico Mendes era tão elite quanto Maria Alice Setubal, herdeira do Itaú, e Guilherme Leal, dono da Natura, a candidata revoluciona o conceito de elite na política brasileira e abala o mito Lula – mas ainda lhe falta matar o PT que traz dentro de si

Marina Silva: conceito inovador de elite que pode iluminar a política brasileira

Marina Silva: conceito inovador de elite que pode iluminar a política brasileira

José Maria e Silva

Com apenas 22 municípios e uma população mal distribuída de 776 mil habitantes, dos quais quase a metade se concentra na capital, o Acre se alimenta de baixaria. O desmatamento é sua principal fonte de divisas – o comércio de ma­deira representa a principal receita de exportação do Estado. Quase a metade de sua população não tem água encanada e dois terços não dispõem de esgoto tratado. Além disso, Rio Branco, a capital, tem a terceira maior taxa de homicídios do País, atrás apenas de Fortaleza (CE) e Boa Vista (RR).

Esses péssimos indicadores sociais contribuem para que os acrianos se alimentem de baixaria. Marina Silva – a acriana mais ilustre desde Chico Mendes e Eneas Carneiro – escapa desta sina. Não por ter sido posta num andor em vez de palanque, mas porque sua frágil constituição talvez não sobrevivesse à cotidiana baixaria – um prato típico do Acre, feito com uma generosa porção de carne moída, dois ovos fritos estalados sobre farinha de milho, acompanhado de café ou mingau de banana num copo tamanho família.

“Baixaria e mingau de banana sustentam um trabalhador por uma jornada – do nascer ao pôr-do-sol. É munição para abastecer um tanque de guerra”, afirma a jornalista Marília de Ca­mar­go César no livro “Marina: A Vida por uma Causa” (Editora Mundo Cristão, 2010), a biografia autorizada de Maria Osma­rina Silva de Souza, mais conhecida como Marina Silva, ex-vice do pernambucano Eduardo Campos, de quem herdou a candidatura do PSB. Marina, a se crer em sua imagem pública cuidadosamente trabalhada, alimenta-se exclusivamente de luz.

Isso não a impede de posar de in­térprete dos excluídos, como fez no “Jornal Nacional”, da Re­de Globo, na quarta-feira, 27, ao ser entrevistada pelos jornalistas Wil­liam Bonner e Patrícia Poeta, que confrontaram a retórica da “nova política” expressa por Marina com muitas de suas ações que são típicas da velha política. O exemplo mais eloquente é o avião em que morreu Eduardo Campos, também usado pela candidata, que parece ser um caso clássico de caixa dois de campanha.

Marina não conseguiu responder aos questionamentos. Talvez porque Bonner e Poeta repetiram com ela a mesma contundência que tiveram com Eduardo Cam­pos, Aécio Neves e Pastor E­ve­ral­do. A exceção foi Dilma Rous­seff, tratada pelos âncoras do “Jornal Nacional” com uma disfarçada condescendência. Diz o provérbio que cachorro que late não morde. Na entrevista com Dilma, Bonner fez valer esse provérbio: franzia o carregado sobrecenho de taturana para parecer feroz, mas limitava-se a cobrar de Dilma uma postura sobre os mensaleiros do PT, quando deveria ter cobrado da presidente uma explicação para seus desatinos éticos e administrativos desde a Casa Civil.

Marina pode ser o novo Serra dos jornalistas

Na entrevista ao “Jornal Nacional”, a candidata do PSB cometeu um erro grave, que pode atrapalhar sua provável escalada rumo à vitória, quem sabe vencendo Dilma já no primeiro turno. Marina Silva, a exemplo de José Serra, não tem paciência com jornalistas que a confrontam. Quando Patrícia Poeta, relembrando a eleição de 2010, quis saber a razão do terceiro lugar de Marina justamente no Acre (o que significa que, por lá, prevaleceu o provérbio: “quem não te conhece que te compre”), a candidata retrucou: “Talvez você não conheça bem a minha trajetória”. Poeta, humildemente, respondeu: “Conheço, candidata, nós estudamos bastante antes de fazermos essa entrevista”.

Um tanto contrariada e com visível arrogância, Marina, sobrepondo-se à fala da jornalista, insistiu: “Mas eu faço questão de dizer, porque eu acho que você tem um certo desconhecimento do que é ser senadora vindo da situação que eu vim”. Na prática, Marina chamou Patrícia Poeta de burra.

