A vida de um dos maiores estadistas de todos os tempos

Escrita pelo ex-reitor da Universidade de Oxford, Roy Jenkins, biografia resgata a vida
de um dos mais importantes políticos da história, Winston Churchill. De sua trajetória como militar e correspondente de guerra ao cargo de primeiro-ministro britânico

Salatiel Soares Correia
Especial para o Jornal Opção

Winston Churchill: primeiro-ministro britânico por duas vezes (1940-45 e 1951-55) e prêmio Nobel de Literatura

Winston Churchill: primeiro-ministro britânico por duas vezes (1940-45 e 1951-55) e prêmio Nobel de Literatura

A maneira mais adequada de se conhecer a estatura de homens públicos é uma só: reconstituindo as partes que constituem a vida deles. Nesse sentido, as biografias resultantes de minuciosas pesquisas e da sempre necessária isenção do autor cumprem bem esse papel.

Para se conhecer a real estatura de políticos se faz necessário entender a maneira como eles agem nos momentos de dificuldades e porque optaram por este e não por aquele caminho. Aliado a isso, torna-se indispensável saber se quem comanda tem um ingrediente indispensável que leva um homem público ao patamar da grandeza: coragem. Nesse sentido, vale lembrar o conselho que nos dava um grande brasileiro, o ex-ministro Celso Furtado, a respeito dos políticos sem coragem: “Fujam deles”. Creiam: os grandes políticos sabem perfeitamente avaliar o momento histórico que exercem o poder. Veem este como um instrumento de transformação da realidade visando sempre à construção do futuro. São eles conscientes da transitoriedade de sua liderança. Grandes homens públicos são, na verdade, grandes líderes cujas lideranças dão um sentido de direção ao processo político. Homens públicos de pequena envergadura, quando deixam o poder, são como risco na água: são logo esquecidos ou eternamente lembrados pelo mal que fizeram aos povos que neles depositaram algo imprescindível que move a vida: a esperança.

Nesse sentido, Adolf Hitler e Franklin Delano Roosevelt ilustram o exemplo e o contraexemplo do que querem dizer estes escritos. A maneira como este conduziu seu país nos momentos de turbulência foi completamente diferente daquele. Nessa ação se impute os objetivos que almejavam uma e outra liderança. Roosevelt liderou não só a construção de outro tipo de Estado em seu país (o New Deal), como também conduziu a terra de Abraham Lincoln (outro grande estadista) à vitória americana na Segunda Guerra Mundial. Hitler, também, foi inegavelmente um líder de seu povo. Mas tanto Roosevelt quanto Hitler tinham propósitos completamente diferentes um do outro. Hitler, em nome de uma suposta supremacia racial ariana, contribuiu decisivamente para o ceifamento da vida de seis milhões de judeus na mesma Segunda Mundial. Resultado: a Alemanha foi derrotada e essa derrota levou gerações a pagarem um elevado preço que certamente os Estados Unidos não pagaram. Quanto a isso, nada mais sábio do que o soberano julgamento da história para constatar que o patamar no qual hoje se encontra Roosevelt é completamente diferente daquele onde está Hitler. Este, odiado pela humanidade; aquele, referenciado por sua incontestável liderança nos momentos de turbulência em que conduziu os EUA a ser o país que hoje é: a nação mais poderosa do mundo.

A biografia que ora passo a comentar se refere também a um homem pú­bli­co de primeiríssima qualidade. Trata-se de um grande estadista da mesma en­ver­­gadura de Fran­klin Delano Roosevelt, A­bra­ham Lincoln ou Napoleão Bona­parte. Um homem que deixou sua marca não só na Inglaterra, que liderou em momentos tão turbulentos como aqueles da Segunda Guerra Mundial, mas em toda humanidade. Falo de Winston Churchill. Vários livros — para lá de uma centena — foram escritos sobre a vi­da desse grande estadista inglês. En­tretanto, nenhum deles foi tão reconhe­ci­do como a biografia escrita por lord Roy Jenkins. Apresentemos, primeiramente, o autor para, em seguida, juntos, efetuarmos um mergulho no trabalho de inegável fôlego intelectual do mais célebre biógrafo daquele que é considerado o mais influente homem público de to­dos os tempos da terra da rainha Elizabeth.
Não poderia existir pessoa mais adequada para relatar sobre a vida de Wins­ton Chur­chill do que Roy Jenkins. Mais adequada não só pelas suas inegáveis credenciais acadêmicas, mas pela notável experiência política de quem militou por mais de meio século na política inglesa. Nesse sentido, o autor se tornou reconhecido por seus trabalhos não apenas a respeito de Churchill, mas de outros importantes políticos de expressão que fizeram história na terra do grande dramaturgo inglês William Shakespeare.

