Umberto Eco, um mestre de vários campos

“Dédalo da contemporaneidade”, o italiano é autor de diversas obras, ensaios e artigos, sendo considerado um dos intelectuais mais cultos do mundo

Filho de família burguesa, o filósofo e romancista Umberto Eco  faleceu no dia 19 de fevereiro de 2016

Filho de família burguesa, o filósofo e romancista Umberto Eco faleceu no dia 19 de fevereiro de 2016 | Foto: Reprodução

 

Edgar Welzel
De Stuttgart, Alemanha

Dédalo, conhecido também por Daedalo ou Dédalus, é o personagem da mitologia grega que construiu um par de asas com penas de aves para si e para seu filho Ícaro, fixando-as com cera. Por isso, as asas derreteram ante ao calor do sol. Ícaro caiu e morreu afogado no mar. Este é, com certeza, o detalhe mais conhecido sobre o antigo grego.

Menos conhecido é que este mesmo Dédalo foi renomado escultor e arquiteto, cujas obras eram admiradas além das fronteiras da Grécia. As estátuas de seus antecessores tinham olhos cerrados e rijos braços perpendiculares presos ao corpo. Dédalo foi o primeiro a esculpir estátuas com olhos abertos, braços estendidos ou erguidos, inclinados, curvados em ângulo e não mais rentes e presos ao corpo; os pés em posição de movimento. Introduziu a leveza escultural. Um verdadeiro mestre em vários campos.

Dédalo, tio e professor de um jo­vem com muito talento, era ciumento — anomalia emocional que o transformou em assassino. Matou o sobrinho por temer que este o ultrapassasse em competência e renome. Dédalo teve que fugir. Vagou pelo mundo e enfim foi parar em Creta, onde se tornou amigo do rei Minos, que andava às voltas com o Minotauro, um monstro parte touro e parte homem.

Minos, reconhecendo as qualidades profissionais de Dédalo, encarregou-o de construir um labirinto para prender Minotauro. Diz-se que o labirinto era tão intricado, que mesmo o próprio Dédalo, seu criador, teve dificuldades em encontrar a saída ao percorrê-lo pela primeira vez.

Deixemos o personagem da antiguidade grega para nos reportar a outro de nossos dias que, curiosamente, parece ter tido um vínculo direto com o anterior. Encontramo-nos na Itália da década de 1970. O jornal “Il Manifesto” de Roma, diário da esquerda italiana, tinha, na época, uma coluna cujo autor assinava com o pseudônimo “Dédalus”. Só poucos sabiam quem se escondia atrás desse pseudônimo e que, em verdade, não tinha motivo algum para disfarçar-se.

O Dédalus do “Il Manifesto” morreu em 19 de fevereiro de 2016, em Milão. Seu verdadeiro nome: Umberto Eco, um dos intelectuais de conhecimentos mais amplos e profundos de nossa época. Uma pesquisa realizada em 2005 pela revista britânica “Prospect” sobre as pessoas mais cul­tas do mundo revelou a seguinte clas­­sificação: 1° lugar Noam Chomsky, 2° Umberto Eco, 3° Richard Dawkins.

Tais pesquisas obviamente não podem ser levadas a sério. Mesmo assim, repetem-se na mídia de tempos em tempos com distintos resultados. Poucos meses antes da morte de Eco, por exemplo, a questão voltou à tona. Entre vários candidatos, sobraram dois: o papa emérito Bento XVI e Umberto Eco. A resposta, no entanto, ficou indecisa, pois ambos foram considerados intelectuais de peso. Por terem estudos e biografias completamente diferentes, seus campos de conhecimento às vezes eram antagônicos, outras vezes se cruzavam ou entrecruzavam e, não raro, concordavam.

Eco era filósofo, professor, se­mi­ólogo, escritor, linguista, colunista, ensaísta, crítico de arte, bibliófilo, en­fim, um multitalento como o Dé­dalo da antiga Grécia: um mestre em vários campos. Não é exagero afirmar que Eco foi um cientista. A­crescente-se, um cientista raro, ú­nico que viveu em um mundo, o seu mundo, aquele que ele próprio criou.

