Vencedora do Jabuti, Carol Rodrigues: “A literatura traz a aceitação da estranheza das coisas”

Fruto de uma oficina de criação literária ministrada por Marcelino Freire, primeiro livro da carioca foi muito bem recebido pela crítica nacional

Em 2013, Carol Rodrigues ganhou o prêmio Sesc DF de Contos Machado de Assis e, agora, vence o prêmio literário mais importante do país, o Jabuti | Gabriela Barreto

Em 2013, Carol Rodrigues ganhou o prêmio Sesc DF de Contos Machado de Assis e, agora, vence o prêmio literário mais importante do país, o Jabuti | Gabriela Barreto

“E eu vou ficar aqui, às escuras, até não sei que hora. Até que, morto de fadiga, encoste a cabeça à mesa e descanse uns minutos” — Graciliano Ramos

Yago Rodrigues Alvim

Carioca, Carol Rodrigues vive hoje em São Paulo. Aos 30 anos, lançou seu primeiro livro com honrarias. Pela obra “Sem Vista para o Mar” (Edith, 2014), ganhou os prêmios da Biblioteca Nacional e, mais recentemente, o Jabuti 2015, ambos na categoria Contos e Crônicas. Seus 21 contos inovam pela sonoridade e fuga, seja da gramática ou da solidão humana.

O livro foi publicado graças ao incentivo do escritor pernambucano radicado também em Sampa Marcelino Freire, com o qual cursara uma oficina de criação literária, intitulada “Quebras” — projeto de Marcelino e Jorge Filholini do Centro Cultural B_arco.

Carol debruçara-se sobre enredos, laborara em personagens. Foi o que aprendeu com Marcelino, idealizador da Balada Literária, festival em que a obra foi lançada, ainda nos derradeiros meses de 2014. O livro é bem fininho — diz ela. Pequenino, foge ao tamanho padrão e traz o melhor da contista-cineasta, que estudara também em Amsterdã. Atualmente, se dedica à área de produção no Itaú Cultural.

Mesmo tendo publicado sua primeira obra há pouco, Carol já trabalha em segundo livro, um alívio aos que já, ansiosos, aguardam mais da escritora.

Quando começou esta sua afeição pela literatura? Quando se viu neste caminho?
Comecei cedo. Estudei em um colégio de São José dos Campos (SP) que tinha um estímulo bem grande à literatura. Realizavam festival de poesia, de teatro e eu participava sempre, desde a adolescência. Foi algo bem importante. Depois disso, fiz faculdade de Imagem e Som, na Uni­versidade de São Carlos. Eu queria escrever roteiros e acabei mudando o caminho. Agora, trabalho como produtora no Itaú Cultural.
Levei a sério, a literatura, quando fiz a oficina de Marcelino Freire, em 2013. Antes, era mais hobby, uma atividade paralela. Mas, quando fiz a oficina, ele me deu tanto estímulo e era tão empolgado, maravilhoso com aquilo, que me lembro do dia em que me falou que eu era uma escritora pronta. Voltei para casa chorando. Foi incrível.

O livro foi fruto da oficina, de um concurso realizado pelo Marcelino? Conte um pouquinho desta história.
Ele é peça-chave. Fez um concurso com os ex-alunos do B_arco, em São Paulo. Foi um concurso, então, no começo de 2014. Tínhamos que apresentar um projeto, uma ideia formatada para um livro e existiam algumas etapas, cujo vencedor seria publicado pela Edith, que é do Vanderley Mendonça, um parceiro de Marcelino em vários projetos. Era meio sério e meio brincadeira, ficávamos super nervosos para apresentar, mas, ao mesmo tempo, estávamos entre amigos. Foi interessante e acabou dando certo (risos). Eu nem acreditei, pois os outros finalistas eram muito bons. Não estava esperando mesmo. Deu certo e eu tive seis, sete meses para terminar o livro, o que foi fundamental, senão eu estaria enrolando até agora, com certeza.