Roy Jenkins estudou na tradicional Universidade de Oxford e, anos mais tarde, tornou-se chanceler da prestigiada instituição de ensino e pesquisa. Além disso, exerceu relevantes cargos em vários governos da Inglaterra. Entre os quais, destaco: ministro da Aviação, ministro do Interior, por duas vezes, e ministro das Finanças. Foi também presidente da Comissão da Europa, líder do Partido Liberal Democrata, na Câmara dos Lordes, e presidente da prestigiada Real Sociedade de Literatura. Com todas essas credenciais, não poderia a vida do mais influente político inglês de todos os tempos estar em melhores mãos para ser registrada para as gerações futuras. Se Churchill foi a grande personalidade que deve sempre ser relembrada, teve ele, também, inegavelmente um biógrafo à altura de sua grandeza.

A vinda ao mundo  de um moço atrevido

Era 30 de novembro de 1874, Palácio de Blenheim, na In­glaterra. Poderia ser um dia co­mum. Mas não foi. Nes­se dia, veio ao mundo um menino oriundo da aristocracia britânica, filho do político inglês Randolph Chur­chill e da bela norte-americana, filha de um influente finan­cis­ta de Nova York, Jennie Jerome. Chur­chill ul­tra­passou — e muito — o pai co­mo político: “O ver­dadeiro problema de Ran­dolph Chur­chill é que todas as suas atitudes políticas eram ditadas pelo o­por­tunismo e não por algum corpo coerente de convicções”. E acrescenta o biógrafo: “Tal­vez fosse justo dizer que sua carreira não te­ve igual em fa­zer tanto barulho e atingir tão pouco. A herança maior que deixou a seu filho mais velho (dinheiro foi quase nada) foi um desejo de fazer bonito, junto à con­vi­cção de que ele também ia morrer mo­ço e que, portanto, era bom se apressar”.

A mãe do político mais influente da Inglaterra era famosa não só pela sua beleza, mas pelos vários amantes que teve, entre os quais, o próprio rei da Inglaterra Eduardo Sétimo. “Ela teve uns 200 amantes”, disse o escritor anglo-irlandês George Moore a respeito da intensa vida afetiva de lady Randolph. Churchill perdeu o pai quando já era um moço de 20 anos. Apesar de amar a mãe, manteve com ela uma relação de não muita proximidade. “Brilhava para mim como a estrela-d’alva [a mãe]. Eu a amava muito — mas a distância”, disse ele certa vez a respeito de sua progenitora. Decididamente, o filho de lord Randolph não teve uma infância mimada. Muito pelo contrário: chegou a ter certos desapontamentos na infância. Seu único irmão Jack nasceu em Dublin, na Irlanda, com aquela insinuação de que este não era filho do mesmo pai. Vale ressaltar que esse fato nunca foi empecilho à grande amizade que o futuro líder dos ingleses devotou ao irmão.

Mal entrara nos primeiros anos da vida adulta e Churchill, o futuro estadista, já revelava enorme talento para a escrita. Obteve seu sustento por meio de uma fonte de renda que refletiria sua inata vocação de brilhante orador: as conferências e a publicação de livros e artigos em importantes jornais da Inglaterra. Sentia-se ele orgulhoso por ser capaz de ganhar dinheiro oriundo de seu talento de conferencista. “Estou muito orgulhoso do fato de não haver uma pessoa em um milhão que, em minha idade, pudesse ganhar 10 mil libras sem nenhum capital em dois anos”, disse. Suas palestras sempre atraíam uma legião de espectadores, principalmente em países como os Estados Unidos e o Canadá.

