“Vivemos a Era de Ouro dos quadrinhos em nosso país”, diz editor e membro do programa Pipoca e Nanquim

Bruno Zago fala sobre o presente e o futuro dos quadrinhos, sua importância como porta de entrada para o universo da leitura, a influência dos quadrinhos e desenhos animados japoneses no Brasil e muito mais

Bruno Zago, um dos principais nomes da editoria de quadrinhos japoneses, no Brasil, e membro do programa “Pipoca e Nanquim” | Foto: Jornal Opção

Ademir Luiz
Especial para o Jornal Opção

Capitaneado pelo trio Bruno Zago, Alexandre Callari e Daniel Lopes o site Pipoca & Nanquim é um dos melhores do Brasil no segmento dedicado à análise de quadrinhos, cinema e literatura pop. Formado em Publicidade e Propa­ganda e com grande experiência no mercado editorial, Bruno Zago fala nesta entrevista sobre o presente e o futuro da mídia quadrinhos, sua importância como porta de entrada para o universo da leitura, a influência dos quadrinhos e desenhos animados japoneses no Brasil, os fanáticos que não aceitam críticas aos filmes de seus super-heróis preferidos e, principalmente, sobre a nova fase do Pipoca & Nanquim, que está expandindo seu conteúdo e se transformando em editora.
Confiram a entrevista!

O Pipoca & Nanquim é um dos mais importantes sites de cultura pop da internet brasileira. Diz a lenda que tudo começou no condado de Araraquara. Como foi isso?
Começou em outubro de 2009, realmente em Araraquara, na universidade onde eu trabalhava. Essa universidade (a Universidade de Araraquara – UNIARA) tinha uma grade de programação de uma hora na televisão a cabo regional, e o diretor do núcleo de TV que produzia os programas havia sido meu professor anos antes. Conversando com ele, descobri que existia um espaço na programação, então eu perguntei se podia fazer um programa de 25 minutos sobre cinema e quadrinhos, ao que ele concordou. Assim nasceu o Pipoca & Nanquim, como um programa de televisão que também era publicado na internet. Na época, eu era o único que pegava os arquivos editados e os divulgava na internet, sendo que nem era no YouTube, pois o site ainda não aceitava arquivos maiores do que 10 minutos. Depois, no comecinho de 2010, Daniel Lopes e Alexandre Callari se juntaram a mim na empreitada, no episódio 13 do programa, e continuamos juntos o tempo todo, fazendo aquilo por amor ao hobby, sem sabermos que um dia isso mudaria nossas vidas.

Foi anunciado que o Pipoca & Nanquim entraria em uma nova fase, com outras pretensões e atrações. Estão planejando dominar o mundo?
O único mundo que nos interessa é o dos quadrinhos. (risos) No momento, o que estamos planejando para o futuro é ter um espaço físico para fazermos tudo da editora e do canal (atualmente fazemos tudo de nossas casas), regularizar uma quantidade fixa de três vídeos semanais no canal, em dias e horários certinhos para o público se organizar junto conosco, e lançar pelo menos 10 quadrinhos no ano que vem, com ao menos um mangá e uma obra nacional dentre eles.

Como começou a ler quadrinhos?
Sempre gostei, desde criancinha. Não me lembro de um momento em que pensei: “caramba, acho que vou ler quadrinhos agora”. Isso sempre fez parte da minha vida, eu passava em frente a uma banca de jornal e os gibis me chamavam atenção na mesma hora. Comecei com Turma da Mônica, fui pra Disney depois, e daí passei pros heróis Marvel (por causa do desenho dos X-Men) e DC (por causa da “Morte do Superman”). Depois, já no começo dos anos 2000, meu gosto por animês que passavam na TV aberta me levaram pros primeiros mangás da Conrad e da JBC. Em 2005, quando entrei na faculdade, descobri mais da Vertigo, dos quadrinhos europeus e outras obras adultas, e passei a ler tudo que podia. Nunca parei.

