“ZUT”: uma aventura da linguagem

Wilmar Silva, sob o pseudônimo de Djami Sezostre, experimenta múltiplas possibilidades de artesanato literário

Wilmar Silva se valeu do pseudônimo de Djami Sezostre para, em “ZUT”, explorar todos os meandros da linguagem | Foto: Arquivo pessoal

Aidenor Aires
Especial para o Jornal Opção

Há muito tempo venho acompanhando a a­ven­­tura poética de Wilmar Silva (ou Dja­mi Sezostre). Para ler a poesia de Sezostre não se pode olhar parado, a partir de um ponto no alto, embaixo ou dentro. Seu (não-) verbo instaura uma cena de signos multívocos, onde se amassam, se entranham, sem cercas ou horizontes.

Nada que aprisiona, tudo que liberta. Em seu trabalho de estranheza singular, uma torrente que captura a totalidade dos sentidos, sem conter em cada um deles sua plenitude comunicativa. Em “ZUT” (Belo Horizonte: Crivo Editorial, 2016) o poeta exorciza o discurso, a dicção e segue construindo (destruindo) o que sempre foi belo e consentido.

Seu campo de exercício é o processo genético da linguagem. Inconformado com as limitações expressivas das palavras com sua carga de sentidos com/sentidos, ousa em desafios à ordem e à semântica. Recria seu próprio silabário, vocabulário, fremente e instável, aventurando-se num mergulho até aos embriões da linguagem.

Ao fragmentar o sacro edifício das palavras, talvez busque o momento primordial do silêncio, dos grunhidos, dos uivos e esgares. Visita a primitiva sintaxe de silêncio, onde dormitavam os signos primais dos gestos, dos gungunados, dos silvados, dos sons emitidos com dor, alegria e espanto, aprisionados em bocas rudes.

Sob este aspecto, seu texto é pura ousadia de formas quebradas e convoca o leitor de percepção plural a juntar fragmentos, amealhar possibilidades múltiplas de significações, participando do artesanato libertário que manipula descobertas verbais, interfaces idiomáticas, oferece sugestivos jogos e cativa os sentidos do leitor em vertiginosa viagem fractal.

Muitas abordagens se poderiam armar num só edifício armazenado em seu grafismo poético. Ultrapassa a semântica unívoca ou meramente metafórica para inventar espaços, deslizamentos e ambiguidades de oráculo. “ZUT” não é somente um campo de exercício dramático e lúcido do poeta. É uma dádiva à consciência criativa do leitor/mi­rador/ouvinte/tátil e saboreante.

A abordagem do texto que, em dado momento, pode se denominar leitura, não admite passividade. Todos os sentidos, mais a imaginação e a inteligência, são cativos para extrair sentidos, conferir significados, abandonando tudo o que sabia da poesia e da linguagem. Há momentos em que se quer ser criança e jubilar-se com sons inaugurais, gozar as primeiras sílabas no prazer de executar o inocente instrumento da fala.

Não se pode ler “ZUT” para conhecer um poeta e sua linguagem. Aqui tudo é inaugural, é desafiante e múltiplo. Infinitos poetas rabiscam papiros, tábuas e écrans enquanto Djami Sezostre entrega sua missiva impessoal dirigida a uma geografia ainda por descobrir-se.

Se o leitor pode atravessar a treda floresta da linguagem escrita, precisará de renovadas ferramentas para divisar o lado vertiginoso de sua performance corporal, onde Sezostre se entrega ao gestual, ao clamor cardíaco, à simiologia eloquente, à voz que entoa extreme as fronteiras entre o canto e a fala, entre o silêncio e o vagido.

Na leitura sonora dos poemas, Sezostre canta orfeônico, gregoriano e mântrico. Seguir sua arquitetura linguística nos aproxima de tantas vocalizações caras, felizes ou doloridas do ser humano. Difícil é comentar um aspecto em separado desse poeta múltiplo. A possibilidade compreensiva de seu trabalho só pode ser defrontada em sua complexa atuação de performer original.

Seu texto/contexto não invoca apenas a dimensão da linguagem perceptível, nem sua humanidade inclusa, palpitante. É preciso acolher sua construção imagética, onde o poeta se dá em vocabulário carnal, o corpo e a alma, capaz de pertencer panteisticamente a um universo de árvores feridas, bichos sofridos, terra e água.

Areias, galhos e animais se misturam a uma herança de memória do chão, da casa, da família. A arte de Sezostre cresce em sua expressão multitudinária. Tudo que digo, nesta breve e simples abordagem, nada diz dele. Talvez todas as tentativas de recepção acabem por ser uma traição. O expectador tem sempre a última palavra, sua liberdade de conhecer e sentir. Estou certo de que “ZUT” reúne o mais alto acervo de sua invenção. Destaca-se como desenho original na poesia brasileira, ecoando diferente das mais descoladas experiências da linguagem.

Embora dono de tão ampla linguagem, de tão inusitados recursos, de tão pungente clamor por comunicação e encontro, de uma certa forma é uma voz que clama na multidão e no deserto e, com certeza, segue cantando, indiferente e completo, como fala e canta, aos homens e ao mundo, poesia.

Aidenor Aires é poeta.

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