Roosevelt, Stálin e Churchill: a partir de 1941, com a entrada da Rússia e dos Estados Unidos, a guerra passaria a ser comandada pelo triunvirato

Roosevelt, Stálin e Churchill: a partir de 1941, com a entrada da Rússia e dos Estados Unidos, a guerra passaria a ser comandada pelo triunvirato

A face literária do estadista adquiriu nova feição no momento em que Chur­chill se notabilizou como militar e cor­res­pondente de guerra servindo ao go­verno inglês em sua expansão colonialista na África do Sul, Índia e Sudão (foi também correspondente de guerra em Cuba). A guerra foi um assunto constante em seus escritos. Foram os conflitos bélicos sua inspiração tanto para seus memoráveis artigos como para sua produção literária e que o levariam, décadas mais tarde, a ser o único político britânico laureado com a mais importante premiação que pode receber em vida um grande escritor: o prêmio Nobel de Literatura. “Eu estava só; mas com muitos livros, o tempo não passou e não foi desagradável”, revelou ao a­travessar cincos de dias de calor no in­terior da Índia em condições altamente inóspitas. Ler e escrever, para ele, era uma forma de compensar a escassez que sentia de uma formação intelectual mais sólida em sua educação formal. Na condição de funcionário subalterno nas colônias inglesas, era, bastante moço, dotado de atrevida coragem que se manifestava nas críticas que emitia a seus superiores em Londres. Aliás, coragem é uma vir­tude que não lhe faltou em sua curta carreira militar. Um episódio que bem ilustra a ousadia do futuro pri­meiro-ministro inglês se deu no momento em que ele, na guerra dos Boers (na África do Sul), conseguiu es­­ca­par para Moçambique. Assim, no pa­­rá­grafo que segue, desenvolvo uma síntese do que relata o autor a respeito.

A fuga se constituiu num misto de sorte e coragem. Nesta, Churchill andou disfarçadamente (umas duas horas) pela cidade, caminhando até os trilhos da ferrovia com um único objetivo: pegar o trem de carga em movimento a pouca distância da estação. Deu certo. O trem levava sacos vazios para uma mina de carvão. Dormiu entre estes. No cair da madrugada, com o trem em movimento, jogou-se em terra, mas não se machucou. Andou o dia todo no quente verão sul-africano sem nenhuma alimentação até chegar numa mina cercada de construções.

Eis aí mais um ingrediente de sorte nessa incrível aventura: atendeu-o o gerente da mina que era inglês. Este lhe deu abrigo e o escondeu no fundo de um poço, onde ele teve como companhia “uma tropa de ratos”. Passada uma semana, foi introduzido, pelo gerente da mina, no vagão de um trem que transportava fardos de lã para uma longa viagem que era para durar umas dezesseis horas, mas que durou quatro vezes mais. Veio uma noite de agonia, pois o trem parou no lado errado da fronteira. Era apenas um susto, pois logo este cruzou a fronteira e Churchill estava enfim a salvo em Moçambique. A Guerra dos Boers e a fuga espetacular implementada

pelo futuro primeiro-ministro inglês lhe tornaram conhecido por todos os lados. “Com a idade de vinte e cinco anos, ele atingira algo próximo à fama mundial. Para o futuro, o que fizesse ou dissesse certamente chamaria a atenção, mesmo que não atraísse concordância ou admiração”, assim atesta seu biógrafo.

Quando era muito jovem, o decidido Churchill enveredou pelo campo político. Não parou mais. Nessa época, o filho de lord Randolph já possuía uma considerável bagagem em sua história de vida. Muito contribuiu para esta não só a extraordinária fuga anteriormente relatada, mas sua atuação como correspondente de guerra e o que disso resultou: brilhantes artigos e futuramente uma reconhecida obra literária.

Assim o dia 20 de julho de 1900 seria uma data histórica na política inglesa. Nesta data, o filho de lord Randolph seguiria o rumo do pai: o de se tornar um político. Um político de carreira bem mais longeva e absolutamente mais brilhante que a de seu progenitor. A porta de entrada foi o Partido Conservador inglês (Tory); o distrito que lhe daria representatividade política seria o de Oldham.

