Sob o peso das expectativas, o Brasil pós-Lava Jato pode se mostrar ainda pior que o atual

Se operação liderada por Sergio Moro, alimentada pela impaciência popular, gerar o vácuo político que se desenha, País poderá ser regido por novo ciclo de centralismo e enfraquecimento institucional

Deslegitimação da política pela população é o que mantém viva a Lava Jato. Será ela também a levar esta operação a cometer os mesmos erros da Mãos Limpas? | Foto: Marcello Casal Jr – Agência Brasil

A prisão de uma pessoa ligada ao serviço público desencadeia uma grande operação que, ao final de três anos, investigaria centenas de políticos e grandes empresários do país, levando dezenas deles à prisão e reformulando o cenário político nacional. Tudo começa quando o preso começa a confessar seus crimes e a indicar, por meio de delação premiada, aqueles que também participaram do esquema de corrupção.

Ele revela a cobrança de propina em cada contrato celebrado pela instituição que administrava por indicação política e a utilização desse dinheiro para financiar as ambições políticas de seu partido. Essa “colaboração”, premiada com a soltura do confesso, gera um círculo virtuoso, que leva a novas investigações, outras prisões e confissões.

O leitor pode perguntar: como uma pessoa milionária e central para um esquema de corrupção que movimenta bilhões entrega seus parceiros? A resposta está justamente na estratégia adotada pelos investigadores, que pressionam o suspeito a tomar uma decisão quanto a confessar e ser solto ou a ficar calado e permanecer na prisão.

A essa ação inicial soma-se o isolamento do suspeito e a disseminação de informações sobre uma corrente de confissões, afinal, para um prisioneiro, a confissão acaba sendo a decisão mais conveniente quando outros acusados em potencial já o fizeram e, sobretudo, quando desconhece o conteúdo da confissão alheia.

À primeira vista, essa estratégia pode parecer demasiadamente maquiavélica, mas, na visão dos investigadores, uma vez permitida pelas leis nacionais, é lícita e moral, visto que crimes contra a administração pública são sempre cometidos às ocultas e, na maioria das vezes, com artifícios complexos, tornando quase impossível seu desnudamento sem a colaboração de ao menos um dos participantes.

Agora, se tratando de pessoas com vasta influência político-econômica no país, é de se esperar uma forte reação para conter o avanço das investigações, inclusive com ataques aos “abusos de autoridade” por parte das forças investigadoras. Como deter isso? A resposta principal é: conseguindo o apoio da população. Numa democracia, lembre-se, a pressão popular tem sempre um grande peso, e a melhor de alcançar isso é munindo as pessoas de informação.

Dessa forma, para desgosto dos principais suspeitos, a imprensa entra no jogo e passa a obter informações privilegiadas das investigações em curso. Como? Vazamentos. Por quem, não se sabe, mas o conteúdo das delações começa a ser fartamente divulgado e as pessoas passam a ser diariamente, e por um longo período, munidas de informações sobre um esquema de corrupção sem precedentes no país.

Silvio Berlusconi: era visto como o mais limpo entre os sujos. Na verdade, foi o que sobrou e isso não foi bom | Foto: Reprodução

A estratégia funciona, pois o constante fluxo de revelações mantém o interesse do público elevado e os investigados, políticos e empresários, na defensiva. Poderosos partidos políticos e grandes empresas, até então intocáveis, passam a precisar responder a acusações e a ter suas agendas definidas por outros.

Para piorar, cientes do grande esquema de corrupção, as pessoas começam a associar as ações dos investigados à crise econômica que começa a se abater sobre o país e a encarecer o custo de vida do cidadão, principalmente quando as delações levam ao entendimento de que a empresa petrolífera estatal foi usada por anos para financiar a corrupção política investigada.

A operação revela que a petrolífera estatal, uma das principais empresas nacionais, funcionou por muito tempo não apenas como uma fonte de financiamento ilegal de campanhas eleitorais, mas também como “banco” partidário, tendo efetuado pagamentos mensais aos principais partidos políticos durante anos.

A população entende o porquê do encarecimento do combustível, dos alimentos e de toda a cadeia econômica e, culpando a corrupção de seus políticos, tem reações imediatas: grandes protestos saem às ruas, deslegitimando a classe política do país e dando força ao Judiciário para continuar investigando e punindo os culpados. Tudo isso joga o sistema político em crise, tornando o futuro incerto.

