“Violeta velha e outras flores”: a obra de quem não queria apenas contar, mas representar histórias

Em seu primeiro livro, o publicitário paulista Matheus Arcaro busca o refinamento das
palavras com o objetivo de significar a paisagem escarnecida ao redor de suas personagens

Foto: Divulgação

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Sérgio Tavares
Especial para o Jornal Opção

Uma intenção maior mobiliza os contos de “Violeta velha e ou­tras flores”, de Matheus Arcaro: atribuir às palavras poderes imagéticos. Antes do tema, da estrutura, a preocupação é com a linguagem. Reificá-la, torná-la gatilho para variações sensoriais, elevá-la a um grau estético que submete a realidade a um plano abstrato. Algo como uma planta arquitetônica onde as paredes são projetadas “com as intimidades à mostra”, para somarem a si uma beleza que está na plasticidade da paisagem ao redor.

Assim, temos um autor que não deseja apenas contar histórias, mas representá-las. Isso fica evidente logo na primeira parte da antologia, seccionada em outras cinco. Em “Casulo rompido”, acompanhamos a incursão por um bosque pelo ponto de vista de um menino ainda “deficitário de dentes”. Toda a explosão de cores, de formas e sons é narrada sob uma prosa intencionadamente pueril, sem que se derrape na pieguice. Outra abordagem interessante fica por conta do confronto. Em como o autor troca de posições adultos e crianças, criando uma ruptura brusca.

Tal efeito, de fato, é reprisado em vários momentos do livro. Uma atmosfera suspeitosa, na qual o leitor é enganado pela polifonia. O ápice está no ótimo “A fúria sem som”, uma referência aos procedimentos faulknerianos. Valendo-se de idas e vindas temporais, o autor apresenta duas histórias que se sobrepõem; ambas narradas por um núcleo familiar. Em primeiro plano, está a voz de um deficiente mental, sendo preparado para o banho. Ele questiona, a todo o momento, o paradeiro de uma antiga cuidadora, nas mãos ásperas de outra. Por quê? A resposta está assentada em mentiras, desamparo, violação moral e um final desconcertante.

As flores de Arcaro não habitam a cromaticidade das fotos, mas seus negativos. Por mais que insistam na pulcritude do léxico, numa sonoridade harmoniosa, roçagam, sob suas pétalas murchas, silvos de uma elegia. É o que ouve o mendigo que anseia um sonho de padaria, pois a crueza da vida é destituída de qualquer elemento onírico, em “O sonho”. Da mesma forma que Paulo, protagonista de “À beira do abismo”, esboroando em seu casamento, despenca-se de si. “Sentido” e “Até que a morte os separe” localizam personagens no mesmo limite fatal. Deformando a citação ao romance “Água Viva”, de Clarice Lispector, são homens e mulheres terrivelmente algemados em relações que não mais lhes pertencem.

A antologia cede espaço ainda para a incidência do surreal, do absurdo cotidiano. Um sujeito “desencanta” e é recebido no Céu por um tipo de guia de visitação, que lhe desvela o teatro etéreo, em “Está tudo escrito”. “Maqui­nan­do” derrama-se na corrente de um delírio, enquanto “Noite nua” é o encontro de um homem com a desclaridade do próprio corpo. Já “Violeta velha”, que motiva o título, recorre à memória para conduzir a velhice ao julgamento de erros pretéritos. “Com o passado entre os dentes, Timóteo dessentiu os membros. Observou o olho, gineceu de uma violeta velha, murcha e úmida, até o sol vestir a capa da noite”.

O livro não oferece uma unidade temática, mas narrativas que formam um mosaico. Diante do fato de ser uma estreia, fica claro que é uma reunião de contos de diferentes idades, que compreendem o primeiro impulso ficcional até o momento da publicação. O que é bem instigante, e acaba fazendo de Arcaro um autor com capacidade para ser muitos.