Os primeiros anos da vida pública de Churchill já evidenciavam um estilo inerente à sua expressiva personalidade: a autoconfiança. Uma autoconfiança que levaria aquele moço atrevido a escrever ousadas correspondências ao todo-poderoso primeiro-ministro inglês. Para isso, sempre estudava os assuntos antes de opinar. “Tarifas preferenciais, mesmo sobre artigos que devamos taxar para fins de renda, são perigosas e censuráveis”, dizia ele para, logo em seguida, acrescentar: “É claro que julgo praticamente impossível parar aí, e estou persuadido de que, uma vez iniciada, essa política levará a estabelecer-se um completo sistema de proteção, que será um desastre comercial e a americanização da política inglesa”. Convenhamos: era muita ousadia para um jovem deputado de 28 anos recém-chegado ao parlamento se dirigir ao político mais poderoso da Inglaterra. Uma ousadia, como atesta seu biógrafo, que nos seus tempos de ministro “mostrava notável capacidade de aborrecer o Palácio de Buckingham”. Mas este era o estilo dele que se notabilizaria nos mais de 64 anos em militou não só na política de seu país, mas, sobretudo, na política internacional. Um estilo que o levou a mudar para o Partido Liberal não por oportunismo, mas em nome de suas convicções. Motivo da mudança: discordância sobre os rumos da política social de seu partido. Todavia, um novo delinear nos acontecimentos fez Churchill, tempos depois, retornar às hostes do Partido Conservador. Criticado pelas mudanças, ele fez uso de sua famosa, felina e certeira oratória. “Há os que mudam de partido em função de seus princípios; outros trocam de princípios em prol do partido.” Os fatos históricos demonstraram que Churchill se enquadrava na primeira hipótese.

Posto isso, façamos aqui um parêntese no sentido de melhor delinear o perfil dessa grande personalidade pública. A ponta do iceberg da vida de Churchill que o tornaria um dos maiores nomes da política mundial se mostrou visível para o mundo durante os duros anos da Segunda Guerra Mundial. Falaremos desse assunto mais adiante. Entretanto já fica evidente que qualidades como a coragem, autoconfiança transposta na firmeza de convicções e o completo domínio da oratória sempre foram inerentes ao modo de ser do maior nome da política inglesa. Um homem, segundo Roy Jenkins, em que “a delicadeza nem sempre foi seu forte”.

Churchill, ainda muito jovem, seria de fato uma estrela em ascensão na vida política de seu país. Na condição de subsecretário para as colônias (1905), demonstrou sua aptidão para lidar com problemas que realmente afetavam a vida das sociedades que governava. Este foi o caso das precárias condições em que viviam os chineses trabalhadores das minas na África do Sul.

Tratava-se de um assunto, na época, bastante espinhoso, vez que a economia mineira sul-africana muito dependia do trabalho praticamente escravo que era imposto aos trabalhadores chineses. Mas o filho de lady Randolph não deixou de reconhecer e trabalhar para chegar a uma solução que ele mesmo apontava como desumana. A respeito desse assunto, o então subsecretário para as colônias relatava as precárias condições que viviam os chineses: “Trabalhavam dez horas por dia, seis dias por semana […] moravam em alojamentos em volta das minas, dos quais eram proibidos de sair sem passes de quarenta e oito horas, raramente concedidos. Não podiam montar qualquer negócio, ter qualquer propriedade ou entrar na justiça”. Ações dessa natureza revelam o pulsar do espírito de um homem realmente público compromissado com a solução de fato de um problema social. Não tardaria a ascensão de Churchill em postos de maior visibilidade no governo do político inglês de maior expressão da época: Herbert Henry Asquith, então, primeiro-ministro, convidou-o para ser o ministro do Comércio. Como titular dessa pasta, o pulsar do estadista se evidenciava mais uma vez. O jovem Winston seria, como relata Roy Jenkins, um dos responsáveis pela “formulação da política social que foi peça central no Novo Liberalismo, em contraste com a velha tradição gladstoniana [ex-primeiro-ministro inglês] de não interferência em assuntos da ‘condição do povo’”. “Para Churchill sempre importaram muito as famílias humildes e os lares pobres.” Churchill foi keynesiano antes de Keynes. Com ele, o Estado do Bem-Estar Social ganharia forma na terra de Shakespeare.

Churchill deixou a condição de homem solteiro a partir do momento em que conheceu Clementine, cuja mãe debita-se a mesma condição libertina de lady Randolph. A respeito dela, conta-nos sua própria neta em seus escritos relatados por Roy Jenkins: “Sem dúvida, Blanche Hozier [a avó] era promíscua; e na época em que o marido ameaçava divorciar-se dela, a voz corrente era que ela tinha pelo menos nove amantes”. O interessante deste enlace entre dois rebentos de duas conhecidas libertinas da elite inglesa se consolidou no elevado nível de fidelidade e companheirismo que permeou essa relação durante a vida inteira. Churchill encontrou em Clementine a sua cara-metade.

