“A utilidade da arte é alimentar o nosso espírito”

Um dos mais destacados compositores eruditos da atualidade, o barítono Fernando Cupertino fala sobre o concerto em homenagem ao pianista e professor Osvaldo Lacerda que acontecerá este mês em São Paulo

Fernando Cupertino: vice-presidente do Centro de Música Brasileira | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Fernando Cupertino: vice-presidente do Centro de Música Brasileira | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Barítono e compositor, com atuação destacada no duo Terra Brasilis, que integra com a pianista Consuelo Quireze, Fernando Cu­pertino é médico por formação e vi­ce-presidente do Centro de Música Bra­sileira. Em entrevista ao Jornal Opção, o compositor fala sobre o concerto em homenagem ao pianista Osvaldo Lacerda, um dos grandes expoentes da música erudita mundial, que acontecerá em São Paulo, no sábado, 20. Fernando Cu­per­tino também traça um panorama da música erudita atual, fala de pre­ferências, de sua relação com os clássicos da poesia brasileira, e sobre fronteira que separa o erudito do po­pular. Participam da entrevista os escritores Paulo Lima e J.C. Gui­ma­rães, e o jornalista Carlos Willian Leite.

Carlos Willian Leite — No sábado, 20, o sr. e a pianista Consuelo Quireze realizam no Centro de Música Brasileira, em São Paulo, um concerto em homenagem ao compositor Osvaldo Lacerda. Qual o programação do concerto?
O evento, que é o concerto de número 300 sob os auspícios do Centro de Música Brasileira, pretende marcar esse acontecimento com uma homenagem especial ao compositor e professor Osvaldo La­cerda, com quem estudei Com­posição, de 2005 a 2011, ano de seu falecimento. Haverá um programa em duas partes. Na primeira, estamos nós do Duo Terra Bra­silis, composto pela pianista Con­suelo Quireze e por mim, na qualidade de barítono e de compositor. Na segunda, o grupo instrumental Aum, formado por Ar­lete Tironi Gordilho, piano, Li­liana Bertolini, flauta, Hélcio de La­torre, flauta e flautim, Gilson Bar­bosa, oboé e corne inglês, Clóvis Camargo e Nath Calan, per­cussão. O Centro de Música Bra­sileira foi fundado em São Pau­lo em 18 de dezembro de 1984 e iniciou suas atividades em 1985. Já realizou 299 apresentações em São Paulo, e um total de 47 em cidades do interior dos Es­ta­dos de São Paulo e Minas Ge­rais. Atualmente é presidido pela pianista Eudóxia de Barros, que me tem como seu vice-presidente.

Carlos Willian Leite — Qual a importância de Osvaldo Lacerda para a música brasileira?
Há que se enxergar Osvaldo Lacerda nessas duas dimensões que motivam a homenagem que lhe será prestada, no dia 20 de setembro: a do compositor e a do professor. Na primeira, é preciso destacar o profundo compromisso de Lacerda com o Brasil, com a cultura brasileira em todas as suas formas e manifestações. Sua afinidade com o tema foi, em grande medida, influenciada por seu professor Camargo Guarnieri, e construída pela leitura de Mário de Andrade, Oneyda Alvarenga, Luciano Gallet e outros estudiosos da alma brasileira e das manifestações artísticas genuinamente nacionais. Além disso, Lacerda foi um grande professor, não apenas de Análise formal e Composição, mas um professor de cultura brasileira. Formou alunos e discípulos, incutindo neles o interesse em buscar a criação de uma música de caráter nacional, escrita com o rigor da melhor técnica composicional. Chamam atenção em sua vasta obra as canções de câmara, gênero que desenvolveu como poucos e que ocupa o maior percentual no conjunto de sua produção como compositor.

J. C. Guimarães — Em literatura costuma-se perguntar que autor os críticos levariam para uma ilha deserta. Se lhe fosse dirigida uma pergunta semelhante, que compositor mereceria tamanha deferência do senhor, e por que motivo?
Eis aí uma pergunta que o professor Lacerda me fez, numa das primeiras aulas que tive com ele. Na verdade, de uma forma ligeiramente diferente, pois ele foi ainda mais rigoroso. Perguntou quais as três peças que eu levaria para uma ilha deserta. Curiosamente, minha escolha coincidiu com a dele em duas delas: o “Réquiem”, do francês Gabriel Fauré, pela simples razão de que, além da beleza da obra e de sua escrita tão primorosa, ele não tem um caráter funéreo, aterrorizante, mas nos dá uma dimensão de conforto para os que ficam; e a “Canção Sertaneja”, do paulista Camargo Guarnieri, pelo perfeito retrato que faz da simplicidade e do jeito de ser do brasileiro do interior. A outra obra que à época escolhi foi a “Consolação no. 3”, de Liszt, cuja beleza da melodia é algo transcendental. Depois disso, porém, agreguei outras obras que me encantam por diferentes razões, como a peça coral do próprio Lacerda, que se chama “Ofulu Lorerê”, de uma beleza extraordinária; as canções do argentino Carlos Guastavino, pelo lirismo e finesse de suas construções; as “Valsas de Esquina”, de Francisco Mignone, assim como o prelúdio da “Bachiana Brasileira no. 4”, de Villa-Lobos, ambas de uma beleza indescritível!

