Vozes pretas: Aretha Franklin, Nina Simone, Miss Dominique, Alcione, Elza Soares e outras…

Grite mais alto, Elza Soares. Que o seu grito agudo incomode aqueles que ainda acham que a carne negra é desprezível

Roberta Flack

Luciano Alberto de Castro

A voz preta tem algo do divino, do intangível. Eu suspeito que, para criá-las, Deus tirava uma tarde livre, escolhia o lugar mais inspirador do Éden e punha-se a esculpir a voz das cantoras negras. Dos cantores negros também, por certo. Mas a voz feminina trazia dois itens especiais: o amor transbordante da mulher e sensibilidade maternal. E assim, o criador trabalhava. Ia moldando e burilando aquela argila celestial puríssima até surgirem as peças fonéticas magistrais. Depois, escolhia-lhes o idioma. Com a obra pronta, Deus proclamava: “Ide, vozes pretas, ide e encantai o mundo em todas as línguas”. Não sou apenas eu quem acredita na afeição de Deus pela palavra cantada: Tagore dizia “Deus me respeita quando eu trabalho. Mas me ama quando eu canto”.

Olhemos ao redor. Apuremos nossos ouvidos e reconheçamos essas deidades vocálicas espalhadas pelo planeta. Elas estão em toda a parte. As vozes negras famosas, é fácil encontrá-las no Spotify. Como eu já disse, o idioma é o que menos importa: todas foram elaboradas com a mesma substância fundamental, todas vieram do mesmo barro estelar. Se me permite, atencioso leitor, quero lhe sugerir algumas degustações musicais que talvez o convençam sobre a sublimidade da voz negra feminina.

Primeiro em inglês, onde existem dezenas delas. Vou prescrever-lhes algumas (aprecie-as sem moderação). Escute Roberta Flack sussurrando “Killing me softly with his song“. Sinta a pungência e a exatidão de Aretha Franklin em “I say a little prayer” (não tem jeito, eu não consigo falar da senhora Aretha Louise Franklin sem me emocionar).

Beyoncé, a Vênus de Houston, existe para nos provar que o talento negro não tem idade. Ouça Beyoncé com os olhos fechados, pois a explosão de beleza em movimento pode ofuscar a maestria vocal da moça. O belíssimo dueto “Perfect” é uma oportunidade para percebermos o contraste entre a voz branca de Ed Sheeran (linda) e a voz negra de Beyoncé (linda, plena e magnificente).

Eu já me encantara com Nina Simone gastando o seu francês em “Ne Me Quitte Pas”, mas quando descobri Miss Dominique e seu inacreditável french soul, achei que aprender francês era uma necessidade. De Dominique, recomendo “Quand Tu Seras Prêt” pelo menos 3 vezes ao dia.

Não tem nada em português não, seu cronista? Tem sim, senhor, e em dois sotaques. Saboreie a nossa Alcione em dose dupla: “Sufoco” e “Você me vira a cabeça”, complemente a terapia com a cabo-verdiana Cesária Évora cantando “Sodade”.  Aliás, saudade e solidão são temas tristes e bonitos em qualquer dialeto.

A peruana Eva Ayllón nos mostra o quanto isso é verdade cantando “Hola Soledad” O timbre quente de Eva é capaz de deixar a língua espanhola ainda mais substanciosa. Qualquer que seja a linguagem, a voz preta enleva e acaricia os ouvidos.

No entanto, não é justo se deleitar com a voz negra que canta e se esquecer da voz negra que chora, que grita, que morre. Seria demasiada abstração. Há mistérios gozosos e mistérios dolorosos. Todos os dias, em todas as partes do mundo, vozes pretas gemem enquanto seus corpos pretos são açoitados, pisados, espancados, sufocados e mortos.

Seu Jorge escreveu e Elza Soares cantou: “A carne mais barata do mercado é a carne negra”. Grite mais alto, Elza. Que o seu grito agudo incomode aqueles que ainda acham que a carne negra é desprezível. Tomara que, algum dia, a voz preta apenas fale, sussurre ou cante e não mais chore, grite ou implore por justiça, equidade e paz.

Luciano Alberto de Castro, professor adjunto da Faculdade de Odontologia da Universidade Federal de Goiás (UFG), é escritor. É colaborador do Jornal Opção.

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