Novos desafios se colocariam no caminho do marido de Clementine em um novo cargo de expressão: o Ministério do Interior. E mais uma vez Churchill encarou os problemas da pasta com a grandeza típica de um homem de Estado. Estes eram vários: reforma penitenciária, a lei de imigração e naturalização, drogas. Creio ser oportuno reproduzir, neste espaço, a resposta que ele deu a um deputado conservador Tory no momento em que comutou a sentença de sete jovens que se encontravam na prisão por motivos tolos (bêbados, devedores): “Porque desejei chamar a atenção do país para o mal de 7.000 rapazes das classes mais pobres serem postos nas grades todo ano por delitos pelos quais, se o nobre senhor os tivesse cometido na universidade, não teria passado pelo mais insignificante grau de inconveniência”. Assim foi a postura como subsecretário das colônias, assim, foi nos Ministérios do Comércio e do Interior, assim seria no mais novo desafio que teria pela frente e pelo qual Churchill sempre nutria paixão: a Marinha. Estávamos a três anos da Primeira Guerra Mundial.

Winston Churchill fazendo o  “V de Vitória”, imortalizado por ele em 1943

Winston Churchill fazendo o “V de Vitória”, imortalizado por ele em 1943

Churchill nos tempos da primeira guerra mundial

Se existe algo que foi decisivo para a construção da carreira política de Churchill foi sua obstinada obsessão de tornar a Marinha inglesa grande. Nos três anos de paz que antecederam à Primeira Guerra Mundial, este foi o seu grande foco: modernizar a Marinha. Na condição de Primeiro lord do Almirantado, o marido de Clementine mostrou não ser um homem de gabinetes, mas sim de ação. “Durante seus quase três anos de tempo de paz como primeiro lord ele passou um total de oito meses no iate, visitando cada navio e cada instalação naval, no Mediterrâneo como em águas nacionais”, atesta seu biógrafo. Sua capacidade de prever o futuro se mostrou verdadeira, vez que ele, diferentemente dos seus colegas, anteviu o que de fato aconteceria: a Primeira Guerra Mundial. Certamente, não lhe passava despercebido o enorme poderio da Marinha alemã num possível conflito de dimensões mundiais. Veio daí muito de sua obsessão no sentido de tornar a Marinha inglesa poderosa. “Sua capacidade de trabalho é absolutamente espantosa”, testemunhara um de seus auxiliares diretos. Era ele um homem obcecado por conhecer detalhes operacionais das estratégias. Roy Jenkins nos conta a respeito dessa obsessão: “O quinto obuseiro de 15 polegadas, com cinquenta granadas, deve seguir com a menor demora possível para Dar­da­nelos”, ordenava o primeiro lord do Almirantado. “Os seguintes nove monitores pesados devem seguir sucessivamente para os Dardanelos”, novamente ordenava ele.

Decididamente, Churchill não era um homem dos mais habilidosos no trato com seus colegas de gabinete. Seu estilo ousado e atrevido de ser não deixou de lhe trazer adversários. E estes foram decisivos para sua queda do almirantado nos dois conflitos em que a Marinha foi derrotada no transcorrer da Primeira Guerra Mundial: o da tomada pelos alemães do estratégico porto Belga de Antuérpia e a derrota de Dardanelos na Turquia.