O leitor que chegou até aqui pode ter a certeza de que esta re­por­tagem está falando da Ope­ração Lava Jato, iniciada em 2014 e tão comentada no dia a dia de qualquer brasileiro, mas, para sua surpresa, não: a operação descrita pelo texto é a Mãos Limpas, deflagrada na Itália no início dos anos 1990. Mais: toda a narrativa feita até aqui, embora tenha tido uma grande contribuição do repórter que assina o texto, foi retirada de um artigo escrito, em 2004, pelo juiz Sergio Moro.

Sergio Moro: tem feito seu trabalho, mas não é ele nenhum Messias. Não existe salvador da Pátria | Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/ Agência Brasil

Não existe coincidência, é claro, na similaridade entre as operações italiana e brasileira; o conhecimento de Moro sobre o mo­dus operandi da Mãos Limpas é essencial para entender a Lava Jato, pois esta claramente foi pensada tendo aquela como exemplo. Basta ver o seguinte o trecho do artigo de Moro e, este, cito na íntegra:

“A independência judiciária, in­terna e externa, a progressiva deslegitimação de um sistema político cor­rupto e a maior legitimação da magistratura em relação aos políticos profissionais foram, portanto, as condições que tornaram possível o círculo virtuoso gerado pela o­peração mani pulite [Mãos Limpas]”.

Por círculo virtuoso, Moro entende o desenrolar da operação, que culminou na prisão de vários políticos e empresários. Nesse sentido, se trocarmos “mani pulite” por “Lava Jato”, quem pode dizer que o trecho não terá o mesmo significado? Não são juízes, hoje, mais importantes que políticos no Brasil? Não foi Moro endeusado em vários cartazes de apoio pelo País? Isso mostra que Moro é um brilhante estrategista e um profissional competente e informado, pois estudou para estruturar a Lava Jato; existe muito pensamento por trás desta operação.

Uma das poucas diferenças entre a Mãos Limpas e a Lava Jato, até o momento, talvez seja o fato de que Betino Craxi, líder do Partido Socialista Italiano (PSI) e principal político do país naquele momento, teve sua corrupção provada pelos investigadores italianos, tanto que se autoexilou. No Brasil, o principal investigado, Lula, o “Craxi brasileiro”, ainda não foi pego e nem teve sua participação nos esquemas de corrupção comprovada (ao menos não concretamente), tanto que não foi preso e, de quebra, ainda fala como pré-candidato a presidente e, mais, aparecendo bem nas pesquisas.

A outra diferença, pode o leitor ressaltar, é que, ao contrário da Mãos Limpas, a Lava Jato ainda não acabou. Agora, a grande pergunta a ser respondida é: qual será o Brasil pós-Lava Jato? Sabemos qual foi a Itália pós-Mãos Limpas: a deslegitimação criou um vácuo político que foi preenchido pelo grande empresário da mídia local Silvio Berlusconi, mesmo que ele também estivesse envolvido em investigações por suspeita de corrupção. Era o mais limpo dos sujos, quando comparado com os outros? Era visto como tal.

Berlusconi se tornou o líder máximo da direita italiana e, ao longo de quase 20 anos, foi considerado o principal político e líder do país, mesmo sendo constantemente envolvido em polêmicas de corrupção, fora os escândalos sexuais. O resultado da Era Berlusconi foi uma administração desastrosa que jogou a Itália numa profunda crise econômica.

Esclarecidos os pontos, fica a pergunta: a Lava Jato, embora seja uma gêmea univitelina da Mãos Limpas, pode gerar consequências diferentes? A resposta, a priori, é sim, afinal ainda não subiu um Berlusconi à Presidência brasileira, mas para isso será necessário entender, primeiro, que a destruição total de qualquer sistema, e das pessoas nele envolvido, não leva a nada. Sem esse entendimento, a possibilidade de o País ter de lidar com um Berlusconi dos trópicos existe.

A questão é razoavelmente simples: limando aqueles políticos com reais condições de gerir o País, como Lula e Geraldo Al­ckmin, por exemplo, o que sobra? Lembre-se, leitor, de que ninguém (ressalte-se: ninguém) sobrevive na política, sobretudo a nacional (a política de São Paulo é praticamente nacional), sem acordos e estes sempre estarão no limite da moralidade e/ou da legislação.

Dessa forma, mesmo um político “novo” terá que se submeter ao jogo, sob a pena de não governar – vide Dilma Rousseff. Dilma, quando se insurgiu a Lula, seu real mantenedor político (pois era quem fazia os acordos necessários à governabilidade), se inviabilizou como governante. O resultado é conhecido.