Você é formado em Publicidade e Propaganda. Como foi sua atuação na área e como essa formação contribui com o Pipoca & Nanquim?
Sim, me formei em 2008, mas comecei a trabalhar na área em 2006. Primeiramente, trabalhei na própria universidade onde gravava o Pipoca & Nanquim, como diretor de marketing (na verdade, só tinha eu na equipe criativa, então eu era diretor, assistente e tudo mais). Também atuei como professor em cursos do Centro Paula Souza (ensino técnico do Estado de São Paulo) por 4 anos, de 2009 a 2012. Nesse meio tempo, fiz vários freelances para agências, empresas etc.. Com a experiência nesse ramo, aprendi a trabalhar com programas de edição gráfica, o que me abriu as portas pro mercado editorial de quadrinhos em janeiro de 2013, quando me tornei editor de mangás da Panini. Logo, uma coisa meio que levou a outra. Por trabalhar na universidade consegui um meio de fazer o Pipoca & Nanquim. Com o Pipoca & Nanquim e a experiência em publicidade e propaganda consegui o emprego de editor. Com o Pipoca & Nanquim e emprego de editor consegui abrir uma editora em sociedade com os caras.

Bruno Zago (no centro), ao lando de seus companheiros do “Pipoca e Nanquim”, Daniel Lopes (à esquerda) e Alexandre Callari (à direita) | Foto: Jornal Opção

Você tem uma trajetória respeitável como editor de quadrinhos em importantes editoras, como a Panini e a Mythos. Como está o mercado atualmente? A crise o desaqueceu? Há espaço para quadrinhos independentes?
Pelo que dá pra sentir no dia a dia como editor, o mercado de quadrinhos continua aquecido mesmo com a crise, o que é impressionante. Vivemos a Era de Ouro dos quadrinhos em nosso país, tanto para os licenciados de outros países quanto para a cena independente. Há, sim, espaço para os lançamentos nacionais, tanto que as próprias editoras têm se mobilizado e lançado alguns autores, algo que nós queremos começar a fazer ano que vem também.

A onda de adaptações cinematográficas de personagens de quadrinhos, sobretudo super-heróis, realmente produzem novos leitores, ou apenas consumidores de bonecos, camisetas e lancheiras?
Com certeza gera novos leitores. A pessoa sai do cinema encantada com o filme e vai para a internet pesquisar sobre os personagens e, com isso, cai em alguns sites ou canais de YouTube que falam de quadrinhos, e então começa o interesse por buscar mais a respeito. Os nossos vídeos que saem em épocas de hype dos filmes costumam tem mais views do que a média, e também trazem um número maior de inscritos, o que comprova que esse movimento acontece. Então, a pessoa vê aquele vídeo, acaba curtindo o canal, busca mais conteúdo que fale sobre outras coisas, começa a ler as HQs daquele filme, acaba curtindo a experiência com os quadrinhos e passa a buscar outras leituras. É um caminho natural. Assim como eu comecei lá atrás com desenhos animados, hoje a porta de entrada está no cinema.

Seus vídeos com críticas negativas sobre filmes de super-heróis foram recebidos com ódio por muitos fãs. Alguns chegam a fazer ameaças, xingam muito no twitter e coisas do tipo. O que esse tipo de reação significa quanto a recepção da cultura pop contemporânea? Estão levando a coisa muito à sério?
Nunca vou entender esse comportamento. Isso não aconteceu apenas comigo, é algo bastante comum em todos os canais e sites que exponham a opinião sobre filmes. Se alguém acha determinado filme ruim, algumas pessoas não conseguem lidar com isso e atacam com xingamentos e ameaças. É bizarro. É só uma opinião sobre um filme de super-heróis, não deveria causar polêmica nenhuma. Não tenho formação na área da psicologia pra afirmar a causa desse tipo de comportamento, mas acho que nunca vai acabar, e só não começou décadas atrás porque não existia a internet. Acho que é algo que está com alguns seres humanos desde sempre.

Você foi editor da Planet Mangá no Brasil. O que explica o grande interesse dos jovens brasileiros pelos quadrinhos orientais?
É uma linguagem muito diferente da dos comics, uma que acredito ser mais fácil de se envolver, e os mangás têm os animês como “base”, que proporcionam uma divulgação natural da coisa. Mangás abordam os mais variados temas, logo chegam aos mais variados leitores; é fácil pra qualquer um encontrar uma história que se encaixe em seu gosto pessoal. As histórias possuem começo, meio e fim e não carregam o peso de uma extensa cronologia que apenas serve pra confundir a cabeça, e isso ajuda muito também. Um mangá lançado na banca tem apenas uma história, que segue de cabo a rabo, diferente dos comics, que são divididos em mixes de várias histórias, uma diferente da outra, inclusive com personagens diferentes, dificultando o entendimento de um leitor desavisado. Depois de quebrada a barreira do preconceito com a linguagem diferente dos mangás (e é bem fácil quebrar essa barreira), não é de se surpreender que um leitor passe a preferir os mangás. O que existe hoje é o seguinte: o leitor que curte todo tipo de quadrinho, o leitor que não lê mangás porque não sabe o que está perdendo, e o leitor que lê apenas mangás porque não consegue entender os comics. O segundo tipo, uma hora ou outra, vai descobrir que mangás são legais e esse categoria se torna cada vez menor.

Quem são os quadrinistas brasileiros mais importantes em atuação? Algum quadrinho brasileiro repercute no exterior?
Vixe, me desculpe, mas não tenho gabarito pra responder isso… Uma coisa que vejo é que os autores convidados pra trabalhar nas Graphics MSP acabam recebendo bastante destaque, inclusive publicando no exterior, mas minha percepção da coisa para por aí. (risos)

E entre os quadrinistas internacionais? Quais são os grandes nomes?
Continuam sendo os mesmos de sempre: Alan Moore, Neil Gaiman, Frank Miller, Grant Morrison, Mark Millar, Will Eisner etc… De vez em quando surgem nomes novos que repercutem bastante, como Scott Snyder, Tom King e Jonathan Hickman, mas no geral os fãs de quadrinhos tendem a ser tradicionalistas e reverenciar certos autores pra sempre, garantindo que os lançamentos deles sejam sucessos garantidos.

É comum vermos jovens lendo livros gigantescos de fantasia, vampiros, magia e coisas do tipo. Você acha que essa literatura compre o mesmo papel que anteriormente era de coleções como a “Vaga-Lume” ou “Para Gostar de Ler”, de abrir as portas para temas mais adultos, ou é um fenômeno diferente, próprio da geração Y? E onde esse fenômeno vai chegar?
É a mesma coisa da coleção Vaga-Lume. Sempre vai haver livros que acertem os jovens e cheios e os coloquem no caminho da literatura. Ontem foi Harry Potter, hoje é “Game of Thrones” e aqueles romances Young-Adults, amanhã será outra coisa. Não chamaria de “fenômeno”, é algo natural, e todas as editoras do mundo querem encontrar o próximo sucesso entre esse público.

Muito se discute sobre o fim do livro. E os quadrinhos? Qual o futuro dos quadrinhos?
Acho que os livros e quadrinhos impressos nunca vão acabar. A publicação digital vai crescer, lógico, mas não em detrimento da publicação física. Salvo se algum dia se tornar proibido imprimir qualquer coisa pra salvar o planeta, livros e quadrinhos continuarão a figurar em nossas prateleiras. Ainda sobre os quadrinhos, finalmente entramos na era em que as pessoas sabem que essa não é um tipo de literatura menor. Os quadrinhos são respeitados e aceitos hoje em dia por quase todo mundo (em breve, por todo mundo mesmo). Nós já vemos mais quadrinhos sendo publicados em todos os lugares do mundo e isso vai crescer sem parar, creio eu.

Para terminar, você costuma ser o apresentador dos vídeos do Pipoca & Nanquim. Qual o segredo para manter o Alexandre Callari e o Daniel Lopes na linha? Você grava com um chicote escondido?
Sim, gravo. (risos)

Ademir Luiz é doutor em História e professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG).

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