Tudo indicava que o Leão ferido se aposentaria aos 40 anos. Mas aposentar-se não condizia com sua energia, energia essa que se transportava no homem de ação que ele sempre foi. Churchill não teve dúvidas sobre qual rumo deveria tomar: deixar a Marinha e alistar-se no Exército indo para as linhas de combate na França. Posto isso, reproduzo parte de sua carta de despedida enviada ao primeiro-ministro: “Sinto-me capaz, em tempos co­mo estes, de permanecer em inatividade bem-paga. Peço-lhe, portanto, que a­presente minha demissão ao Rei. Sou o­ficial e ponho-me totalmente à disposição das autoridades militares, observando que meu regimento está na França. Tenho uma consciência limpa que me permite assumir com toda compostura minha responsabilidade sobre eventos passados. O tempo há de justificar minha administração no Almi­ran­tado e de atribuir-me a justa parte que me cabe a vasta série de preparações e operações que nos garantiram o completo domínio dos mares. Com muito respeito e amizade pessoal inalterada, apresento-lhe meu adeus”. Os seis meses que o coronel Winston Chur­chill passou no front não o colocaram em real risco de vida. Chegou a comandar um regimento. Um astuto ob­servador da época — A.D. Gibb — assim relatou a presença do marido de Cle­mentine no front: “Nada digo de sua capacidade tática ou estratégica — não foram tes­tadas em nosso tempo, mas não pos­so conceber aquele cérebro, excep­ci­onalmente criativo e fértil, dando errado em qualquer esfera de a­tividade hu­mana a que se aplicasse. A­lém do mais, amava as coisas militares: a vida de soldado estava em seu coração e acho que ele poderia ter sido um grande general. Quantas vezes o ouvimos, em circunstâncias difíceis, a dizer co­­mo encorajamento: ‘a guerra é um jo­­go que se joga sorrindo’. E nun­ca um pre­ceito foi tão praticado. É um ho­­­mem que parece sempre ter inimigos. No seu velho regimento não fez ne­­­nhum, lá deixou homens que sempre se­rão seus partidários e admiradores e que se orgulham de ter servido na Gran­de Guerra sob a liderança de quem é sem dúvida um grande homem”.

Enquanto isso, corria uma vida po­lítica em Londres, da qual o filho de lady Randolph não queria estar distante. Esta era sua verdadeira vocação. Ciente dela veio sua decisão de renunciar ao posto militar para dedicar-se à política em tempo integral. Estava de volta à arena. Voltava o marido de Cle­mentine com o firme propósito de re­tirar aquele obstáculo que aranhava sua reputação e impedia que ele voltasse a rugir: a derrota em Dardanelos.

Uma nova coalizão política — que resultaria na queda do primeiro-ministro Asquith, hostil a Churchill, e a ascensão de Lloyd George, seu amigo de outras jornadas — proporcionaria ao filho de lady Randolph voltar à cena política. O novo primeiro-ministro o nomearia para um novo Ministério: o do Material Bélico. O ministro do Material Bélico não só modernizou a pasta como, atraído pela ação em combate, atravessou várias vezes o Canal da Mancha com objetivo de se mostrar presente na zona de conflito. Churchill era ministro, mas não tão próximo das altas decisões políticas. Isso o incomodava. Não tardaria seu reconhecido trabalho na pasta, aliado à sua história política na terra de Shakespeare e ao fim da Primeira Guerra Mundial, a colocá-lo, novamente, no centro das altas decisões estratégias de seu país. O marido de Clementine seria nomeado ministro da Guerra. O Ministério da Guerra seria, como relata seu biógrafo, “seu sétimo cargo de Estado, e ele tinha apenas quarenta e quatro anos, deu-lhe [o novo cargo] muito melhor chance de olhar para o futuro”.

O homem certo para o lugar certo e na hora certa

Roy Jenkins: mergulho na vida do mais importante político inglês do século 20

Roy Jenkins: mergulho na vida do mais importante político inglês do século 20

A ascensão de Churchill rumo ao Olimpo da política inglesa não se deu por mero acaso. A maneira como o autor da “História dos Povos In­gle­ses” enfrentou os vários obstáculos im­postos a ele numa ambiência de intenso conflito de ideias mostrou que o filho de lord Randolph era um político de maior dimensão que os maiores políticos ingleses de seu tem­po (Lloyd George, Neville Cham­ber­lain, Baldwin, Asquith e, numa época anterior a Churchill, Gladstone).

O marido de Clementine não era decididamente uma raposa no sentido maquiavélico de fazer política. Ao contrário: tinha o espírito combativo do leão que não se incomodava em ganhar inimigos quanto defendia uma causa. Nesses momentos, sua extraordinária oratória se tornava um trator demolidor de posições contrárias às suas. Roy Jenkins revela em seus escritos que “uma de suas grandes virtudes foi jamais deixar o mais horrível fracasso espantá-lo furtivamente para a toca, de bico baixo, com o rabo entre as pernas, incapaz por algum tempo de outra coisa que pensar em suas mágoas e em seu ego batido”.