Nesse cenário, entre os principais nomes largamente (entenda-se como aqueles na “boca do povo”) cotados hoje para a Presidência da República, podemos ter alguém igual ou pior que Dilma. Os discursos radicais de Ciro Gomes e Jair Bolsonaro, por exemplo, levam a esse entendimento: se levarem a cabo o que dizem, podem não conseguir governar; se não, correm o risco de trair o discurso e perder o apoio popular. João Doria, prefeito de São Paulo, é uma incógnita e Marina Silva… Bem, a líder da Rede é uma postulação da imprensa e dos analistas políticos e não do povo, que mal a conhece.

Diante disso, é preciso mo­derar a expectativa. O que se espera do Brasil pós-Lava Jato, é um País passado a limpo e isso não acontecerá. A Mãos Limpas foi de suma importância para a Itália como é a Lava Jato para o Brasil, porém, aquela cometeu um erro que evidentemente pode ser repetido por esta: a intenção de purificar um país. Foi esse desejo que tirou de cena os políticos ruins, o que é bom, mas que acabou levando os medianos e também os bons sem deixar nada no lugar.

Alberto Vannucci: operações podem prender alguns corruptos, mas não acabam com as raízes da corrupção | Foto: Reprodução

Vácuos de poder são perigosos e não devem ser desejados. Os últimos vácuos no Brasil geraram a ditadura militar e Fernando Collor de Mello. Algum brasileiro com o mínimo de consciência histórica há de querer o ressurgimento de algo do tipo? Duvido. Figuras que surgem para preencher vácuos são, de modo geral, centralizadoras e se colocam acima das instituições.

Ora, não é isso justamente o contrário do que querem os brasileiros hoje? Não vai isso contra o “Brasil que queremos”? Esse Brasil, o que queremos, depende de um trabalho mais complexo e demorado de formação de novas lideranças, que estejam mais ligadas aos novos ideais da população brasileira e isso não será, portanto, alcançado já na eleição de 2018, se é que a Lava Jato terá sido encerrada até lá.

Para esclarecer melhor a questão, veja o que disse Alberto Vannucci, um dos maiores estudiosos da Mãos Limpas, em entrevista à BBC Brasil: “A Mãos Limpas pode ser considerada uma conquista incrível em curto prazo, mas um fracasso em longo prazo. Em termos gerais, inquéritos judiciais, mesmo quando bem-sucedidos, podem colocar na cadeia alguns políticos, burocratas e empresários corruptos, mas não conseguem acabar com as causas enraizadas da corrupção”.

O processo de construção de um Brasil “novo”, aliás, um Brasil diferente não tem prazo para terminar e esse entendimento precisa ser absorvido por todos, ou hão de ser criados apenas corruptos mais sofisticados. Se o que se quer é combater a corrupção, há de se pensar e desenvolver um sistema que dela não dependa.

É preciso pressionar as elites (não se iluda, leitor, as decisões sempre partem da elite) para que elas compreendam isso de maneira clara, pois, como diz Vannucci, quando parte significativa da elite desenvolve a crença de que “a corrupção é a forma normal de fazer as coisas”, a prática da corrupção resiste a quaisquer investigações e escândalos.

O País está no caminho disso, mas todo processo de mudança cultural demanda tempo. Os brasileiros terão paciência para aguardar o término desse curso?

É necessário, volto a dizer, possibilitar o surgimento de novos líderes que substituam, aos poucos, os antigos. O Judiciário brasileiro, que está cumprindo bem o seu papel, embora possa ajudar, não tem o papel de construir algo para impedir o vácuo – o que quer o Judiciário é um país com instituições fortes e ativas, pois disso depende, verdadeiramente, a democracia. Esse papel cairia, então, sobre os ombros da im­prensa? Tomara que não, pois esta não constrói algo em substituição àquilo que ajuda, tão competentemente, a destruir.

Por último, a Lava Jato salvará o País? Moro, embora sua foto te­nha ido parar no perfil de Face­book de muitos brasileiros, não é Messias. Nenhum juiz é. Ninguém é. E uma operação que “passe o Brasil a limpo” não deve ser o ponto de chegada do País, mas o de partida. Não existe um salvador da pátria. Não é porque Ciro ou Bolsonaro ou Doria não estão nas listas de políticos corruptos que eles serão os grandes líderes da nação. Não os que se esperam, pelo menos; eles podem, ao contrário, serem Berlusconi (com o plural italiano terminado em “i”) em pele de Salvador.

Lembre-se, leitor: operações, por mais benéficas que sejam, só podem contribuir para uma seleção política e, não necessariamente, extirpa os políticos de pior moral, mas apenas aqueles que são pegos. E esses são, quase sempre, substituídos por outros igualmente corruptos (ou talvez mais), porém, capazes de sobreviver. Como relembra Vannucci, vide Berlusconi.

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