600 mil mortes por Covid no Brasil: se Bolsonaro é o culpado, o CFM foi seu braço técnico

Quando quem deveria dar as diretrizes para que a medicina se tornasse uma luz no meio do caos se torna cúmplice dele, o resultado é criminoso

Jair Bolsonaro e Mauro Ribeiro, do CFM: parceria responsável pela disseminação de desinformação, disfarçada de “autonomia médica” | Montagem sobre foto de Isac Nóbrega / PR

Sexta-feira, 8 de outubro de 2021. O Brasil chega a 600 mil registros oficiais de mortes por Covid-19. No mesmo dia em que o País alcançava mais essa horrenda marca em sua pandemia particular – caracterizada por, ao risco alto e natural de contágio pelo Sars-CoV-2, acrescentar uma overdose mortífera de perseverante negacionismo institucional –, era publicada, no jornal O Estado de S. Paulo, uma entrevista que entrará para os anais da história deste período trágico da Nação, na parte de Anexos Insanos.

O personagem daquelas páginas do Estadão era o presidente do Conselho Federal de Medicina (CFM), Mauro Luiz de Britto Ribeiro. Na quarta-feira, 6, ele havia sido incluído na lista de investigados na comissão parlamentar de inquérito (CPI) que apura a condução da pandemia no Brasil, pelo relator Renan Calheiros (MDB-AL), o que levou a imprensa a procurá-lo.

A “fama” do CFM ganhou literalmente alcance mundial no discurso de abertura da última Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), quando Jair Bolsonaro (sem partido) citou o alinhamento do governo com o conselho para apoiar “a autonomia do médico na busca do tratamento precoce, segundo recomendação do nosso CFM”. De fato, ainda que diga que a entidade nunca tenha apoiado o tratamento precoce, também nunca fez qualquer recomendação contrária, mesmo depois de praticamente todos os grandes organismos de saúde internacionais condenarem componentes do chamado “kit Covid” como a cloroquina e a ivermectina.

A proximidade do discurso de Ribeiro com o de Bolsonaro se efetivou em vários momentos durante a pandemia. Mas o primeiro encontro foi antes da Covid-19 surgir, em 4 de outubro de 2019, três dias depois do sul-mato-grossense tomar posse à frente do CFM, do qual havia sido vice-presidente nos cinco anos anteriores. Na época, a principal pauta era sobre a já antiga briga contra médicos formados fora do Brasil. Conseguiram do presidente o compromisso de manter o Revalida – exame para os portadores de diploma médico expedido no exterior – como documento para o exercício da profissão no País.

No início da pandemia, Mauro Ribeiro foi também o relator, no CFM, do documento que estabeleceu critérios para o uso da cloroquina em hospitais e também como tratamento ambulatorial, baseando seu parecer na autonomia profissional.

Algo que ele repetiu, por exemplo, em uma entrevista ao programa Pingo nos Is, da Jovem Pan, veículo conhecido por apoio irrestrito ao governo Bolsonaro, no início de junho. Diante da bancada composta por José Maria Trindade, Ana Paula Henkel, Guilherme Fiúza e Augusto Nunes – todos integrantes da tropa de choque bolsonarista na imprensa –, o presidente do CFM lamentou a politização “dos dois lados”. Refutou a não obrigatoriedade do uso de máscaras para pessoas já vacinadas ou que foram infectadas pelo coronavírus – pleito pretendido por Bolsonaro –, mas se posicionou contrariamente ao passaporte de imunização, sob o argumento de que a “liberdade individual deve ser preservada”. Mais: isentou o governo de culpa na pandemia e colocou com orgulho o número de, na época, mais de 17 milhões de curados da doença, embora muitos desses milhões estejam limitados fisicamente pelas sequelas ou pelo “Covid longo”, como está sendo chamada a persistência de sintomas por vários meses.

Na mesma entrevista, o que mais deixou em perplexidade quem não se guia pelas posições negacionistas foi Mauro Ribeiro dizer que não estava pacificada “a questão do tratamento precoce na literatura científica”. Era para justificar a autonomia de médicos em aplicar cloroquina e ivermectina, na conta de serem medicamentos seguros, mesmo que não comprovadamente efetivos contra a Covid-19.

Na entrevista ao Estadão, o roteiro de Mauro Ribeiro se manteve. Para novamente justificar o tratamento precoce, minimizou as várias pesquisas científicas que o descartaram (na verdade, que descartaram medicamentos como a ivermectina e a cloroquina), alegando que “a Covid é uma doença sobre a qual não sabemos nada” e que, por não existir tratamento, é possível usar medicações off-label (fora da bula).