Nadando contra a maré, Churchill divergia do então primeiro-ministro dos tempos pré-guerra, Neville Chamberlain. Este um árduo defensor de políticas pacifistas; aquele voltou suas energias para defender o armamento da Inglaterra nos tempos de guerra. Churchill enxergava o que a maioria dos políticos ingleses não via: a ascensão da Alemanha de Hitler como ameaça para a segurança inglesa. A evolução da ameaça nazista mostrou que Churchill tinha razão quando defendia o armamento das Forças Armadas. Resultado: atores políticos influentes, a exemplo da poderosa imprensa inglesa, implementaram uma vigorosa campanha exigindo a volta do marido de Clementine ao centro do poder. Nesse sentido, refere seu biógrafo que “no começo de julho, uma onda importante de editoriais de imprensa, inclusive jornais conservadores chaves, como o ‘Daily Telegraph’ e o ‘Daily Mail’, exigia a entrada de Churchill no governo. Houve também uma campanha anônima de cartazes de rua, em 600 pontos da cidade”. Neville Chamberlain resistiu o quanto pôde, mas, naquela altura do processo político inglês, o primeiro-ministro se enfraquecera politicamente ante as demasiadas concessões que fizeram aos alemães em nome de sua bandeira pacifista. Entre essas concessões, vale ressaltar o acordo que o Neville Chamberlain aceitou em nome do equilíbrio da Europa: a entrega da Tchecoslováquia e da Áustria. Os equívocos de sua política de apaziguamento acabaram colocando o homem certo, na hora certa, no epicentro do poder para comandar a nação num terrível acontecimento que estava para explodir e que viria a colocar o marido de Clementine no epicentro da política internacional: a Segunda Guerra Mundial. Resultado: Churchill teve novamente uma breve passagem pelo Almirantado para, em seguida, em tempos de muita turbulência, assumir o cargo que mostraria ao mundo a real grandeza de um estadista: o de primeiro-ministro. Os fatos a partir da chegada do filho de lady Randolph mostraram que não existia naquele momento, em toda a Inglaterra, pessoa mais adequada para comandar o processo político de uma nação em guerra.

O timoneiro no comando de uma nação em guerra

Discurso político coerente e amplamente favorável ao armamento das forças armadas, notável experiência no comando da Marinha, corajosa oratória que não se importava em ganhar adversários e fracasso no conflito da Noruega, que acabou expondo a fragilidade das forças armadas britânicas. Estes foram os principais acontecimentos que levaram o marido de Clementine ao comando político de seu país nos tempos da guerra. Seu biógrafo sintetizou brilhantemente esse momento. Reproduzamos. “Era primeiro-ministro, enfim, aos sessenta e cinco anos, o personagem mais idoso, afora seu antecessor imediato […] fazia também quase quarenta anos que se elegera deputado pela primeira vez. Assumiu nas perigosas cir­cunstâncias em que qualquer primeiro-ministro jamais chegou. E havia perigos políticos, tanto quanto mi­litares. Ele não era a escolha do rei. Não era a escolha do establishment de Whitehall [sede do Governo Bri­tâ­ni­­co], que reagiu com variados graus de desalento à perspectiva de suas alegadas impetuosidades. E não era a es­colha do partido majoritário da Câ­ma­ra dos Comuns. De maneira incipiente, porém, era, ou tornava-se rapidamente, o cavaleiro aceito da nação, aos olhos do público e da im­prensa. A­queles que haviam sido relutantes e receosos inicialmente, desde o So­be­rano a subsecretários permanentes, em pouco tempo estavam convencidos de que ele era indispensável.”

E assim o timoneiro estava no comando da nação no mais sanguinário conflito armado do século 20: a Segunda Guerra Mundial. Seus parceiros no tabuleiro de xadrez da guerra foram outros dois líderes que dividiram com ele o comando dos cordéis que daria no pós-guerra uma nova divisão geopolítica do mundo ocidental Joseph Stálin, presidente da Rússia, e Franklin Delano Roosevelt, então, presidente dos Estados Unidos. O adversário mostrou ser um dos mais sanguinários líderes registrados pela história: Adolf Hitler.cul6

Antes de seguirmos em frente, apenas uma observação: não é minha intenção evidenciar todos os acontecimentos em que a figura de Churchill se agigantou no patamar de um dos maiores estadistas do mundo nos turbulentos anos da Segunda Guerra Mundial. Não teríamos espaço para isso. Pinço de sua excelente biografia apenas alguns episódios que nos ajudarão a entender a dimensão de um grande homem que sempre colocou o interesse público acima de tudo.

