Elson de Souza Ribeiro

Era uma tarde quente e seca de setembro. Ele veio em minha direção, se apresentou com pompas e circunstâncias, destacando o seu Currículo Lattes. “Sou Finório Dado, professor doutor da Universidade Federal de Goiás.” Disse que tinha adquirido a chácara ao lado. Em seguida, me perguntou se a topografia da área era algo que os vizinhos laterais dividiam o custo. Expliquei a ele que o único serviço que os vizinhos de cerca dividem os gastos era a própria cerca.

Chamei o ilustrado para a sombra da varanda. Ofereci-lhe banana maçã africana, ele aceitou e perguntou se podia pegar mais uma.  “Sou amigo da professora Preta, ela também é da música.” Depois de eu ter feito a linha de simpático, demonstrei que precisava continuar meu trabalho. Se despediu, depois de ter pedido mais bananas.  “Que bom! Obrigado vizinho!”, enunciou.

Uma vez por semana, o desajeitado professor, com sua enxada cega, brigava com a braquiária e o chão seco. Aguentava no máximo uns trinta minutos. Dei algumas dicas, que ele não absorvia. Insisti que o movimento da enxada deve ser semelhante ao do instrumento musical, tem que ter leveza, ritmo e harmonia.

As primeiras chuvas de outubro trouxeram esperança de um cerrado úmido. Com o passar das semanas, a paisagem se modificava rapidamente, as plantas indesejáveis aumentavam de tamanho sem trégua. No entanto, Finório continuava a sua capina no mesmo ritmo, sendo quase devorado pelo capim colonião e braquiária. “Acho que vou bater veneno.” Pedi em nome de Javé que nem pensasse nisso. Afinal, cadê o homem racional da Universidade? Além do mais, a nossa água é de poço artesiano. “O que sugere, vizinho?” Mencionei a necessidade de contratar alguém bom de braço para o serviço, pois em breve a chuva não iria dar pausa.

Depois de muito chororô, o mão-de-vaca concordou em pagar três diárias para o Sr. Moa. O capinador combinou um valor de três dias, embora tenha conseguido concluir em apenas dois. Foi difícil o professor Finório Dado entender que o Sr. Moa combinou uma empreita e não as duas diárias. Com o passar do tempo, Dado acabou ficando à vontade na minha varanda. Ele não recusava nada que lhe era oferecido. Era visita constante aos sábados, ria de suas próprias piadas, de suas bebedeiras e fazia questão de mostrar as fotos de suas viagens pelo mundo. Numa ocasião, ele disse que eu conquistei a posição de amigo e, certamente, iríamos ser bons vizinhos.

Na estação do abacate, ele comia aquele fruto esverdeado com entusiasmo, enquanto fazia uma oração estranha. Depois, como era costumeiro, me pedia para levar alguns. Fez a segunda oração, só faltava a da noite. Pegou o kipá, colocou na sua cabeça e foi embora. Ainda gritei para que ele deixasse alguns abacates para a professora, mas recebi a sua negativa. No sábado seguinte, lá estava Finório se esbaldando na minha varanda com queijo fresco de Nova Veneza e uma goiabada cascão de Minas, acompanhado de café gourmet. Enquanto comia, ria e batia no meu ombro, como todo chato faz. Depois de ter dado vários passos em direção ao seu veículo, retornou e me disse que a gratidão é um aspecto básico da vida, tanto em relação às pessoas, quanto a D’us. Fez a recitação da Bênção de Graças ali mesmo e saiu.

Pintura de Edward Hopper

Um ano depois, aproveitei a intimidade, que é a desgraça das relações humanas, e lhe propus fazer um plantio em seu terreno.  Inicialmente milho e, posteriormente, feijão orgânico. Eu só faria uma exigência: que ele mantivesse a terra capinada até que todo o terreno tivesse recebido as sementes. Depois que as sementes tivessem enterradas nas covas, aí ele ficaria livre desta responsabilidade. O professor arregalou os olhos judaicos e aceitou, sem hesitar.

Semeei a metade da sua propriedade, pois a outra parte Finório não providenciou a capina e o mato crescia em disparada, agraciado pelas chuvas de fevereiro.  Enviei uma mensagem de texto lhe cobrando o cumprimento da nossa combinação. Ele respondeu bem categórico que não ia pagar nenhuma diária a mais, no terreno, pois estava passando por apertos financeiros e que precisava dar uma segurada nos gastos. Argumentei que, mesmo se ele não tivesse feito esta combinação comigo, o lote teria que ser limpo, é uma exigência do Condomínio.

Reforcei que aquilo era exagero, pois ele não tinha tanto rigor em relação às suas viagens e bebedeiras. Tive que lembrá-lo que ele adquiriu uma área já cercada por todos os lados, sem gastar um tostão. Eu já tinha gasto muita energia, calcário e recursos no seu quintal. Ficava então cancelado o plantio. Fui dar uma volta no meu quintal e percebi como ele ficou abandonado nos últimos meses, enquanto eu dedicava minha atenção ao lote do vizinho de cerca. Escutei uma notificação no meu dispositivo móvel. Era uma mensagem de Finório Dado.

Dizia que estava chocado com a minha mensagem e com a liberdade que eu tomei em opinar sobre o seu rigor financeiro e que, além disso, não interessava, a mim e nem a ninguém, os seus gostos e gastos pessoais. O massacre continuava: “Olha, você passou dos limites”! Dizia que não entendia como uma pessoa, que nem amigo dele era, se achava no direito de falar tudo aquilo, estava aborrecido pelo que acabara de ler e esperava que aquilo nunca mais se repetisse.  Na cabeça lenta de Finório, quando propus plantar em seu lote, era eu que iria me responsabilizar por tudo, desde o início do plantio.

Demorei alguns minutos para digerir tudo aquilo. Enviei-lhe a última mensagem. “Ah, Finório Dado! Mesquinho, egoísta, folgado e pão duro. Doeu? Só faltou você ter escrito aquela célebre frase: ‘você sabe com quem está falando?’ Tu deverias ter a curiosidade em saber o significado de seu nome e sobrenome. Finório, você não entendeu a nossa combinação. Agora é tarde, estou com preguiça de explicar. Você deixou as piores impressões desde a primeira vez que vi sua cara de velhaco. O seu acesso de agora em diante, será negado.”

Bloqueado e cancelado com sucesso.

Elson de Souza Ribeiro é escritor.