Yusra Mardini: a refugiada síria que nadou para salvar sua vida e disputou as Olimpíadas

Livro, que ainda não foi lançado no Brasil, conta a história de superação da jovem nadadora que fugiu da guerra em seu país

Yusra Mardini durante aquecimento nas Olimpíadas do Rio de Janeiro | Foto: Reprodução/Instagram @mardiniysra

Yusra Mardini nasceu para nadar. Em seu livro, que ainda não foi lançado no Brasil, ela ressalta logo na primeira frase que aprendeu a nadar antes mesmo de andar. E isso foi essencial para que a garota que cresceu nos arredores de Damasco, capital da Síria, pudesse salvar a sua vida e de outras pessoas depois que o bote em que estavam estragou em alto mar.

“Butterfly — From Refugee to Olympain, My Story of Rescue, Hope and Triumph” (MacMillan, 284 páginas), que, em tradução livre, significa “Borboleta — De Refugiada a Atleta Olímpica, Minha História de Resgate, Esperança e Triunfo”, conta a trajetória inspiradora de Yusra Mardini, que servirá de base para um filme do diretor britânico Stephen Daldry, desde a sua infância até as Olimpíadas do Rio de Janeiro, em 2016, quando ela disputou a competição pelo Time Olímpico de Refugiados.

A jovem nadadora, hoje aos 20 anos, cresceu no subúrbio de Daraya, localizado ao sudoeste da capital síria. Vale pesquisar na internet imagens do local, que era controlado pela oposição ao governo de Bashar al-Assad e sofreu fortes bombardeiros ao longo do conflito.

Muçulmana, Yusra Mardini conta que seus pais nunca foram muito rigorosos com a prática da religião com ela e sua irmã mais velha, Sara, mas que as ensinaram as regras do islamismo desde cedo. “Eles nos ensinam que um bom muçulmano mostra respeito. Respeito pelos mais velhos, pelas mulheres, pelas pessoas de outras culturas e religiões”, diz trecho do livro.

Em outras palavras, totalmente diferentes daqueles que, em nome da religião — mas, obviamente, sem representar todos os seus seguidores — destruíram a Síria, como o autoproclamado Estado Islâmico e o Hayat Tahrir al-Sham, o braço da al-Qaeda naquele país. Ambos os grupos terroristas seguem a ideologia wahhabita do islamismo sunita, difundida mundo afora pela Arábia Saudita, que apoia a derrubada do governo sírio.

Yusra Mardini destaca, ainda, que um bom muçulmano deve demonstrar respeito por sua mãe e seu pai. “Especialmente se ele também é o seu treinador.” Ezzat, seu pai, nadou pela Siria em competições durante a adolescência e, mais tarde, se tornou treinador, mas ele não foi o principal responsável por sua filha ter se transformado em uma nadadora profissional. Ela tomou esta decisão após assistir à vitória do estadunidense Michael Phelps nos 100 metros borboleta nas Olimpíadas de Atenas, na Grécia, em 2004.

Aos 12, a garota começou a representar seu país em torneios, inclusive no exterior. Mas foi em Latakia, cidade localizada na costa noroeste da Síria, que ela sentiu, pela primeira vez, a diferença entre nadar em uma piscina e no mar, onde foi realizada aquela competição. “A água é misteriosa e profunda. Não há bordas nem chance de descansar”, relata.

A guerra, que se iniciou em 2011, atrapalhou os treinos de Yusra Mardini. Ela chegou a ficar sem nadar por um longo período, mas voltou tempos depois. A gota d’água foi quando uma bomba atingiu a piscina em que treinava em 2015. Naquele momento, a jovem decidiu deixar a Síria para poder seguir sua vida em paz.

Fuga para a Alemanha

Junto com sua e irmã e outros parentes, Yusra Mardini foi de avião de Damasco para Istambul, na Turquia — que não exige vistos para sírios —, com conexão em Beirute, no Líbano. Àquela época, a fuga do país pelo ar ainda era possível ser feita com certa segurança, mas, com o passar do tempo e o agravamento da guerra, a saída por terra passou a ser a opção mais viável.

O plano era chegar até a Alemanha. Para isso, havia duas alternativas a partir da Turquia: por terra, passando pela Bulgária, ou por mar até a Grécia. A primeira era mais barata que a segunda, mas as histórias que se ouvia sobre os perigos da fronteira búlgara davam mais medo.