Até a eclosão do grande conflito, Churchill se ombreava com grandes homens que, como ele, participavam ativamente da política interna da In­gla­terra. O conflito que uniu Estados Uni­dos, Rússia e Inglaterra colocou o marido de Clementine no epicentro de acontecimentos que exigiram dele não só liderar seu país em tempos turbulentos, mas reconstruir — junto com Stálin e Ro­osevelt — as fronteiras do mundo o­cidental. Posto isso, evidenciemos alguns episódios destacados por Roy Jenkins.

A evacuação de Dunquerque. Um líder percebe os momentos certos em que se deve avançar ou recuar. Dun­quer­que significou a volta de aproximadamente um quarto de milhão de homens sãos e salvos. Avançar seria te­meroso. A liderança de Churchill percebeu a hesitação de Hitler. Os custos do avanço seriam maiores que os do recuo. “Foi o primeiro triunfo, ainda que negativo, de Churchill primeiro-ministro”, relata seu biógrafo para mais adiante acrescentar que o sucesso de Dun­querque “reforçou muito sua autoconfiança”. Pouparam-se milhares de vidas que certamente entrariam numa enrascada ante o poderio do exército alemão. Mas “guerras não se vencem com evacuações”. Churchill não só dizia, mas sentia isso no seu coração de soldado.

Nações conhecem a dimensão de seus líderes nos momentos de dificuldades. O bombardeio de Londres pelos alemães foi sem dúvida um desses momentos. A situação se tornou mais grave ainda ante o fato de que, naquele momento de grande turbulência, os Estados Unidos ainda não tinham entrado na guerra. A Inglaterra estava só perante o poderio dos alemães.

Para manter o moral elevado, Chur­­chill fez constantes visitas aos locais bom­bardeados. Assim descreve seu biógrafo a maneira como o leão britânico agia nessas situações: “Ele tinha o dom da emoção comunicável. Quando seus olhos se encheram de lágrimas, em oito de setembro, numa cena de horrível carnificina, uma moradora do local bombardeado exclamou: ‘veja, ele está desesperado’ e a multidão explodiu em aplausos espontâneos”. Aquela senhora explicitava assim o sentimento de toda uma nação que se sentia amparada ante a catástrofe.

Churchill não era um homem de gabinetes. Gostava de viajar e manter-se presente junto a seus comandados. Se existe uma característica que exprime o estilo da liderança de Churchill, essa se evidencia na sua constante preocupação com detalhes. Roy Jenkins enfatiza em seus escritos essa preocupação: “Estava [Churchill] constantemente tomando iniciativa, perguntando por que motivo programas não se cumpriam, por que havia tanta gente nos quartéis-generais, por que o número de aviões que iam para as frentes era menor que o número fabricado, por que o desenho dos carros de combate mudava a toda hora, impedindo a produção em massa, por que o Almirantado não percebia que a Inglaterra precisava de navios bons logo, em vez de navios perfeitos que só ficariam prontos quando a guerra acabasse, e caindo sobre pequenos casos de burocracia tola que encontrava em sua leitura voraz de jornais”. Churchill cobrava resultados de todos, até de ministros mais chegados a ele, como era o caso do ministro da Guerra e o da Aviação.

A partir de 1941, com a entrada da Rússia e dos Estados Unidos, a guerra passaria, naquele momento, a ser comandada pelo triunvirato — Roosevelt, Stálin e Churchill. Na condição de viajante incansável, Churchill se deslocava constantemente para se encontrar com o líder russo (que não gostava de sair da Rússia) e o líder americano, cuja paralisia era um empecilho para constantes deslocamentos. Vale ressaltar que a junção dos três grandes foi o resultante principalmente de dois acontecimentos: a invasão alemã à Rússia e o ataque à base naval norte-americana de Pearl Harbor. No tabuleiro da guerra, Hitler invadiu a Rússia, e Churchill, um ferrenho anticomunista, não teve dúvidas de manifestar a quem apoiava. “Qualquer ho­mem, ou Estado, que lute contra o do­mí­nio nazista terá nossa ajuda. Qual­quer homem, ou Estado, que marche com Hitler é nosso inimigo. A consequência lógica, portanto, é que daremos toda ajuda que for possível à Rús­sia e ao povo Russo.” Enfatiza seu bi­ó­grafo a respeito do modo decidido e corajoso com que Churchill se posici­o­nava no tocante a situaçõe

 

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.