Essa atitude pode fazer sucesso diante dos que não gostam da Globo, mas pode resultar em pautas negativas na imprensa. Até as pedras sabem que Marina foi uma trabalhadora analfabeta dos seringais do Acre, contaminada por mercúrio, que só se alfabetizou aos 16 anos de idade. É óbvio que Patrícia Poeta também conhece esses fatos da vida de Marina e deve ter ficado ofendida com a arrogância da candidata em praticamente chamá-la de ignorante em rede nacional.

É provável que, com essa entrevista, Marina tenha angariado a antipatia da bancada do “Jornal Nacional”, o que pode pesar contra ela no noticiário da Globo ao longo da campanha. Algo semelhante ao que ocorre com José Serra na “Folha de S. Paulo”. Talvez por se sentir num ninho de petistas, Serra costuma tratar os jornalistas da “Folha” com arrogância, quase aos pontapés, e recebe em troca um noticiário claramente desfavorável à sua pessoa. Quando de sua convocação pela Polícia Federal para depor sobre o cartel de trens, Serra foi protagonista de uma manchete negativa e exagerada que ocupou uma manhã inteira da página principal do UOL.

Se Marina repetir em outras redações aquela sua conduta no “Jornal Nacional”, respondendo a perguntas críticas com arrogância, ela corre o risco de ver desconstruída sua imagem de santa da floresta. É certo que a imprensa – majoritariamente de esquerda, mas um tanto desiludida com o PT – tende a ser condescendente com a candidata, sobretudo porque Marina carrega na esqualidez de sua própria carne o irresistível apelo dos excluídos. Mas essa condescendência tem limite, até para o próprio eleitor, que acabará percebendo que arrogância não combina com exclusão.

Petista, mesmo depois do mensalão

José Dirceu, José Genoino e Delúbio Soares: nem a trinca do mensalão afastou Marina Silva do PT

José Dirceu, José Genoino e Delúbio Soares: nem a trinca do mensalão afastou Marina Silva do PT

A entrevista de Marina Silva ao “Jornal Nacional” mostra que Aécio Neves – que não tem mais nada a perder, pois está praticamente fora do segundo turno – errou ao não atacar a candidata do PSB no debate da Rede Bandeirantes, levado ao ar na noite de terça-feira, 27. Se tivesse sido confrontada com perguntas duras, Marina seria obrigada a descer do andor para o palanque e não teria vencido o debate da forma consagradora como venceu. Aliás, o único derrotado no debate foi o Pastor Everaldo: preocupado demais em se mostrar liberal, ele perdeu a oportunidade de marcar presença como autêntico conservador.

Mas o pastor fica para outro artigo. O foco agora é Marina Silva. Aécio Neves poderia ter demonstrado que Marina não representa uma “nova política”, pois até meados de 2009 pertencia ao PT e era ministra de Lula. Ou seja, o escândalo do mensalão, que eclodiu em maio de 2005, não foi suficiente para levar Marina a abandonar o PT. Ela continuou no partido mesmo depois que o Ministério Público Federal, em agosto de 2006, ofereceu denúncia contra 40 réus do mensalão, muitos deles petistas históricos, como a trinca José Dirceu, José Genoino e Delúbio Soares.

A denúncia do Ministério Pú­bli­co foi acolhida pela Justiça e, em a­gosto de 2007, o Supremo Tribunal Federal (STF) iniciou o julgamento do caso. Até ministros nomeados pelo presidente Lula – alguns deles petistas históricos, como Ayres Brito – reconheceram a existência do mensalão, considerado um dos mais graves casos de corrupção do País, senão o mais grave. Ainda assim, Marina continuou no PT e no governo Lula, como uma espécie de Imaculada Conceição da política, prenhe de ideal e de ética. Só deixou o partido quando percebeu que não teria chance de ser candidata a presidente da República e decidiu buscar uma sigla que lhe desse palanque.

Escolheu o Partido Verde (PV), que a recebeu com festa num sofisticado buffet de São Paulo, em 30 de agosto de 2009, sem imaginar que sua nova estrela trazia um projeto de poder em que PV não passava de uma escada descartável. Obviamente, não foi isso o que transpareceu no discurso inaugural de Marina. “Não venho mais com a ilusão dos partidos perfeitos que acalentei durante a minha juventude, mas venho com a certeza de que homens e mulheres de bem podem aperfeiçoar as instituições, e de que as instituições também aperfeiçoam homens e mulheres de bem”, afirmou.

