A arte de gerenciar um “condomínio de condomínios”

Integrar 20 municípios em um sentido de consenso, colaboração e cooperação é o grande desafio da Grande Goiânia para os próximos anos

Secretário Vilmar Rocha, da Secima, conversa com o prefeito Iris Rezende sobre questões da região metropolitana: peemedebista pode liderar consenso

Elder Dias

Dizem os mais velhos, não sem demonstrar orgulho, que nos velhos tempos da vida na roça só dois itens básicos eram necessariamente comprados: sal e querosene. Tudo o mais poderia ser produzido na fazenda, a estrutura mais característica da zona rural. Mesmo ainda hoje, esse modelo permanece: o proprietário das terras tem sua casa, ao redor dela algumas benfeitorias necessárias à sobrevivência – pomar, horta, paiol, curral, galinheiro, estábulo etc. – e, geralmente um pouco mais distante, ficam as habitações de seus trabalhadores permanentes, os peões. Essa espécie de “planta funcional” é complementada com pastagens e lavouras, além de um bom manancial (córrego ou rio), o que garante que cada unidade possa ser praticamente autossustentável.

Por esse parâmetro, pode-se pelo menos ter uma noção de que a escolha de onde viver é também uma sentença de como viver. Quem deixa a roupa na lavanderia, ferve seu miojo e chama um Uber pelo aplicativo do celular talvez seja incapaz de entender que um dia foi possível “fabricar” em casa tudo o que era necessário para comer, vestir ou se locomover.

A vida na cidade é, por essência, colaborativa. O professor precisa do pedreiro, que vai até o padeiro, que pede socorro ao mecânico, que é paciente do médico. A convivência e a interdependência intramuros, desde que as pessoas se juntaram nos burgos, em algum momento do fim da idade média, têm como efeitos colaterais o incômodo mútuo: é o barulho da serralheria fazendo coro com o choro do bebê nos ouvidos de um terceiro vizinho. A cidade, na verdade, é um grande condomínio.

A metáfora é evocada pelo arquiteto e urbanista Marcelo Safadi, em meio à conversa sobre a região metropolitana de Goiânia. É a manhã da quarta-feira, dia 1º de fevereiro, e estamos em sua sala, no Palácio Pedro Ludovico Teixeira, para uma conversa ampla sobre o desafio de trazer harmonia a um condomínio de condomínios: a metrópole, o espaço onde a única certeza que se pode ter é a iminência do caos. Trabalhar para conciliar interesses e alcançar a cooperação entre cidades que se apertam umas com as outras é a missão do superintendente executivo de Assuntos Metropolitanos, cargo que Safadi ocupa e motivo de ele estar naquela sala desde que foi convidado, por seu perfil técnico, pelo secretário estadual de Meio Ambiente, Recursos Hídricos, Infraestrutura, Cidades e Assuntos Metropolitanos (Secima), Vilmar Rocha (PSD).

Por mais estranho que possa parecer, apenas nos últimos dois anos o Brasil começou a planejar de fato e de direito o futuro de suas metrópoles. É que o forte discurso municipalista da Constituição de 1988 fez com que até 2015 não houvesse um mecanismo legal para conciliar os interesses das cidades integrantes de aglomerados urbanos. Se por um lado a autonomia era uma vitória, o preço dela vinha amargo quando se viu necessário que cada cidade resolvesse sozinha problemas como destinação dos resíduos sólidos, saneamento, zoneamento e plano de drenagem, entre outros. Somente com o Estatuto da Metrópole, instituído pela Lei nº 13.089, sancionada por Dilma Rousseff (PT) em 12 de janeiro de 2015, tornou-se compulsória a participação dos municípios nas questões metropolitanas. Ou seja, uma medida aprovada na Assembleia Legislativa passa a vigorar para todos os envolvidos, independentemente do que as câmaras de vereadores e os prefeitos apontarem.

Marcelo Safadi, superintendente de Assuntos Metropolitanos da Secima: “Nossa concepção de sistema de transporte é moderna e revolucionária”

Dessa forma, é que ele pretende atrair os 20 municípios da Grande Goiânia para fechar metas em comum, nas mais diversas áreas, como a do transporte (veja matéria correlata). Para tanto, houve um encontro importante entre o titular da Secima e o prefeito de Goiânia. Marcelo Safadi esteve lá e se animou: “A gente não pode ter medo de debater o que tem de ser feito. Por isso, eu ‘pirei’ nesse encontro de Iris Rezende (PMDB) com Vilmar Rocha, dois políticos tradicionais que se mostraram dispostos a bancar desgastes para o desafio de mudar o paradigma da região metropolitana”.

Em busca do consenso em torno de uma governança federativa, a fase agora é de percorrer todos os municípios. Serão 20 oficinas para abrir os debates e fazer diagnósticos. Um objetivo é tirar a ideia formada de que seja “natural” a população dos demais municípios convergir para Goiânia em busca de solução de demandas. Como? Estabelecendo novas centralidades, a partir de outros municípios que sejam polo para seus vizinhos – como, por exemplo, Inhumas e Bela Vista. “É um conceito particular que tenho, que precisa ser validado pelo conjunto de prefeitos, capitaneado por Iris”. Marcelo Safadi se mostra realmente animado em ter o veterano peemedebista como parceiro para aparar as possíveis arestas e desacordos da “reunião de condomínio” metropolitano.