Quanto ao livro “Sem Vista para o Mar”, como ele começou? Qual foi seu processo de escrita?
Eu comecei a pesquisar linguagem, antes de começar a contar histórias. Me lembro dos primeiros trechos da oficina, que não tinham enredo, eram só um fluxo de linguagem. Marcelino me cutucava muito em relação a isso. “Muito legal, mas temos que aprender a con­tar histórias, afinal estamos aqui para isso.” Então, eu comecei a me forçar mesmo, a ficar mais longamente em cada texto, a desenvolver enredo e a desenvolver personagem. Esse livro foi de um momento de aprender a contar história.
Começou em uma viagem que eu fiz a Presidente Prudente (SP), fiquei hospedada em um hotelzinho de beira de estrada. Fui mesmo para ter uma inspiração de estrada, para ficar neste universo de caminhoneiros, ouvindo conversas e todas as histórias do livro são relacionadas a isso: a estrada, as histórias que vão se fragmentando pelos lugares. O subtítulo é “Contos de Fuga”, pois todos os contos têm este vetor de deslocamento.

Como é isto da sonoridade das palavras, dos nomes de lugares que compõem o livro?
Ele é bem focado no som dos nomes de cidades. As histórias vieram daí. Eu os vi no caminho para Presidente Prudente, nas placas da rodovia e fui anotando. O livro é totalmente guiado pelo som; a pontuação também é guiada por um som que eu imagino e que nem sei como cada leitor percebe isso.

“Sem Vista para o Mar” tem uma mensagem?
Boa pergunta. Eu não saberia dizer… Sempre penso na estranheza das coisas, dos assuntos e, para mim, o que a literatura traz é a aceitação dessa estranheza. A aceitação pode ser uma coisa potente a ser trazida para a vida. Não sei, é algo que eu vejo.

Parece que existe uma solidão na obra.
Uma solidão? Com certeza. Solidão é fundamental. São pessoas sozinhas. São trajetórias individuais. A fuga é solitária. Quando você foge, você está sozinho e leva apenas você mesmo. É um pouco sobre isso também.

Já existe uma segunda obra a caminho, até mesmo já intitulada. Conta um pouco sobre “Os Maus Modos”. Quando poderemos lê-lo?
Eu o estou finalizando e é um momento bem crítico. Eu senti isso com o primeiro livro e estou sentindo isso agora também, que é decidir a ordem de cada conto. Dá um pouco de raiva de livros de conto, pois as pessoas os leem aleatoriamente e nós pensamos em uma ordem. Então, estou neste processo de pensar na ordem, de pensar nos títulos, na finalização mesmo. É uma parte bem dolorida e demorada também; estou enrolando bastante (risos).
Eu não fechei ainda uma editora certa, estou conversando com uma que eu gosto bastante e é bem provável que saia no primeiro semestre de 2016. As histórias têm esta coisa da estranheza que falei, só que mais radical. É tudo mais estranho. Estou lendo muito Cortázar e fico muito influenciada pela estranheza dele e de outros contistas também. Estou caminhando para um universo que tangencia mais isso e para um pouquinho do realismo fantástico também. Está mais esquisito.
Esse segundo tem menos do som. Es­tou com mais fo­co na história. O primeiro li­vro foi bem conduzido pela so­noridade; agora estou pensando mais na história. En­gatei no enredo. Estou nesta missão.

Quanto à inventividade que você traz, no livro, co­mo muitas frases sem vír­gulas, pontos, coisas que fogem à gramática nor­mativa, algo que pede li­cença por ser maior, seja pela história ou pelo perso­nagem. Como você a percebe isso na literatura?
É incrível e, com certeza, é uma característica contemporânea. Não que seja regra, pois não existe regra. E a internet e o cinema têm muita influência nisso. Desde cedo, aprendemos que a montagem designa um tipo de tempo no filme em que não existe um tempo que seja “o correto”. Eu tive bastante influência disso. Mas é muito legal experimentar e também estou lendo bastante coisa neste sentido. Acho que é bem contemporâneo.