Mauro Ribeiro diz que não há nada de político em seus argumentos e que o conselho se baseia na ciência mais do que qualquer outra entidade. No entanto, desde quando a pandemia escalava seus primeiros milhares de vítimas no País – a aprovação dos critérios para o uso da cloroquina se deu no dia em que o Brasil chegava a 3,3 mil mortes –, o presidente do CFM está dando suporte a uma bandeira política: desde o começo da tragédia sanitária, o bolsonarismo usou a cloroquina e o tratamento precoce como um todo para incentivar as pessoas a tocarem suas vidas normalmente. Se pegassem o vírus, bastaria tomar o kit, procurando um médico de sua confiança.

Para quem diz reverenciar a ciência, o presidente do CFM usou um outro ponto bastante apelativo na entrevista ao jornal paulista: disse que “metade da população brasileira, ou até mais, quer fazer o tratamento precoce”. Cientificamente falando, não se sabe de onde o médico Mauro Ribeiro tirou tal estatística.

Mais do que isso, quando dá esse tipo de declaração em um dos maiores veículos da mídia nacional, ele confirma que, pelo menos, deveria estar, como está, na lista dos investigados da CPI da Pandemia. Ou seja, Renan Calheiros fez o certo em colocar as ações do CFM sob suspeita, porque é um órgão-chave para o desenrolar das políticas sanitárias, por oficialmente orientar os médicos.

De forma culposa ou dolosa, o fato é que a consequência da coordenação entre governo e CFM – como representante dos médicos – foi nefasta. Enquanto grande parte da mídia, políticos não bolsonaristas, professores, pesquisadores e diversos profissionais da saúde puxavam a corda para o lado da ciência, pedindo cuidados com o distanciamento, firmeza no uso de máscaras e adesão total à vacinação, o governo federal negligenciava campanhas de conscientização, menosprezava a proteção facial, incentivava e praticava aglomerações, investia verba pública na fabricação de hidroxicloroquina e fazia propaganda do tratamento precoce com o kit Covid. Na dianteira de tudo isso, Bolsonaro. Sua retaguarda era o corporativismo enviesado do CFM.

SUS e profissionais da saúde
A pandemia só não foi pior no Brasil por conta de dois fatores, principalmente: a estrutura do Sistema Nacional de Saúde (SUS), que, embora sucateado desde sempre, tem uma capilaridade que sempre facilitou a distribuição de equipamentos, remédios, insumos e, mais recentemente, no caso da Covid-19, as vacinas. É uma estrutura elogiada mundialmente, com direito a espanto de governantes de nações desenvolvidas em relação a como um país continental e com tanta desigualdade social consegue fazer funcionar essa engrenagem.

O outro fator foi o empenho dos profissionais de saúde, tendo à frente das equipes médicas e médicos obstinados a dar o máximo de si para salvar vidas em meio às incertezas de um vírus desconhecido. Juntamente com enfermeiras, técnicos, fisioterapeutas, psicólogos, gente da faxina e da segurança, eles se expuseram, mais do que quaisquer outros e desde o início, a algo misterioso.

É bom lembrar que foi um médico, o oftalmologista chinês Li Wenliang, quem deu o alerta de que havia algo de diferente naqueles doentes que recebia no fim de 2019, em Wuhan. Usou as redes socais para se comunicar com colegas sobre algo que parecia ser um novo vírus, semelhante ao da síndrome respiratória aguda grave (Sars). A polícia do regime autoritário de seu pais o “orientou” a parar com os “comentários falsos” e ele acabou investigado por “espalhar boatos”.

A China logo teria de admitir que era berço de uma doença. O jovem Wenliang, de 33 anos, morreria em fevereiro de 2020, deixando uma viúva grávida. Em reconhecimento ao que ele havia feito, no mês seguinte a sua morte, o governo de Pequim e as autoridades locais pediram desculpas à família e Li Wenliang foi considerado então um herói nacional.

Ao contrário do autoritário governo chinês, que, no entanto, fez reverência a Wenliang e mudou rapidamente suas ações no sentido de estancar a proliferação do vírus, no Brasil de 600 mil mortes, o presidente brasileiro fez exatamente o contrário: indicou placebos e atrasou a compra de vacinas; criticou o isolamento e provocou aglomerações; louvou a liberdade de ir e vir e desdenhou o uso de máscaras.

Parte de todo o horror que vem acontecendo há quase 20 meses, tempo em que a mortandade da doença matou brasileiros muito acima da média mundial, tem o Conselho Federal de Medicina como braço técnico do governo federal. Por isso, foi insuspeita a referência de Bolsonaro em seu absurdo discurso na ONU. Quem está do lado de toda a política negacionista que sai da boca do presidente não pode ser menos do que cúmplice.

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