Eco foi, antes de tudo, um estudioso incansável com uma capacidade apreciável de memorização de tudo quanto lia. Colecionava livros antigos que se abarrotavam nos corredores de seu amplo apartamento em Milão e em sua casa de campo nas imediações de Rimini, um antigo mosteiro com 40 cômodos também abarrotados de livros, entre os quais muitos volumes raros e valiosos. Uma de suas áreas de pesquisa foi a Idade Média. Sobre ela disse: “Conheço muito bem a época da Idade Média. A de hoje eu só conheço através da televisão”.

Filho de uma família burguesa, Eco nasceu em 1932 em Ales­sandria (grafia italiana) na região do Piemonte, cuja capital é Turim, norte da Itália, junto à fronteira de França e Suíça. Passou a juventude naquela região, que o influenciou profundamente, tanto que várias personagens que conheceu encontram-se retratadas em suas obras literárias. O avô era tipógrafo. Ao aposentar-se, passou a encadernar livros. Tinha algumas vitrines com livros no subsolo de sua casa. Foi aí que o jovem Eco começou a “devorar” Júlio Verne, Charles Darwin, Marco Polo.

O pai, um contabilista, quis que o filho estudasse Direito. Eco optou por inscrever-se em Filosofia e História da Literatura na Uni­versidade de Turim, a segunda cidade que o influenciou. Doutorou-se em 1954, aos 22 anos, com uma dissertação sobre “A estética em Tomás de Aquino”.

A Milão dos anos 1950, capital da Lombardia, já era uma cidade vi­bran­te e despontava como o centro cultural da Itália. Homens como os compositores Luciano Berio (1925-2003) e Bruno Maderna (1920-1973), o teatrólogo Giorgio Strehler (1921-1997), Dario Fo, laureado com o No­bel de Literatura em 1997, Giangia­co­mo Feltrinelli, fundador da Editora Fel­trinelli, o compositor Nino Rota e outros lideravam a vida cultural da cidade.

Eco chegou a Milão em 1954. Encontrou neste ambiente fervilhante um campo ideal para suas ambições intelectuais. Trabalhou inicialmente na Redação de Cultura da Radiotele­vi­sione italiana S.p.A. (hoje Rai TV), que dava seus primeiros passos neste novo meio de comunicação e, paralelamente, passou a ocupar-se com vários temas de seu interesse, que abrangia Es­tética da Idade Média, Semiótica, Cul­tura Popular, Avantgarde, Comu­nicação Midiática e outros. Milão foi a terceira cidade que o influenciou.

Estudou a obra de James Joyce e a de Jorge Luís Borges. “Foram estes os dois autores que mais me influeciaram”, confirma Eco. Ambos tiveram grande influência em sua posterior literatura, sobretudo em sua coletânea de ensaios “Diário mínimo”. Eco era filósofo e gostava de histórias em quadrinhos; tinha uma apreciável coleção. Devorava romances policiais: George Simenon, Agatha Christie, Arthur Conan Doyle, Francis Durbridge e Edgar Wallace eram seus preferidos. Sem estas leituras, Eco talvez nunca teria chegado a escrever livros como “O Nome da Rosa”, “O Pêndulo de Foucault”, “O Cemitério de Praga”, “Baudolino” e outros.

Em 1962, Eco publicou um trabalho com o título “Obra Aberta”. Trata-se de uma coletânea de ensaios críticos sobre arte, poesia, literatura, música e sobre o papel do leitor. A obra imediatemente chamou atenção nos meios artísticos e foi traduzida em várias línguas. Eco tornou-se personalidade respeitada em círculos culturais. “Obra Aberta” é texto de referência até hoje.

Em 1963, foi criado em Palermo um movimento literário da chamada “Neovanguardia”, denominado “Grup­po 63”. Autores como Nanni Balestrini, Edoardo Sanguineti, A­chille Bonito Oliva, Adriano Spatola, Giorgio Manganelli e Eco faziam parte deste grupo, além de outros intelectuais. O texto “Obra Aberta” causou grande impacto nas discussões téoricas deste grupo.

Enquanto isso, Eco já se desligara da Rai TV e iniciara a trabalhar na Editora Bompiani de Milão como revisor de livros de não-ficção. Foi aí que conheceu a alemã de Frankfurt, Renate Ramge, especialista em design e didática artística, com a qual se casou e teve um casal de filhos.

O revisor de livros de não-ficcão enveredou para a vida universitária. Tornou-se professor em várias universidades, mas só aos 40 anos assumiu a cadeira de Semiótica na Universidade de Bologna, a quarta cidade que o impressionou. Em 1975, apareceu a sua obra “Trattato di semiotica generale”, a “Theory of Se­mio­tics”, em inglês, um livro padrão do ramo até hoje.