Em 2013, a escritora canadense Alice Munro ganhou o Nobel pelo livro de contos “A Fugitiva”. Nos últimos anos, o gênero tem ganhado mais destaque, tem sido mais valorizado? Como você percebe isso no Brasil?
Eu amo conto; é o que eu pesquiso, o que eu gosto, o gênero que tem mais a ver comigo. O meu editor, uma figura, me disse “Oh, Carol, você gosta de conto, então se mude para Argentina, pois no Brasil não tem muita vez” e, realmente, em outros lugares o conto é mais valorizado. Na Argentina mesmo é muito mais valorizado; no Canadá também, como você citou. A Alice é uma gênia do conto, eu gosto muito dela. Também leio muito os norte-americanos, como Raymond Carver. Acho que eles têm uma tradição de conto mais valorizada. Aqui, no Brasil, nós temos contistas incríveis, o que falta é constituir essa tradição, este olhar para as narrativas pequenas.

Em 124 páginas, os 21 contos de Carol falam da fuga, da solidão do homem. As palavras, ali, brincam com suas sonoridades e composições | Divulgação

Em 124 páginas, os 21 contos de Carol falam da fuga, da solidão do homem. As palavras, ali, brincam com suas sonoridades e composições | Divulgação

Muitos escritores brasileiros contemporâneos não são traduzidos para o exterior. Eles estão isolados? Não visam outro mercado?
A ponte do Brasil é mais forte com a Europa, que com a América Latina. No Itaú Cultural, nós temos um projeto; chama-se “Conexões” e estuda a presença da Literatura Brasileira no exterior. Nós mapeamos escritores, tradutores, editores, pesquisadores e agentes e, realmente, a presença na Europa é muito mais consistente do que nos países vizinhos. Tem muita gente sendo traduzida, mas são em alguns pontos estratégicos, poucos países e não necessariamente aqui do lado.

Você vê alguma solução?
Alguns pesquisadores que vêm aqui, no Itaú, falam da importância de construir um “Instituto Macha­do de Assis”, como a Alemanha tem o Instituto Goethe; um lugar que pudesse difundir a cultura literária brasileira de um jeito mais impactante. Eu gosto desta resposta, seria um bom começo.

A crítica te aponta como uma “escritora jovem”. Como vê isso?
Existe um pouco de fetiche nisso. ­O fetiche do jovem. “Nossa! É tão novinho e já está escrevendo”. Para mim, é um pouco problemático isso, porque deixa tanta gente de fora e, às vezes, você vê uma pessoa que começa a escrever com cinquenta ou sessenta anos e ela já se vê fora de qualquer possibilidade, afinal está fora deste escopo da juventude. Existe um interesse midiático e um otimismo, certa utopia de que os jovens sempre trazem coisa nova, mas é preciso ampliar este campo da estreia, pois existe possibilidades em todas as idades.
A bielorrussa Svetlana Alexievich ganhou o Nobel de 2015 e levantou uma polêmica: a questão da literatura de não-ficção. Quando se pensa em não-ficção, vem à mente o jornalismo, em algo documental e não exatamente em literatura.

Pensando nisso, o que seria literatura para você?
Nossa, que difícil (risos). Eu gosto de todos estes gêneros “não-ficção”, “auto-ficção” e existem vários desdobramentos disso agora. Mas eu sou partidária da invenção. No meu caso, gosto mais de sair do real. Eu gosto mais, me divirto mais, e leio mais também. Mas é uma questão pessoal, não define um momento mais amplo.

Antes, primeiro algo saía do papel para ir à tevê, para o vídeo. Atualmente, parece q­ue existe uma transposição contrária, do cinema para os livros. Você concorda?
Talvez no sentido de influência, referências. No sentido mais comercial, está acontecendo isso. Vejo blogueiros adolescentes levando conteúdo de blogs, dos vídeos, para livros. Existe tal fenômeno no mercado editorial, mas, pensando em literatura como uma coisa mais de invenção, talvez no sentido de referências, linguagem, com certeza influencia bastante, mas não sei se existe exatamente uma “transposição de conteúdo”. Vejo isso mais no mercado, nos conteúdos comerciais.

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