A ideia é não impor nenhuma agenda. “Vamos apresentar os projetos e contar com nossos técnicos e os de cada município para ajudar no convencimento. Mas cada prefeitura terá respeitada sua autonomia para aderir ou não à proposta.” Para algumas questões, porém, basta que os gestores deixem diferenças políticas de lado e ajam sem populismo. “É o caso do sistema interligado de matrículas, que a Secretaria Estadual de Educação (Seduc) pode se comprometer a repassar, facilitando com que um aluno possa estudar em uma escola de uma cidade vizinha, mas que esteja mais próxima de sua residência do que outra no próprio município. A mesma racionalidade pode servir para o manejo dos resíduos sólidos, que podem ser coletados em regime de consórcio por municípios pequenos, para garantir escala.

Convencer e conscientizar os líderes do condomínio da Grande Goiânia parece ser uma tarefa complicada. Mas Marcelo Safadi se recorda de décadas atrás, quando, por meio de seu ativismo no grupo Nativa, ajudou a reformular o pensamento do turista do Rio Araguaia, que passou a entender melhor a problemática do lixo naquele ambiente tão privilegiado. Deu certo. E é a mesma esperança que o leva agora à nova missão: juntar os anseios de 20 cidades em uma mistura só e tirar disso um resultado positivo para todos.

Tarifa diferenciada no transporte pode ser um passo adiante para a região metropolitana

Tarifa única no transporte metropolitano pode ser causa de perda de passageiros em pequenas distâncias

Marcelo Safadi considera o sistema de transporte público como “o grande patrimônio da região metropolitana de Goiânia”. Para ele, esse sistema é a grande conquista, o grande trunfo que o “condomínio de condomínios” resguardou. Mas como bancar uma afirmação assim, diante do dia a dia de reclamações e do alto grau de insatisfação dos usuários dos ônibus? É simples: é preciso separar o “sistema” do transporte” com sua qualidade, que precisa ser melhorada.

O superintendente dá seu testemunho: “A forma com que nosso sistema foi concebido é moderna, é revolucionária. A gente passa inveja em todo mundo. Em todos os lugares onde eu fui e apresentei nosso modelo as pessoas dizem: ‘Como assim, um sistema de cobrança, uma tarifa única, um só cartão? Então eu tomo um ônibus aqui e não preciso de dois passes ou dois cartões?’ Então temos nisso um grande avanço, sim”, argumenta.

Há cerca de dez dias, a capa do jornal “O Popular” destacou o fim da tarifa única (hoje de R$ 3,70) no transporte metropolitano, concluindo com uma arte sobre uma foto de um ônibus em que cujo itinerário estava escrito “Destino: aumento da passagem”. Safadi elogia a construção da reportagem e do infográfico que foram usados na matéria interna, mas lamenta o foco dado na primeira página. Diz, mostrando o jornal: “Aqui diz ‘Empresas querem o fim [da tarifa única]’. Não é isso. ‘Empresas querem tarifa diferenciada – essa proposta pode reduzir o valor para 70% dos usuários’. Essa seria a manchete”, enfatiza.

Mas a tarifa única – podendo um usuário ir de Trindade a Senador Canedo, ou de Nerópolis a Hidrolândia, percorrendo mais de 50 quilômetros com um bilhete de R$ 3,70 – não é uma conquista para quem anda de ônibus? Marcelo Safadi traz alguns questionamentos. “A demanda social de 10 ou 12 anos atrás é muito diferente da atual”. Para ele, o modelo mais conveniente para o atual momento é a vinculação do valor da passagem à quilometragem rodada. “Eu moro no Setor Oeste, a três paradas de ônibus aqui da Praça Cívica. Para fazer isso, tenho de pagar R$ 3,70. Com esse valor, eu venho de carro, pois gasto menos e tenho mais conforto.” Dessa forma é que o sistema de transporte perdeu, nos últimos anos, em torno de 15% do movimento de usuários. Motivo óbvio: eles trocaram o ônibus pelo veículo próprio – o que é exatamente o inverso do que deveria ocorrer em uma cidade polo de uma região metropolitana.

O tema tarifa diferenciada pode ser posto na mesa, mas ainda não há nada definido. Mas Marcelo Safadi diz que a medida pode ajudar na economia dos municípios menores. O motivo é que o valor barato para se deslocar para a capital enfraquece neles o comércio e o setor de serviços. Em entrevista ao Jornal Opção (edição 2162) no fim do ano passado, o prefeito de Nerópolis, Gil Tavares (PRB), que acabara de ser eleito, admitiu o problema: “A pessoa paga R$ 3,70 para entrar no ônibus, às vezes, para andar um quilômetro e meio para comprar no comércio local na cidade. Assim, ela prefere vir direto para Goiânia, o que centraliza o comércio na capital, pois o valor da passagem é o mesmo.” Um efeito colateral da tarifa única.

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