Preenchidas de 22 contos, as primeiras 150 páginas do primeiro livro do publicitário Matheus Arcaro trazem a densidade da experiência humana  | Foto: Arquivo Pessoal

Preenchidas de 22 contos, as primeiras 150 páginas do primeiro livro do publicitário Matheus Arcaro trazem a densidade da experiência humana | Foto: Arquivo Pessoal

Leia, abaixo, o conto “A fúria sem som”, presente no livro “Violeta velha e outras flores”, de Matheus Arcaro:

Cadê a Tereza? Faz tempo que ela não me dá banho. A mão da Tereza era leve, parecia o beija-flor que cheirava as flores da mamãe. Ela me deixava tão cheiroso que um dia quase o beija-flor veio me beijar. Ele não veio, mas a Tereza me beijou. Ela me beijava e abraçava e depois beijava de novo. E eu desenhava o cheiro dela en­quanto ela passava a mão no meu rosto, temos que fazer essa barba hoje, Benjamim. Tá igual espinho. Espinho branco, onde já se viu? De manhã, à tarde e à noite ela me dava um monte de balinhas coloridas, sempre iguais. O gosto não era muito bom, por isso eu não queria comer. Mas ela dizia que era pra dar força pra minha cabeça, aí eu engolia sem mastigar. A Tereza cuidava de mim como se eu fosse um filho.

Mulher foi feita pra ter filhos, ouvi vovó dizendo pra mamãe. É obrigado igual a ir na missa de domingo, vó? Ela só olhou pra mamãe espremendo os olhos, a boca feito um arco curvado pra baixo. Vovó falava bastante, mas agora eu não ouço mais a voz dela. Ela foi ficar junto com o vovô. Não sei como, mas lá de cima ela ouve tudo o que eu falo.

Você acha que a camiseta vai sair por mágica, Benjamim? Levanta o braço direito. Não estou levantando direito, dona Elizabeth? O outro braço. Vamos, antes que a sua mãe chegue. Mamãe foi no circo com o Willian? Seu irmão está trabalhando, como faz todos os dias. Sua mãe também. Mamãe trabalha no circo? Bem que ela podia pedir emprestado o sapato do palhaço. Depois eu devolvia, era só pra mostrar pro Willian que o sapato não combina comigo. Mamãe deve ter ido conversar com o mágico pra ele fazer o papai reaparecer. Mas como será que ele entrou na cartola? Cadê a Tereza, dona Elizabeth? Mudou de cidade faz mais de três meses. Pra onde ela foi? Pra longe. Onde fica o longe?

Serventia de mulher que não tem filho é limpar chão mesmo. A Tereza não serve só para limpar chão, eu queria ter gritado pra vovó. Mas meu silêncio alto chegou aos ouvidos da Tereza: ela sorriu pra mim com os olhos.

Vamos tirar a bermuda, Benja­mim. Será que a dona Elizabeth vai fazer aquilo de novo? Que bermuda imunda! Você rolou na terra a tarde toda? Fiz uma casa pro Dentuço perto das flores da mamãe. A senhora tem mais neve na cabeça do que eu. Está nevando lá fora? Papai Noel deve estar chegando.

Outra coisa: a Tereza trata esse homem de um metro e oitenta como se fosse uma criança de sete anos. Assim ele vai continuar babando pelos cantos e rabiscando as paredes da casa até morrer. Um metro e oitenta é mais ou menos que a altura de um avião? Preciso mostrar pro Willian que eu sou grande e forte como o papai. Quem sabe ele para de dizer que eu tenho que ir pro hospital. Hospital é lugar de gente doente, eu fui lá ver a vovó antes do vovô puxar ela pra perto das nuvens. É tudo branco e a comida vem numa tigela de plástico rachado. Vovó não devia gostar daquela comida, por isso estava tão magra. Mamãe disse que ela não conseguia comer porque estava pagando não sei o quê, pecado, ruindade, não lembro.

Como vou tirar sua cueca se você está com quase cem quilos? Me ajuda, Benjamim. Não adianta chorar, afasta os pés. Não me force a repetir o que fiz ontem. Passei a mão nas minhas pernas, das listras vermelhas ainda saltava uma coisa doída. A cinta que ela usou estava pendurada junto com a toalha.

Alguém mexeu nas minhas joias, Carmen. Só pode ter sido esta negra fedida. Tereza era tão cheirosa. Eu desenhava o cheiro dela. Você tem que tomar uma atitude, filha.

Fica quieto, senão vou te machucar com a lâmina. Levanta a cabeça, você tem muito pelo aqui no pescoço. Pelo é pra proteger do frio, por isso o Dentuço nunca fica resfriado. Ele é muito velho, só tem pelo branco. Eu tenho mais pelo preto que pelo branco. A vovó usava uma mágica pra sumir com os pelos brancos da cabeça. Mas não durava muito tempo, não. Logo os brancos iam empurrando os pretos e ela tinha que fazer a mágica de novo. Tá ardendo meu olho, dona Elizabeth. Como você é chorão! O que você tem no meio das pernas? Ela sabe o que tenho no meio das pernas. Enfia a cabeça embaixo d’água, Benjamim. Assim, rapaz! Mas eu não consigo respirar, preciso de uma máscara de mergulhar igual uma que vi na televisão. Eu já assisti um monte de coisa legal na televisão. A senhora tem televisão, dona Elizabeth?

