Heloisa Helena de Campos Borges

Sim, eu sei. Inúmeras palavras são de entendimento complicado. Seja pela sonoridade, seja pelo amplo conjunto de sutilezas que o seu sentido abriga. Ou, ainda, pelos seus muitos lados de existir. E palavras que têm muitos lados são embaraçosas, pois intrincadas de emoções. 

A palavra saudade tem essa natureza. Foi por isso que eu me debrucei sobre alguns dos tantos sentimentos que nela pulsam e confirmei a vastidão do seu sentir, que pode ser leve, pesado, apaixonado, melancólico ou bem humorado.  

Sua capacidade de armazenar diversificadas sensações deve-se à tessitura interna que a sustenta. E, diga-se confidencialmente, essa tessitura não é lá muito firme, pois não entende o que é ponto final, não assimila a significância da palavra ‘acabou’, jamais se conscientiza de que fatos vividos pertencem ao passado e, sabe Deus, quantas vezes, faz sofrer por sonhar um futuro que nunca mais seria.  

Tudo isso porque o trançado íntimo da saudade é atemporal, além de ligado com tanto engenho aos sentidos, que sempre oferece as mais diferentes maneiras para qualquer um sentir novamente até as mais longínquas emoções.   

 Daí existir saudade de cheiros, de sabores, de gestos, de lugares, de pessoas, aportada pela memória afetiva, que tanto pode fazer dela saudade suave, macia, luminosa, quanto doída, penosa, latejante, a ponto, muitos dizem, de matar.       

A respeito de mortes por saudade, eu fui atraída para essa questão, pequena ainda, na casa dos meus avós, quando, pela primeira vez, ouvi uma canção que terminava com esta sofrida indagação: ‘Ai, ai! me diga se saudade mata, se saudade mata que eu já estou com medo.’ 

Fiquei a pensar. Ainda criança, firmou-se em mim a surpresa. Mais tarde, a dúvida. E, agora, a opinião certeira de que é possível, sim, morrer de saudade. Entretanto, se lembranças causam sofrimento, elas proporcionam também grande prazer de revivê-las ou alívio de se perceber delas distanciado. Muita estranheza nisso tudo, porém é assim. 

Então, pelas virtudes e defeitos apresentados, está claro que saudade é  sentimento cheio de asas, mas, também, de pedras. E por ser assim, pedregoso e alado, tem poder de devolver vivências, de preencher vazios, de alimentar sonhos, contudo é capaz de ferir mortalmente. Poderosa, saudade pode ser alento ou veneno. Então, é bom ter cuidado!      

Dizem que a palavra saudade existe apenas na língua portuguesa, mas tem gente que não acredita. Explico. Isso é até certo ponto vangloriado, porque o nosso é o único idioma que reúne, em uma só palavra, toda a gama de sentimentos que a saudade abriga. Nas outras línguas, por não possuírem uma palavra específica, tenta-se aproximar do significado explicando sensações, como: falta, tristeza, afastamento e outras mais.  

Foi por essa razão que Mário Palmério, enquanto embaixador no Paraguai, para que todos compreendessem, compôs uma bela canção, definindo saudade como solidão, melancolia, nostalgia, recordação. 

Mas algumas perguntas há muito me acompanham: saudade seria a falta do que já passou? Ou seria extremada abundância de recordações? Seria ausência? Presença insistente? É presente passado em um futuro imaginado? É dor? É prazer? Ou seria tudo enlaçado pelo destempero do tempo que não sabe passar sem voltar?

Bem, como foi dito no início, eis aqui um sentimento com muitos lados de existir. Sentimentos assim, com muitos lados, embaraçosos e intrincados de emoções, têm muitas entradas e muitas saídas. Então, acho melhor deixar cada qual com a sua saudade.

Heloísa Helena de Campos Borges – Acadêmica da AFLAG

2ª titular

Cadeira: 30

Heloisa Helena  é natural de Goiânia (GO). Licenciada em Letras Modernas – Francês pela UFG (1970), é mestre em Letras e Linguística, com dissertação sobre o romance em Goiás. Realizou aperfeiçoamentos na França e no Canadá e recebeu a comenda Chevalier dans l’Ordre des Palmes Académiques (1998). Professora, tradutora, poetisa e crítica literária, atuou como coordenadora de curso, presidiu a Aliança Francesa em Goiás e integra a União Brasileira dos Escritores. Possui trabalhos publicados em revistas e jornais, além de verbete em dicionários literários. Entre suas obras destacam-se Quinquilharias (1997) e Muitas luas (2003).

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