Veredas – poesia goiana

poema de Estevão F. Santos*

Foto: Estevão F. Santos / Arquivo Pessoal

Travessia está aí,
pronta e sempre,
sua longa senda, apenas;
sua reputação malfazeja,
e de fazer viver sua
passagem forçosa.
Travessia está aí,
como cobra por
dar o bote.
À espera de
ser vivida.

Há veredas e atalhos, por aí,
errando-se em brenhas de
prometimentos incertos,
de expectativas alegadas
e engodos da jornada.
E há os caminhos estreitos
que deslizam mais adiante,
nas imprecisões de porvires
indecisos, flexuosos,
desconhecidos,
em suas curvas sepultando
apenas o que há
de mais vil e sublime
na vastidão dessa existência.

À promessa alguma
hei de me entregar!
Não há nada que o
destino dite;
não há percurso
certo a se tomar.
Que de mim teria sido,
nessa vida viajora,
se tivesse outorgado
esperança
às certezas
de segurança?

E eu, sozinho, 
bem vejo nos matos tudo 
o que hão de condenar.
Quando impiedosa
vier a seca chegar,
as árvores não tardarão 
a se desfolhar
— sabem lá elas os males
que a estiagem trará…
Mas, no alto de
solene resignação,
irrompem todas as árvores
na mais esbanjante florada.
Ipê, barriguda, quaresmeira,
luzindo na invernia dourada.
E mesmo nos dias mais
malfadados de todo o ano,
estão ali a vibrar,
no lançar de suas cores.

E disso há uma lição, apenas,
sabendo que a vida é coisa
de pura visão –
em travessia há sempre
aquilo a se temer, sim;
o caminho certo, porém,
só pode ser o das árvores:
achar os meios, traquejos,
negacear de jeito e outro,
e seguir rebentando na
mais ostensiva florada.

Como é cruel essa dubiez!
Mas sinto, então, que mais vale é
correr os riscos do mistério
e das curvas incertas,
que conceber ilusões de
intrujices, mentiras,
nos caminhos
ditos certos.
E agora eis-me todo
entregue aos caminhos –
vou trilhando as veredas, assim.
Deixei que me levassem, enfim.

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