A Polícia Civil de Goiás acredita que o número de vítimas de uma advogada presa suspeita de desviar dinheiro de clientes pode ser maior do que o já identificado pela investigação. Até o momento, 17 pessoas denunciaram prejuízos que somam cerca de R$ 650 mil, mas a corporação espera que novos casos apareçam após a divulgação da prisão.

A investigada, identificada como Rina Campbell Pena, foi presa na quarta-feira, 22, em um resort de luxo no norte da Bahia, durante operação da Polícia Civil de Goiás com apoio das forças de segurança baianas. Nesta quinta-feira, 23, policiais também cumpriram mandado de busca e apreensão no escritório da advogada, em Goiânia.

Em entrevista ao Jornal Opção, o delegado Douglas Pedrosa, responsável pelo caso, afirmou que a investigação ganhou força após o registro de diversas ocorrências semelhantes. “A advogada não compareceu para prestar esclarecimentos. Nós reunimos as ocorrências e chegamos a 17 vítimas. Levamos esse conjunto de provas ao Poder Judiciário, que deferiu as medidas”, explicou.

Segundo ele, a polícia não descarta que o esquema tenha atingido um número ainda maior de pessoas. “Possivelmente há mais vítimas.”

Clientes chegavam por indicação

Um dos aspectos que mais chamou a atenção dos investigadores foi a facilidade com que a suspeita conquistava a confiança dos clientes.

De acordo com Douglas Pedrosa, a investigada atuava há anos na advocacia e era conhecida no mercado, o que fazia com que novos clientes fossem indicados por pessoas que já haviam contratado seus serviços.

“Normalmente era por indicação. Era uma advogada experiente, com bastante tempo de mercado, e um cliente acabava indicando o outro.”

As investigações apontam que ela oferecia serviços para revisão de contratos de financiamento imobiliário e dizia que negociaria diretamente com bancos e imobiliárias para reduzir parcelas ou quitar dívidas.

Após convencer os clientes, orientava que os pagamentos fossem feitos diretamente em sua conta bancária, sob a justificativa de que realizaria os acordos em nome deles. Segundo a Polícia Civil, os valores acabavam sendo apropriados pela investigada.

Prisão na Bahia

A prisão ocorreu depois que investigadores descobriram que a advogada estava hospedada em um resort de luxo no norte da Bahia.

Segundo o delegado, a localização foi identificada por equipes da Polícia Civil de Goiás, que acionaram as autoridades baianas para cumprir o mandado de prisão.

“Nós descobrimos que ela estava no norte da Bahia. Nossos investigadores levantaram a localização e entramos em contato com a Polícia Civil da Bahia, que realizou a prisão e a encaminhou para a unidade policial.”

Questionado se o padrão de vida da investigada poderia ter sido financiado com o dinheiro das vítimas, o delegado evitou fazer essa relação e afirmou que a investigação ainda está em andamento.

Polícia não vê participação de outras pessoas

Até o momento, a Polícia Civil afirma que não encontrou elementos que indiquem a participação de outros envolvidos no esquema.

“Aos olhos da Polícia Civil, até o momento, não há mais pessoas envolvidas. As investigações continuam e esperamos concluí-las dentro do prazo legal.”

Apesar disso, novas diligências continuam sendo realizadas para verificar a movimentação financeira da investigada e identificar outras possíveis vítimas.

Como evitar golpes

O delegado também fez um alerta para quem pretende contratar um advogado e explicou que a confiança na relação entre cliente e profissional não dispensa o acompanhamento do processo.

Segundo ele, uma forma simples de evitar fraudes é solicitar a senha de acesso ao processo judicial e acompanhar regularmente a movimentação.

“Quando o cliente contrata um advogado, ele assina uma procuração e concede poderes ao profissional. Mas é importante pedir a senha de acesso ao processo e acompanhá-lo semanalmente. Se houver retirada de valores ou algum acordo, o cliente precisa ser informado.”

Douglas Pedrosa orienta ainda que qualquer movimentação financeira suspeita seja comunicada imediatamente às autoridades.

Com a repercussão da prisão, a Polícia Civil espera que outras possíveis vítimas procurem a delegacia para registrar ocorrência. A expectativa é que o prejuízo ultrapasse os R$ 650 mil já contabilizados, ampliando a dimensão do suposto esquema de fraude.

O Jornal Opção não conseguiu localizar a defesa da advogada.

Em nota ao Jornal Opção, a Ordem dos Advogados do Brasil – Seção Goiás (OAB-GO), por meio do Sistema de Defesa das Prerrogativas (SDP), informou que acompanhou a Operação Causa Própria nos dias 22 e 23 de julho, que envolve uma advogada.

A entidade esclareceu que apura todas as infrações que chegam ao seu conhecimento, adotando as medidas cabíveis para preservar a dignidade da advocacia, sempre com respeito ao amplo direito de defesa e ao contraditório.

A OAB-GO afirmou ainda que o acompanhamento tem como objetivo resguardar as prerrogativas profissionais e fiscalizar o cumprimento dos preceitos éticos da advocacia. Por fim, ressaltou que não comenta eventuais prisões ou condenações de advogados inscritos na instituição.