“Westworld” não deixará órfãos os fãs de Game of Thrones

Baseada na obra de mesmo nome de Michael Crichton, a nova série da HBO vai muito além do realismo fantástico e reúne nomes como Ed Harris, Anthony Hopkins e Rodrigo Santoro

Entre o real e o virtual, a obra suscita a velha questão: será que estamos hoje tão longe assim desse mundo apresentado pelo seriado? | Foto: Divulgação

Entre o real e o virtual, a obra suscita a velha questão: será que estamos hoje tão longe assim desse mundo apresentado pelo seriado? | Foto: Divulgação

Everaldo Leite
Especial para o Jornal Opção

“Westworld”, a nova série do HBO, não foi levada ao ar em hora errada. Como se poderia imaginar, ela chega para segurar a mão de quem já começa a se despedir de Game of Thrones ou de quem já se angustiava com a possibilidade de um vácuo delongado. Passa, então, suavemente o bastão e a responsabilidade por cativar seguidores. De fato, é uma estratégia do canal que poderá se mostrar bem-sucedida num mercado tão vasto, fragmentado e competitivo.

Primeiramente, ao retomar o texto e o filme de Michael Cri­ch­ton, um escritor de grande popularidade, não se aventura em experiências incertas; depois, por ter em seu elenco nomes importantes do cinema, como Ed Harris, Anthony Hopkins, Evan Rachel Wood, Rodrigo Santoro, Jeffrey Wright e, entre outros, James Marsden, deverá aumentar significativamente a garantia de público.

Desde o primeiro episódio, sua intrigante narrativa choca pelo realismo brutal e seduz pela possibilidade de um dia tal realismo não ser mais apenas uma ficção. A ideia em si é antiga: como será uma sociedade com robôs. Ainda mais: como seria isto a partir dos interesses de uma única empresa que, não obstante, ou se aproveita de uma ética negligente ou de uma época que aceita a ciência e suas aplicações sem nenhuma reserva. Clonagem humana, manipulação e conservações de embriões, produção de órgãos para transplante? Não, o parque de Westworld vende a quem pode sexo, estupro e violência contra androides.

Em “Jurassic Park” (1993), Crichton questionava a validade de trazer de volta à vida e explorar economicamente animais que a própria natureza extinguiu há milhões de anos. Na nova série, estamos no limiar da condição humana, numa existência entre o tecnológico e o patético.

“Conse­guimos escapar da prisão evolutiva, não é? Nós podemos curar qualquer doença, manter até o mais fraco de nós vivo e, um belo dia, talvez até ressuscitaremos os mortos, invocaremos Lázaro da sepultura dele. Sabe o que isso significa? Que estamos acabados. Que isto é o fim da linha”, afirma cético o personagem de Anthony Hopkins.

O roteiro combina o desejo latente dos autômatos, servos da programação digital (ciclos narrativos), em se libertar daquilo que poderíamos chamar analogamente de “caverna de Platão” à motivada necessidade de humanos ricos em participar da mesma fábula, exibindo o pior e o melhor de dois mundos. Todavia, o enredo não se detém na simplicidade do realismo fantástico, o contexto inquietante se equipara mais ao da Matrix, ou melhor, à uma Matrix inversa, onde as máquinas é que experimentariam “mil vezes” suas vidas abjetas pré-programadas, até serem descartadas definitivamente pelos seus criadores. O que está em jogo é saber qual será o incremento insuportável de ilusão para os robôs e para os homens.
Não por acaso a recorrência da pergunta “você sabe qual é a natureza da sua realidade?” delineia a importância na série em se questionar quem está em pior situação existencial, se o homem ou a máquina que arremeda a humanidade. Quem sabe, em algum episódio, alguém irá parafrasear Mor­pheus (“Matrix”, 1999), dirigindo-se ironicamente a um dos seres artificiais, “se você está falando sobre o que você pode sentir, o que você pode cheirar, o que você pode saborear e ver, o real são simplesmente sinais elétricos interpretados pelo seu chip central”. Ao humano, aliás, uma das máquinas alertou nervosamente: “Você não sabe onde está, não é? Você está na prisão dos próprios pecados”.

Impressiona ver o campo racional sucumbir aos erros humanos de programação, propositais ou não, tornando os robôs tão confusos quanto os mais vaidosos humanos acerca do que realmente são. A empresa que gere o parque é racional e competentíssima na produção de um conjunto de coisas que dão vida e história para o lugar, mas não entende corretamente a “consciência” que insiste em nascer a partir dos inesperados elos de cognição das máquinas e entre elas. É evidente que por trás disso ainda se apresentará um deus que deseja ver suas criaturas ex­pandindo seu potencial. “Tudo nesse mun­do é mágica, exceto pa­ra o mágico”, afirma um personagem.

Poder não morrer, poder estuprar, poder matar ou espancar alguém, tudo isto parece fazer bem ao indivíduo que busca Westworld. Uma vida mais simples, anterior ao mecanismo industrial da vida moderna, também parece ser algo desejado. Entretanto, o homem ali, se busca o nobre aventureiro perdido em seu passado histórico, encontra em si mesmo somente a barbárie mais selvagem. A empresa não se importa com os exageros, dá “carta-branca” a maníacos que sorriem do sofrimento e da morte. Conta-se com a amoralidade, resiliência e passividade dos seus produtos. Estes, por sua vez, a partir da dureza impressa em seu “DNA” digital, desviam-se na primeira oportunidade em busca de algo que lhes é muito caro: conhecimento.

“Esses prazeres violentos têm finais violentos”, avisa espontaneamente um dos robôs. Seja do angustiado ponto de vista dos androides, em “Blade Runner” (1982), ou da perspectiva reprimida dos símios do “Planeta dos Macacos” (1968), a verdade inexorável é a de que algo bom não pode derivar de algo péssimo. A ética humana que tenha restado num traço mnêmico qualquer é embutida inconscientemente no autômato, que faz suas próprias associações cognitivas mediante as experiências que vivenciou desde sua criação. Passam, então, a dar valor aos atos, definindo, como nós, o que é bom e o que é ruim, o que é o bem e o que é o mal. É possível que Westworld supere Ava, de “Ex Machina” (2015), evoluindo os robôs em instinto, racionalidade e moral, a depender das intenções ainda ocultas do deus criador. Ou tudo deverá terminar em guerra?

Enfim, a velha pergunta sempre vem: será que estamos hoje tão longe assim desse mundo apresentado pelo seriado? O salto do virtual para o real é a grande aposta de “Westworld”, sendo uma “evolução” esperada efetivamente por muitos, desde os fanáticos em games aos alucinados por sites de pornografia, mas especialmente por aqueles que já estão representados na série como sendo os convidados preferenciais do parque. Não falta quem queira se afundar nas obscuridades da caverna, não falta quem queira fugir da natureza de sua realidade. Eviden­temente, a série não retrata uma utopia reversa (distopia), mas uma realidade mais próxima de nós do que as utopias santificadas do passado.

Veja abaixo o trailer do seriado.

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