Carlos Willian Leite — Em suas composições, o sr. trabalha, sobretudo, com poetas representativos do século 20, como Manuel Bandeira, Olavo Bilac, Alphonsus de Guimaraens, Cecília Meireles e Cora Coralina. Os novos poetas brasileiros não lhe agradam? Existe uma crise criativa na poesia brasileira atual?
Gosto muito também dos poemas de Ferreira Gullar, dos quais musiquei dois. Costumo dizer que, para mim, há uma música escondida em certos poemas, cuja descoberta o compositor deve fazer, de modo a mostrá-la a todos. Infelizmente, não tenho conseguido fazer tal identificação em muitos dos poetas contemporâneos, talvez por não ter tido ainda o necessário empenho nessa busca, porém a falta de ritmo na construção poética atual talvez seja o que mais me impeça de ter por eles qualquer simpatia.

Duo Terra Brasilis: contribuição à música brasileira de concerto com apresentações em países como Canadá, França e Portugal

Duo Terra Brasilis: contribuição à música brasileira de concerto com apresentações em países como Canadá, França e Portugal

J. C. Guimarães — Numa entrevista que concedeu ao Jornal Opção em 2013, o senhor se refere textualmente a uma “elite de iletrados”, insensível para os valores estéticos, como a música erudita. O senhor está convencido de que este é um fenômeno do nosso tempo e não de toda a história da arte?
Na verdade o que mais me impressiona é o fato de que as pessoas parecem ter perdido a curiosidade em aprender, em conhecer as coisas. Não é diferente com a arte. Isso, para mim, guarda uma estreita relação com o déficit de instrução das pessoas na atualidade. E não apenas de instrução no sentido de se deter um determinado volume de conhecimentos, de se apropriar de informações, mas sobretudo na dimensão de se dar a devida importância a valores de humanidade, de solidariedade, de ideais, de objetivos de vida. É o preço, talvez, de se viver numa sociedade extremamente consumista, individualista e capitalista na dimensão de seu pior significado: o da valoração do ter em lugar do ser.

J. C. Guimarães — Dizem que a arte não é útil, mas é sabido que a música de Wagner efetivamente foi utilizada pelos nazistas. Goebbels se interessou particularmente pela “Cavalgada das Valquírias” e utilizou a obra para os fins propagandísticos do regime. Goebbels estava errado ou, de fato, a música (a arte em geral) é capaz de inspirar ideias e atitudes?
A utilidade da arte é alimentar o nosso espírito, nossa sensibilidade. Assim, acredito que a música, especialmente, pode inspirar ideias, atitudes, pode amplificar emoções e sentimentos. O uso da música no cinema não tem essa intenção? Façamos a experiência de retirar o som de uma bela cena de amor, ou de suspense… A diferença é notável! No uso litúrgico, a música não deveria prestar-se ao papel de criar um ambiente de recolhimento, favorecendo assim a oração e a comunhão com Deus? É certo, infelizmente, que dada a má qualidade da música litúrgica católica no Brasil de hoje, ela sirva muito mais para afugentar do que para congregar.

Carlos Willian Leite — É possível delimitar a fronteira que separa a música erudita da música popular?
Acho que a diferença que deve ser permanente estabelecida é aquela entre a música de boa qualidade e a de má qualidade. As duas coisas existem tanto no campo erudito, quanto no popular. Os compositores sérios, sejam eruditos ou populares, têm a preocupação em ser autênticos, fiéis às raízes culturais de onde vêm. O resto é música para ganhar dinheiro fácil, explorando a mediocridade acrítica e iletrada que grassa por aí.

Paulo Lima — Recentemente o sr. afirmou que vivemos “um processo de progressivo embrutecimento, de modo que nossas vidas passam a assumir uma conformidade com os interesses ditados pelo mercado”. O caminho para reverter esse processo seria popularizar a música erudita, levando-a à condição de um “produto de mercado”, ou devemos insistir no longo prazo, lastreada num investimento constante em educação?
Tenho muito medo dessas soluções mágicas de “popularização”, pois corremos o risco de ver a repetição de certas coisas que vêm acontecendo na vida brasileira. Se não há alunos com conhecimento suficiente para serem aprovados em certos exames, por exemplo, então baixa-se o nível de exigência e, assim, resolve-se o problema. Essa foi a lógica defendida por aqueles que reclamavam que os exames para a revalidação dos diplomas de médicos estrangeiros tinha um nível muito elevado… Então, baixa-se o nível e todo mundo será aprovado e teremos a instauração do paraíso… Ridículo! Creio, portanto, na educação como força motriz capaz de gerar progresso e uma sociedade melhor, capaz de cultivar as coisas do espírito e não como algo condenado a ser escravo do materialismo idiota e desumano.

Carlos Willian Leite — Qual um panorama da música erudita brasileira atual?
O Brasil tem ótimos músicos, mas carece de uma política mais vigorosa de apoio à música erudita. Basta ver o volume de recursos públicos destinados à música erudita, quando comparado ao que se gasta com a música popular. Nada contra esta última, mas a questão é que os governos em geral não cumprem o papel indutor que deles se espera. Preferem nadar a favor da correnteza, numa demonstração inequívoca de pobreza de espírito, mas de prováveis e desejáveis dividendos eleitorais.

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