Nos 35 minutos de seu discurso de estreia no PV, Marina elencou alguns líderes que, segundo ela, foram marcantes em sua formação: “Minha geração ajudou a redemocratizar o país porque tínhamos mantenedores de utopia. Gente como Chico Mendes, Florestan Fernandes, Paulo Freire, Luiz Inácio Lula da Silva, Fernando Henrique Cardoso que sustentava nossos sonhos e servia de referência. Agora, aos 51 anos, quero fazer o que eles fizeram por mim. Quero ser mantenedora de utopias e mobilizar pessoas”. Hoje, aos 56 anos e candidata a presidente por força do acaso, Marina Silva volta a se apresentar como uma espécie de síntese e “upgrade” de Lula e FHC.

O problema do Brasil é a falta de elite

Senador Aécio Neves: o candidato tucano errou ao não atacar sua principal adversária em debate na TV

Senador Aécio Neves: o candidato tucano errou ao não atacar sua principal adversária em debate na TV

No debate da Band, coube ao nanico Levy Fidelix (PRTB) lembrar que Marina é apoiada por Guilherme Leal, fundador da Natura, e Maria Alice Setúbal, herdeira do Banco Itaú. Marina, no momento mais brilhante de todo o debate, respondeu de forma impecável à pergunta sobre os bilionários que a apoiam: “Em primeiro lugar, eu não tenho preconceito contra a condição econômica e social de quem quer que seja”. E, depois de corrigir Fidelix que chamara o dono da Natura de “Guilherme Vilela”, Marina fez uma defesa do empresário, afirmando que Guilherme Leal dedica a vida em prol do desenvolvimento sustentável. Marina também defendeu sua amizade com Maria Alice Setúbal, a “Neca Setúbal”, garantindo que sua afinidade e parceria com a herdeira do Itaú se dá no campo da educação, na qual “Neca” milita há 30 anos.

Enfim, Marina Silva desenvolveu uma concepção de elite que me parece inédita na política brasileira: “Quero combater claramente essa visão de apartar o Brasil, com essa ideia de que nós temos que combater as elites. O problema do Brasil não é a sua elite, é a falta de elite. A elite não é aquela que tem dinheiro. O Guilherme Leal faz parte da elite, mas o Davi Yanomami também. A Neca pode fazer parte da elite, mas também o Chico Mendes fazia parte da elite. Essa visão tacanha de que a gente tem que ficar combatendo as pessoas com rótulos, é isso que a gente tem de combater e ter a tranquilidade de fazer o debate envolvendo ideias, envolvendo as diferentes pessoas, empresários, trabalhadores, juventude, empreendedores sociais. É assim que eu quero governar o Brasil, unindo o Brasil, não apartando o Brasil, com pessoas de bem de todos os setores. Pessoas honestas e competentes temos em todos os lugares, e é com elas que eu vou governar”.

“O problema do Brasil não é a sua elite, é a falta de elite.” Não só assino embaixo, como escrevo isso há anos. Mas, levando em conta que Marina passou a maior parte de sua vida política no PT, e o PT é por excelência o partido do conflito social, é possível que sua correta visão de elite não passe de retórica. Mesmo assim, é uma visão essencial para o debate e, se for aprofundada, pode representar um divisor de águas na política brasileira, libertando a mentalidade nacional do arranca-rabo entre ricos e pobres, excluídos e incluídos, que a esquerda promove, com grande sucesso, desde a redemocratização do País. O próprio ensino brasileiro, da pré-escola à pós-graduação, fundamenta-se nessa visão equivocada de elite, como sinônimo de opressão.

Marina pode se tornar o Lula de xale

Lula da Silva: membro da elite desde os tempos das greves do ABC Paulista e líder predileto do general Golbery

Lula da Silva: membro da elite desde os tempos das greves do ABC Paulista e líder predileto do general Golbery

A estigmatização da elite como portadora do Mal em oposição aos excluídos como portadores do Bem fez com que Lula – mesmo depois de se tornar um homem rico e poderoso, apoiado pelos tubarões da economia – continuasse posando de vítima das elites, por sinal, com muito sucesso, tanto que conseguiu se reeleger e ainda elegeu Dilma. E os tucanos, a seu modo, corroboram essa visão de Lula. O próprio Fernando Henrique Cardoso, de certo modo, refere-se a Lula como o eterno operário, uma espécie de antípoda dele mesmo, o intelectual FHC.