Eco se tornou conhecido internacionalmente em 1980 com a publicação de seu primeiro romance, “O Nome da Rosa”, que ganhou as telas do cinema

Eco se tornou conhecido internacionalmente em 1980 com a publicação de seu primeiro romance, “O Nome da Rosa”, que ganhou as telas do cinema

Tornou-se conhecido internacionalmente de um dia para outro em 1980 com a publicação de seu primeiro romance, “O Nome da Rosa”, que atraiu milhões de leitores. Antes, o autor já havia publicado uma série de artigos, monografias, ensaios, comentários e outros trabalhos restritos ao mundo intelectual, o seu verdadeiro mundo. Eco disse ter chegado à literatura de massa “por acaso”.

Ao terminar o manuscrito de “O Nome da Rosa”, Eco mandou preparar 30 cópias e as distribuiu entre 30 de seus estudantes. Disse-lhes que em breve discutiria o conteúdo na classe. Durante o colóquio, um dos estudantes pergunta: “Professor, quantos exemplares deste livro o senhor acha que vai vender?” O mestre cisma, olha para o estudante e após longa pausa responde: “Uns 30, no máximo!”.

Enganou-se o professor. Enga­nou-se também sua editora, a Bom­piani de Milão, que calculara 30 mil exemplares. A obra foi traduzida para 35 línguas e vendida milhões de vezes. Vertida sua obra ao cinema, com Sean Connery no papel de William de Baskerville, Eco tornou-se, a partir de então, personalidade mundialmente conhecida.

O enredo do livro é de uma complexidade labiríntica que faz jus ao labirinto de Dédalo, em Creta. Já o título deu motivo para muitas discussões. Comenta-se que o autor preparara uma lista com dez títulos e a distribuíra entre amigos para que indicassem o mais adequado. A maioria optou por “O Nome da Rosa”. Caso a escolha tenha sido feita por estas vias é de se supor que o autor deve ter explicado aos amigos com antecedência o significado da expressão “o nome da rosa” que, presumivelmente, vem da Idade Média. Ninguém mais que Eco soube disso.

Outros críticos concluem que o título vem de um texto de Jorge Luís Borges que escreveu: “…quem viu o Zahir pronto verá uma rosa: o Zahir é a sombra da rosa e o rasgo do Velo” (“Borges à Contraluz”, Estela Canto, Ed. Iluminatura-Projetos, São Paulo).

Muitos leitores tiveram dificuldades em desvendar os mistérios do enredo no qual William de Ba­skerville e seu noviço Adson de Melk chegam a uma abadia medieval, no norte da Itália, para participar de um conclave que deveria de­ci­dir se a Igreja iria doar parte de sua fortuna. Paralelamente, William de Baskerville é confrontado com uma série de crimes ocorridos dentro da abadia e acaba descobrindo a teia de uma trama diabólica. A bi­blioteca descrita no livro e retratada no filme de mesmo nome, dirigido por Jean-Jacques Annaud e lançado em 1986, é outro labirinto. Eco faz jus ao pseudônimo que escolheu pa­ra suas colunas no jornal “Il Manifesto”. Ainda há pouco, um lei­tor muito franco confessou-me: “Li o livro duas vezes, assisti ao fil­me três vezes e ainda não descobri quem matou aqueles monges todos”.

Sempre achei que “O Nome da Rosa” é uma obra com duas camadas. Para entendê-la é necessário penetrar na primeira, perfurá-la e penetrar na segunda. Enganei-me. Em interessante documentário televisionado em 29 de fevereiro, passado pelo canal TV Arte, um empreendimento franco-alemão, Eco esclarece: “O Nome da Rosa tem sete camadas!”. Tantas? Pode­mos, portanto, duvidar daqueles que dizem ter entendido o enredo na primeira leitura. Neste contexto, um forista escreve: “Se você distribuir o filme a seis pessoas e pedir que te falem sobre o enredo, você acaba ouvindo seis histórias diferentes. Cada um parece que viu um outro filme! É exatamente isto que me fascina em Eco. Esta diversidade de interpretações! Bonito, não é?” Bonito? Talvez. Mas não é correto. O forista esqueceu que Eco deu à obra apenas uma interpretação.

Em “O Nome da Rosa”, Eco faz uma homenagem a dois de seus autores preferidos, