Virtuoses goianos ganham o mundo

Conheça um pouco da trajetória de alguns destes músicos que, após muitos anos de dedicação, estão sendo recompensados com prêmios, bolsas de estudos e o reconhecimento nacional e internacional

Dicionários da língua portuguesa definem o verbete “virtuose” como o artista que atingiu um altíssimo grau de conhecimento e domínio técnico na execução de sua arte. Do latim tardio virtuosus, derivado de virtus, significa, em bom português, a “virtude” daqueles que possuem uma habilidade fora do comum. Mas, para possuir tal excelência, não basta nascer com o dom, é preciso cultivá-lo. A música surgiu na vida destes goianos bem cedo e, já na infância, começou aquela paixão que duraria a vida toda, dando sequência a anos de total entrega e a uma rotina de estudos, ensaios e apresentações. Disciplina e até mesmo alguns sacrifícios são necessários a quem almeja a carreira profissional na área. Nas próximas linhas, você conhecerá um pouco da trajetória de alguns (sim, o espaço exíguo das páginas de um jornal faz com que incorramos em injustiças) destes músicos que, após muitos anos de dedicação, estão sendo recompensados com prêmios, bolsas de estudos e o reconhecimento nacional e internacional.

Diego Caetano – Piano

Diego Caetano | Foto: Anastasia Ram/Paris-Photo-Love.com

As mulheres tiveram uma influência marcante na formação do pianista Diego Caetano, de 28 anos. A vocação para o instrumento foi descoberta na infância ainda, por influência da mãe, Kátia Cilene, que tinha uma discoteca particular com nomes como Chopin e Liszt. “Eu não tinha piano e não tinha ninguém na família que fosse pianista. Ouvia os discos de minha mãe e sempre falava ‘um dia quero fazer isso’. Então resolvi me matricular no curso de piano. Foi como tudo começou e não parei mais”, recorda-se. Os estudos começaram aos 11 anos em Anápolis, com a professora Viviane Fiaia Costa, idade que ele considera ‘tarde’ para alguém que quer levar o piano profissionalmente. Mas uma vez iniciado, tudo se desenrolou com muita rapidez.

Logo aos 13, veio para o Lilian Centro de Música, em Goiânia, onde estudou com a professora, Lilian Carneiro de Mendonça, que, segundo o músico, foi quem “lhe apresentou o mundo”. “Ela me levou para vários locais: Estados Unidos, Europa, África, Ásia…”. Fez graduação na UFG com a professora Maria Helena Jayme Borges e já com 20 anos havia partido para os Estados Unidos, rumo ao mestrado na Universidade Wyoming, sob a tutela de Theresa Bogard. Também estudou no Conserva­tó­rio de São Petersburgo, na Rússia, mais uma vez com uma professora, Nadezh­da Eysmo. Foi somente no doutorado, na Universidade do Colorado, que teve um professor homem, David Korevaar. “A diferença no relacionamento é muito grande. Achei muito estranho no início, porque tinha uma relação quase que de mãe com minhas professoras. Aquela mãe carinhosa, mas ao mesmo tempo exigente e repreensiva. Com o David, era mais ‘relax’”, comenta.

Os frutos da dedicação ao piano logo foram surgindo e hoje Diego impressiona com sua coleção de 53 primeiros prêmios em concurso no Brasil e exterior; entre eles, o Arnaldo Estrella (2008) e Spartaco Rossi (2010), e o concurso de concertos em Nova York, onde solou o concerto Nº 2 de Chopin com a Sinfonietta de Nova York, no Carnegie Hall, e o Steinway & Sons, que escolheu os seis melhores pianistas dos Estados Unidos. Este ano, no concurso internacional de Bucareste, na Romênia, com a presença maciça de pianistas do Leste Europeu, Diego foi agraciado com o Grand Prix hors concours. Hoje, além de profissional realizado, é um cidadão do mundo apaixonado por aprender novos idiomas. Diego é fluente em 10 línguas e se vira bem em mais outras 5.

Diego tem uma agenda para lá de intensa. Segundo afirma, faz uma média de 60 a 70 concertos no mundo inteiro por ano. Nos últimos três anos, foram pelo menos 40 concertos só na Europa. No ano passado, Diego fez uma turnê de 17 concertos no Japão. “Foram dois grandes concertos beneficentes realizados em Yokohama e Tóquio, em prol dos sobreviventes do tsunami e do terremoto que atingiu o Norte do País. Com o dinheiro arrecadado, fomos até estas vilas, visitar os sobreviventes, para levar música e esperança. Em Fukushima, fomos autorizados a sair do trem exclusivamente para a apresentação e logo em seguida já tivemos que ir embora por causa da radiação. Mas, apesar disto, foi uma experiência incrível! Toquei não só música do repertório internacional de piano, mas também música brasileira e fui muitíssimo bem recebido pelos japoneses”, relata.

Atualmente, Diego é também professor da Universidade de A­ma­ril­lo, onde mora nos Estados Uni­dos, e foca o seu trabalho na formação e preparação de alunos para concertos e audições. Compõe um duo de piano e violino com o russo Ev­geny Zvonnikov. A dupla apresenta repertório standard e de mú­sica brasileira que é levado por am­bos para o mundo todo. “Desta vez, ele (Zvonnikov) veio para o Bra­sil comigo e ano que vem iremos para Bielorrússia e México.” Mas, de todos os lugares no planeta, é no palco que se sente mais à vontade. “Não sinto qualquer nervoso. Me sinto mais em casa no palco que fora dele. Mas isto também é fruto de uma preparação prévia. Trabalho muito antes de cada apresentação.”

Os próximos meses não serão muito diferentes. O pianista já tem uma série de performances solo nos Estados Unidos e daqui duas semanas apresenta o concerto Carnaval dos Animais. Em novembro faz turnê na China e em dezembro o destino será Quebec e Montreal, no Canadá. Em março se apresenta na Grécia para, no mês seguinte, já seguir para uma nova maratona europeia por países como Espanha, Portugal, França, Inglaterra, Suíça e Rússia. Mas mesmos com tantos compromissos internacionais, o Brasil e, claro, Goiás, estão sempre no escopo de Diego. No ano passado, esteve no país para concertos com a Filarmônica de Goiás, Sinfônica de Barra Mansa, na Sala Cecília Meireles, além de recitais solo e música de câmara. Mais recentemente, teve agenda em Goiânia, Manaus, Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre. “A gente não para. Não pode parar. Música é movimento. Música é vida!”.

Natanael Ferreira – Viola

Natanael Ferreira | Foto: divulgação

No caso do jovem Natanael Ferreira, de 23 anos, pode-se dizer que o gosto pela música está no sangue e foi calorosamente incentivado no aconchego do lar. Em uma família de músicos, a principal influência foi o maestro Eliseu Ferreira, tio de Natanael. O primeiro passo de seu caminho na música foi com os estudos de piano, logo aos 8 anos, em Anápolis. “Na época, meu irmão começou violoncelo e outros dois primos, sendo um deles o Eliel (Ferreira, maestro da Orquestra Sinfônica Jovem de Goiás – OSJG), começaram violino. Nós queríamos montar um quarteto da família”, lembra-se.

Mas ele trocou as teclas pelas cordas e começou, com a ajuda do tio, a estudar viola como autodidata. Tamanha dedicação o ajudou a ingressar aos 12 anos, com menos de um ano de estudos, à equipe ‘B’ da OSJG, no Basileu França, já de cara saindo em turnê com os músicos pela Europa. Aos 13, ele já integrava a orquestra ‘A’. Meses depois, Natanael participou de festivais internacionais e ganhou uma bolsa de estudos para estudar na Orquestra Sinfônica da Academia de São Paulo (Osesp). “Fui aprendendo, como se diz, na raça”, reitera, evidenciando o sotaque de quem há muito deixou o país para viver em Genebra, na Suíça.

Em 2013, conquistou o primeiro lugar no prêmio Eleazar de Carvalho, no Festival de Inverno de Campos do Jordão no Brasil, que lhe permitiu carimbar o passaporte para a Haute Ecole de Geneve, na Suíça, onde começou o bacharelado em 2014. No ano seguinte, ele ganhou os prêmios Academie Ravel e tocou com grandes solistas como Régis Pasquier, Miguel da Silva, Henri Demarquette e Mischa Maisky, recebendo também conselhos de Atar Arad e Tabea Zimmermann. Em meio a tantos compromissos além-mar, o jovem esteve recentemente em Goiânia, onde participou de concerto no Teatro Goiânia que marcou o lançamento da turnê São Paulo da Orquestra Sinfônica Jovem de Goiás (OSJG), em julho deste ano. Na viagem ao Sudeste, a orquestra apresentou-se no Festival de Campos do Jordão e na Sala São Paulo, sede da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp).

Atualmente, Natanael se dedica ao mestrado e participa de vários concertos como solista e música de câmara com grandes nomes como Lorenzo Gatto, Marc Coppey, Heinz Holliger e Ilya Gringolts. Em turnê com orquestras, Natanael integra ainda o Aurora Piano Quartet como artista residente da Queen Elisabeth Music Chapel, em Bruxelas, e o ProQuartet, em Paris. Também faz apresentações solo em países como França, Portugal e Espanha, mas também divide o palco com grandes instrumentistas como Charles Dutoit, Leonidas Kavakos e Mischa Maisky, a quem o jovem considera “um dos maiores cellistas de todos os tempos”. Com tantas insígnias, o resultado não poderia ser outro: Natanael Ferreira está se destacando como um dos maiores jovens talentos da viola segundo a avaliação de críticos de música europeus.

Thiago Aguiar – Tuba

Thiago Aguiar | Foto: Raquel Esteves

Com apenas 8 anos de idade, Thiago Aguiar foi apresentado ao universo da música na igreja. O primeiro instrumento foi uma requinta (menor que o clarinete), mas a primeira impressão não foi a que ficou. “Após ver meu professor Ricardo Rosembergue tocando tuba, apaixonei-me. Como eu era muito pequeno e a tuba é um instrumento enorme, comecei a estudar eufônio (conhecido como bombardino), que é um instrumento da mesma família da tuba. E assim iniciei meus estudos no Centro Educacional Profissional em Artes Basileu França, com o professor Ricardo Rosembergue. Lá estudei por 7 anos até concluir o curso técnico”, conta o jovem. De lá, foi um pulo para a graduação em Música na Universidade Federal de Goiás e logo os sonhos foram surgindo e crescendo.

“Eu sempre ouvia comentários de amigos músicos sobre os grandes festivais nacionais e internacionais que ocorrem no Brasil, até que um dia eu resolvi tentar e fui aprovado para o 47º Festival Interna­ci­onal de Inverno Campos do Jordão, considerado o maior Festival de Música Erudita da América Latina. Foram duas semanas incríveis em São Paulo, tendo aulas com o professor Marcos dos Anjos, assistindo diversos recitais de renomados artistas internacionais e concertos de altíssimo nível, tendo contato com a música de uma forma que eu nunca havia presenciado”, afirma Thiago. No ano seguinte, o músico participou do 7º Festival Internacional Sesc de Música (RS) e depois da 48ª e 49ª edições do Festival Internacional de Inverno Campos do Jordão, onde conheceu o professor Filipe Queirós, com quem vem tendo aulas frequentemente, adquirindo grandes conhecimentos técnicos da tuba.

Em seu currículo, Thiago traz ainda diversos cursos e masterclass com renomados professores: Ricardo Rosembergue, Filipe Queirós, Marcos dos Anjos, Albert Savino, Herick Oliveira, Bill Mann, Wilson Dias, Gustavo de Jesus, Ulysses Damacena, Renato Pinto. No final de 2016, teve a oportunidade de fazer uma turnê na China com a Orquestra Jovem de Goiás, realizando oito concertos nas cidades de Ningbo, Huzhou, Nanjing, Shaoxing, Keqiao, Deqing, Hangzhou e Shengsi. “Foi uma experiência incrível, nunca esquecerei”, alegra-se. Em 2017, foi um dos vencedores do I Concurso Jovens Solistas da Orquestra Sinfônica de Goiânia e no mesmo ano foi finalista do Concurso Jovens Solistas da Orquestra Filarmônica de Goiás. Em 2018, sagrou-se vencedor do Concurso Jovens Solistas da ETB (Associação de Eufônios e Tubas do Brasil), que ocorreu durante a 2ª Conferência Nacional em Goiânia.

Em fase de conclusão da graduação em Música na Universidade Federal de Goiás, Thiago já tem planos de fazer mestrado na Europa. Atualmente, o músico integra a Orquestra Sinfônica Jovem de Goiás e toca frequentemente com a Orquestra Filarmônica de Goiás. Mas os convites não param de surgir. “Neste mês de setembro estou muito feliz pois vou tocar com a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp), considerada a maior e melhor orquestra sinfônica da América Latina”, comemora o promissor músico.

Kaio César da Silva Santos – Oboé

Kaio Cesar, ao centro, com seu oboé | Foto: Kely Carvalho

Foi também na igreja que Kaio, aos 9 anos, teve seu primeiro contato com a música, onde aprendeu os conceitos básicos de saxofone. Já nesse período, o garoto sempre assistia aos concertos das orquestras e tinha um enorme desejo de um dia fazer parte da Sinfônica Jovem de Goiás. O que até então era uma simples vontade começou a se concretizar durante a adolescência, época que enche a cabeça dos jovens com muitas dúvidas, mas Kaio já tinha uma certeza: não iria se adaptar a uma carreira mais “tradicional”. “Tive dificuldade em escolher qual profissão queria seguir. Não tinha contato com o meio musical profissional, mas deixar a música como apenas um hobby não era o suficiente para mim”, conta.

A grande oportunidade acenou para ele aos 18 anos, com a proposta de tocar oboé na Orquestra Jovem do Basileu França recebendo bolsa. “Isso possibilitou que eu comprasse o instrumento e realizasse o sonho de tocar em orquestra. Foi uma oportunidade que mudou totalmente o destino da minha vida e que me levou em vários lugares no Brasil e no mundo. Depois disso viajei para Gramado (RS), Campos do Jordão (SP), pela orquestra viajei também para Trancoso (BA) e fizemos uma turnê pela China”, relata. Na semana passada, Kaio completou dois anos de prática de oboé com uma grande conquista: foi aprovado, após audição, para entrar na Orquestra Jovem do Estado de São Paulo. “Consegui ser aprovado, claro, com ajuda dos meus pais, do professor Érico Marques, do maestro Eliel Ferreira, da minha namorada, que também toca oboé, e muitos outros”, agradece. Agora, Kaio pretende fazer faculdade em SP, mestrado fora do país e um dia fazer parte de alguma grande orquestra no Brasil ou no mundo.

Segundo o jovem músico, a principal inspiração é seu professor, Érico Marques. “Ele também era de Goiânia, passou por dificuldades de ficar sem professor por muito tempo, mudou-se para SP quando jovem e hoje faz parte de uma orquestra na qual ganha muito bem em Porto Alegre.” O que chama a atenção em Kaio e seus colegas virtuoses é tamanho sucesso com tão pouca idade. Mas a juventude não os isenta da consciência de que nada é por acaso e que o sucesso nos palcos é fruto de muito trabalho e, até mesmo, algumas concessões. A balada com os amigos quase sempre precisa ficar de lado. “Dia após dia, estudo de manhã e à tarde. À noite tem ensaio da orquestra e, quando chego em casa, faço palhetas. No fim de semana, quando posso, tiro um dia para o lazer. Por ter uma namorada que também é oboísta, ela entende bastante a minha dedicação e também faz o mesmo. Ao invés de assistirmos um filme ou dar uma saída, muitas vezes estudamos juntos. Requer muita disciplina”, comenta.

1
Deixe um comentário

1 Comment threads
0 Thread replies
0 Followers
 
Most reacted comment
Hottest comment thread
1 Comment authors
Andréa Teixeira

Excelente matéria! Muito bom divulgar quem divulga Goiás através da arte. Parabéns !