Eu não peguei joia nenhuma. A senhora me conhece desde que nasceu, dona Carmen, e sabe muito bem que eu sou direita. Eu nem tenho pescoço pra usar essas coisas. Por que você acha que essa preta nunca teve filhos, Carmen? Que homem ia sujar o pau com ela? A senhora sempre procurando um jeito pra acabar comigo, né, dona Lúcia?! Mas o seu Horácio, que Deus o tenha, não achava a nega aqui fedida. Lave a boca pra falar do meu marido, velha encardida. Ele me procurava quase toda noite no quartinho, a senhora sabe muito bem. Leva o seu irmão lá pra fora, Willian.

A Tereza também dava banho no vovô, Willian? Levanta o braço. Deixa eu esfregar aqui, vira. Vira mais. Benjamim, você tomou os remédios da tarde? Cadê a Tereza? Cadê a Tereza? A Tereza contava história enquanto me dava banho. Ela disse uma vez que conheceu o mundo inteiro num dia só. Ela ia de cidade em cidade voando de balão e fotografava tudo lá de cima. Ela me mostrou as fotos no computador do Willian. A senhora já viu as fotos? Mas demorou muito pra ela me mostrar porque ele não queria emprestar o computador. Disse que o computador era pra trabalho, não pra essas coisas que não servem pra nada. Como a gente mede a serventia de uma coisa?

A Tereza não sabe roubar nada não, Willian. Eu sempre deixei meus bonecos em cima da cama, no chão, no banheiro e eles sempre estavam lá quietinhos quando eu voltava. Às vezes ela punha em cima do armário, é verdade. Mas nunca sumiu nenhum.

Você está me molhando inteira, Benjamim, olha só a minha blusa. Desculpa. Vou estender a blusa aqui no box. Ontem a senhora estendeu na maçaneta, dona Elizabeth, lembra? Ou foi antes de ontem?

Eu não quero que a Tereza vá embora, mamãe. Você tem que falar pra vovó que ela não fez nada. Ela cuida de mim como se eu fosse o filho dela. Como um neto, Benjamim.

Ela cuida de você como um neto. Dona Elizabeth, a calça da senhora também molhou?

Você já consegue entender como é a sua vó Lúcia. Quando ela põe uma coisa na cabeça não há quem tire, filho. Vem, eu vou te dar seu remedinho da noite. Mas a Tereza vai sair assim nesse escuro, mãe? E se o homem do saco pegar ela? E se a menina do Exorcista vomitar verde na cara dela como fez com o padre? Ela vai pegar doença.

A Tereza não pegava assim em mim. Eu não pegava assim na Tereza. O que é isso que acontece quando a dona Elizabeth pega em mim? Eu não gosto do que acontece. Não posso gostar.

Por que a senhora não é tão branca como a vovó, mamãe? Que pergunta! As pessoas nascem diferentes, Benjamim. Veja, você não é igual ao seu irmão. Como eu sou, mãe? Você é um homem bom, muito especial. Um anjo de Deus.

Dona Elizabeth, não gosto de fazer isso. Eu sinto um negócio estranho, parece que alguma coisa aqui dentro cresce, cresce, cresce até explodir. Tenho medo. Ai, Benjamim, cala a boca. É só você ficar paradinho aí na parede que eu faço o resto. Mas eu não consigo ficar paradinho, o azulejo está frio. Põe uma toalha nas costas e outra na boca.

Benjamim, esta é a Beth. Ela vai cuidar de você como a Tereza cuidava. A partir de agora você tem que obedecer a Beth, ouviu bem?

Fecha a tampa do vaso e senta aí. Isso. Mas a senhora é muito pesada pra sentar no meu colo. Vai. Bem-ja-mim! Bem-ja-mim! Já! Já! Para, dona Elizabeth, por favor. Para. Para! Endoidou de vez? Me dá essa lâmina, Benjamim. O que você está fazendo, retardado? Ai! Para, débil mental. Demente filho da puta. Socorro! A senhora nunca mais vai fazer isso comigo. Nunca mais. Nunca… Dona Elizabeth! Dona Elizabeth, a senhora está me ouvindo? Tereza! Tereza, cadê você?

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