Os tucanos não reconhecem em Lula o membro da elite que ele sempre foi desde os tempos das greves do ABC Paulista, que fizeram dele o líder metalúrgico predileto do general Golbery do Couto e Silva. Fernando Henrique Cardoso, Marilena Chauí e outros intelectuais uspianos foram decisivos para dar a Lula essa eterna menoridade moral que o líder petista pediu ao Diabo. Foi a partir desse misto de preconceito e condescendência das elites, incapazes de tratar Lula como um dos seus, que o líder petista conquistou o salvo-conduto decisivo para não sucumbir na crise do mensalão.

Quando Marina Silva afirma que líderes populares como Chico Mendes também pertencem à elite, ela, de certo modo, está anunciando uma “nova política”, em que os líderes dos excluídos já não serão chamados apenas para exercer o inocente papel de vítimas – com todos os direitos e sem nenhum dever, como ocorre hoje na Era Petista – e, sim, para arcar com as responsabilidades inerentes à elite à qual pertencem. Essa concepção de elite, diga-se de passagem, é a que sempre defendi desde a adolescência, ainda que de modo latente, sem a consciência crítica que a leitura de Vilfredo Pareto, Gaetano Mosca e, sobretudo, Ortega y Gasset me proporcionou depois.

Em 2006, contrariando a tese predominante entre os críticos do PT, sustentei que Lula não foi reeleito pelos grotões do Nor­des­te, mas, sim, pelos grotões da USP – que foram decisivos na sustentação do mito Lula em meio aos escândalos que o cercavam. A hegemônica esquerda universitária não reconhece valores individuais, mas somente categorias coletivas: o rico nasce com o Pe­cado Original do capitalismo; o po­bre, com a pureza do Bom Sel­vagem. Consequentemente, os lí­deres dos excluídos, como Lula, não podem ser responsabilizados por nada: o mal é monopólio dos ricos. A candidata do PSB inverte essa fórmula com seu próprio exemplo – ao invés de se vangloriar do analfabetismo de berço (co­mo Lula faz até hoje em suas mi­lionárias palestras internacionais), Marina, vencendo as dificuldades com muito esforço, aprendeu a ler aos 16 anos e, hoje, cita Guimarães Rosa em seus discursos.

Sob esse aspecto, Marina é o antídoto de Lula. Mas ela pode se tornar o Lula de xale se as elites brasileiras continuarem a tratá-la como santa imaculada que não comete pecado. Corroída pelo remorso de sua má consciência, essa elite intelectual e econômica está dando a Marina o mesmo salvo-conduto que deu a Lula. E Marina – contrariando sua trajetória de vida exemplar – poderá se acostumar com isso e trair a si mesma. Até porque sua visão de elite, apesar de inovadora para a política brasileira, tem um grave defeito – não incorpora a noção de mérito individual, que exige não só compensar os melhores, como também punir os piores – algo que Marina jamais fará na educação e na segurança pública, por exemplo. É que Marina Silva ainda carrega um PT dentro de si – e tanto seus aliados quanto seus adversários se uniram para deixá-lo incólume.

 

2 respostas para “Antídoto de Lula, Marina carrega o PT dentro de si”

  1. Avatar Manoel disse:

    Poderá ser eleita pelos grotões da Av. Paulista

  2. Avatar márcio costa rodrigues disse:

    Eu poderia até concordar com você, mas aí eu pergunto: qual a melhor alternativa entre as apresentadas? FHC e o seu PSDB, assim como o Iris em Goiás, já se esgotaram, como demonstrou a eleição de 2002 (até eu votei no Lula, nunca isto tinha me acontecido e nem voltou a acontecer). FHC e PSDB só magnata quer a volta, por motivos óbvios, trabalhar pouco, curtir a vida e ficar rico em cima do trabalho dos outros. Lula deu continuidade a política FHC e deu umas bolsinhas de m… pra dopar o povo e aprofundar mais as benesses dessa elite vagabunda que lhe financia a campanha.
    Voto Marina. Apresentem uma opção melhor que eu voto. Como alguém vai mandar em mim, prefiro que seja ela. Os outros eu já conheço, não tenho dinheiro pra pagar matéria na mídia pra me defender quando eu me f… simplesmente por querer trabalhar.
    Por acaso, vocês já viram quanto vagabundo que é candidato nestas eleições. Tente discutir com eles (sem um marketeiro orientando), são patéticos assim como suas campanhas, que na verdade refletem seu conteúdo.

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