Youthquake e o estado de lego da língua inglesa

Palavra do ano 2017, segundo o “Dicionário Oxford”, nos faz apreciar a natureza reflexiva do idioma de Shakespeare e sua capacidade sintética

Todo final de ano, o mundo inteiro começa a fazer um balanço sobre todas as coisas, desde economia e política, passando pelos resultados esportivos, produções culturais, até chegar a algo básico na articulação do pensamento e da ação: a palavra.

Nessa época, dicionaristas, editores, jor­nalistas e intelectuais se comunicam, trocam ideias e não chegam a lugar algum. Quer dizer, cria-se nesse embate uma miríade de possibilidades, inclusive o esforço de se descobrir a palavra do ano.

Em 2017, muitas palavras foram jogadas no balaio da novidade, entraram no hall da importância léxica, como tantas outras já tinham por si dedos percorridos sobre teclas, ou saído da boca de muita gente nas datas anteriores para pipocar, pular como pepitas avulsas no portal do novo calendário, e depois encaixarem-se na normalidade dos dias.

No Brasil, essa tradição da palavra mais importante não é tão popular quanto o é na apreciação de cada staff dos dicionários em inglês. A desimportância por aqui é tanta que uma das palavras eleitas na mídia tupiniquim foi “fake news”, que, primeiro, não é uma palavra, segundo, não é português.

O jornalista e escritor Sérgio Rodrigues, colunista da “Folha de S. Paulo”, lançou a palavra “retrocesso” como sendo a mais importante em 2017 na língua portuguesa. Fez isso em um fundo de análise sociopolítica, em função do lamentável estado de coisas que andaram para trás no país. Acho que acertou.

Mas é no inglês que tudo cintila nessas ocasiões. Dos EUA e da Inglaterra é que surgem as palavras mais interessantes no corpo linguístico, e particular, da própria língua inglesa, evidentemente. Em 2017, cada dicionário elegeu a sua, cada qual com sua graça, como “feminism” (feminismo – Dicioná­rio Merriam-Webster), “populism” (populismo – Cambridge), “complicit” (cumplicidade [neologismo] – Dictio­nary.com, um dos mais usados na web). As duas últimas passam pela esfera íntima de Donald Trump, e a primeira o confronta.

Abalo sísmico

De todas apontadas como palavras do ano, o neologismo “youthquake” (pelo Dicionário Oxford) é a mais genial. Poderia ter sido criada na década de 1960. E foi. Seu registro data de 1965, “cunhada pela in­dús­tria da moda”, segundo Louis Me­nand, na revista “The New Yorker”.
Mas poderia ter nascido da impetuosidade dos movimentos estudantis daquela época, que culminaram na revolução dos costumes de maio de 1968. Aliás, o maior cabo eleitoral do vocábulo foi o atual líder do Partido Trabalhista britânico Jeremy Corbyn, 68 anos. Ele, portanto, advogou em causa própria, já que era jovem quando a palavra nasceu.

“Youthquake” demonstra o maravilhoso estado de lego que é a língua inglesa, pela capacidade sintética de juntar uma palavra noutra (uma palavra noutra, não um prefixo numa palavra, ou um prefixo num sufixo) e criar uma novidade vocabular.

Sua escolha pelo Oxford foi por estar ligada ao “ganho social, político e cultural significante a partir das ações ou influência das pessoas jovens”. “Youthquake” quer dizer, em tradução literal, “tremor causado pela juventude”.

O interessante disso é que “quake” (tremor) já traz um caminhão de significados por sua junção com “earth” para formar a palavra “ter­remoto” (earthquake). “Youth­quake”, portanto, é uma espécie de abalo sísmico do comportamento dos jovens no terreno social, chacoalhando as estruturas, demolindo velhos conceitos, pondo abaixo as edificações do passado que os incomodam.

Fazem isso sem colocar nada sólido no lugar, obviamente. O chão semântico da sociedade é destroçado para então, só depois do furor, virem os próprios jovens reconstruindo tudo com novas perspectivas. Por enquanto, parece que estamos no epicentro do “youthquake”.

A natureza sintética da língua oportuniza a criatividade textual

Capa do disco de Stevie Wonder, produzido pela Motown em 1969: Com sua voz, no seio da canção entre o pop e o R&B, o texto poético se reforça

O inglês é uma língua interessante para os jogos verbais. Sua natureza sintética oportuniza a criatividade textual. Com a simples junção de uma palavra com outra, criam-se significados fresquinhos. Em 1969, por exemplo, Stevie Wonder fez muito sucesso com a música “Yester-Me, Yester-You, Yesterday”, de Ron Miller e Bryan Wells.

Os compositores pegaram a palavra “yester”, adjetivo arcaico que significa “de ontem”, que já nem aparece nos dicionários mais recentes, só conjugada com a palavra “yesterday” (“dia de on­tem”, ou simplesmente “ontem”) e com a já arcaica “yesteryear” (ano passado). Daí, “yester-me”, “yester-you”, numa sensível sacada poética em que os Miller e Wells jogam o sujeito poético e seu objeto de afeto no passado por meio da língua-tempo.

Com isso, eles criaram uma sensação dramática e nostálgica de um tem­po que já passou. É como se cada vez que eu falasse de mim e você, o tempo nos jogasse no passado, com o amor, os sonhos (yester-love, yester-dreams), com tudo. O mundo sendo outro. Com a voz de Stevie Wonder, no seio da canção entre o pop e o R&B, o texto poético se reforça.

Em inglês há dezenas de palavrinhas assim, já criadas – e uma possibilidade quase infinita de novas criações –, como “joyride”, “hour­glass”, “cowboy”, “Ox­ford”, “hashtag”. Todas elas têm uma história de jugo. A última, a pro­pósito, viu seu símbolo # se tornar o sinal do ano, por tudo que foi escrito nas redes sociais impulsionado por ele.

O significado de “hashtag” é mais complicado de traduzir do que a própria “youthquake”, e a tentativa de fazê-lo pode causar mais danos. Imagine “tag” como um “caminhão” arrastando uma tralha carregada de coisas (hash – “badulaque”) pelas ruas, pelas infovias. Mas “hash” também é picadinho, e “tag” também são caracteres ou etiqueta.

Essa bagunça sonora-verbal se agita na língua (inglesa) como samba em que sambam todos que sabem sambar. Muitas letras de rap são inacessíveis ao espírito estrangeiro por causa dessa sensação de montagem o tempo inteiro. (GGP)

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