Foto: Reprodução

Da costa turca, um grupo de aproximadamente 20 pessoas, contando com Yusra Mardini e sua irmã, embarcaram rumo às ilhas gregas em um bote com padrões muito longe do luxo dos tradicionais cruzeiros da região. Quinze minutos depois da partida, já em alto mar, o motor parou de funcionar.

As irmãs, as únicas que sabiam nadar do grupo — Sara também chegou a ter uma carreira de nadadora, mas desistiu após sofrer uma grave lesão no ombro —, desceram do bote, amarraram cordas ao punho e o empurraram por cerca de três horas e meia até a ilha de Lesbos. Todos sobreviveram.

Da Grécia, Yusra Mardini passou por Macedônia, Sérvia, Hungria e Áustria antes de pôr os pés na Alemanha. O percurso por estes países não foi como o do mar, mas também houve problemas. Na Hungria, por exemplo, a nadadora foi presa pelas autoridades — o governo do primeiro-ministro húngaro, o nacionalista Viktor Orbán, é um dos mais duros com refugiados.

Na Alemanha, as irmãs Mardini foram bem-recebidas — diferentemente de Viktor Orbán, a chanceler alemã, Angela Merkel, tem uma postura mais amigável em relação àqueles que estão fugindo de guerras em seus países de origem.

Em Berlim, as duas se instalaram em um campo de refugiados até encontrarem o Wasserfreunde Spandau 04, um clube que lhes ofereceu residência e onde Yusra Mardini pôde voltar a treinar. O restante da família chegou alguns meses depois.

Olimpíadas

Em uma das primeiras conversas com Sven, seu novo treinador — que logo se tornou um de seus melhores amigos, ajudando-a, inclusive, com questões burocráticas sobre o status de refugiada e sua permanência na Alemanha —, a nadadora foi enfática ao afirmar que seu objetivo era disputar as Olimpíadas algum dia.

Yusra Mardini ficou muito tempo sem treinamento, perdeu um pouco da forma física e viu seu desempenho na piscina ficar bem abaixo do que era anteriormente — teve que treinar, no início, com pessoas três anos mais novas. Sven, então, disse que, para o Rio de Janeiro, a missão era impossível, e elaborou uma rotina de treinos mirando os jogos de Tóquio, em 2020.

O treinador viu um discurso do presidente do Comitê Olímpico Internacional (COI), Thomas Bach, anunciando apoio a atletas refugiados e enviou um e-mail ao COI, que respondeu estar disposto a ajudar a nadadora síria.

O COI, na verdade, já estava planejando criar o Time Olímpico de Refugiados (ROT, na sigla em inglês). O que antes era impossível virou realidade. Yusra Mardini foi uma das convidadas a integrar a equipe e acabou se transformando na principal estrela a partir do momento em que o mundo conheceu a sua história no mar.

Inicialmente, ela não gostou da ideia de ir ao Jogos Olímpicos simplesmente por ser uma refugiada — queria chegar lá com base nos seus resultados na piscina. No fundo, a palavra “refugiado” não lhe agradava. Mas sua cabeça mudou. Hoje, Yusra Mardini aceita a condição e diz que ser refugiado não é uma escolha. “Nossa escolha é morrer ou arriscar a vida tentando fugir.”

No Rio, a nadadora disputou as provas de 100 metros livre e 100 metros borboleta. Na segunda, venceu sua bateria com o tempo de 1:09:21 e terminou na 41ª posição entre 52 participantes. O resultado, no entanto, é o que menos importa. Como diria Sven, o importante é a mensagem que Yusra Mardini passou — e ainda passa.

Yusra Mardini ao lado do ex-presidente dos Estados Unidos Barack Obama | Foto: Pete Souza/Obama Presidential Library

A refugiada síria virou um exemplo a ser seguido por jovens de seus país. Atualmente, é embaixadora da Boa Vontade do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur), já foi convidada para discursar no Fórum Econômico Mundial e se encontrou com líderes mundiais, como o ex-presidente dos Estados Unidos Barack Obama e o Papa Francisco.

O COI confirmou que haverá novamente o Time Olímpico de Refugiados nas Olimpíadas de Tóquio. Yusra Mardini, que recentemente trocou Berlim por Hamburgo, está treinando duro para a competição e promete ter um desempenho melhor, além, é claro, de renovar a imagem de esperança para o mundo.

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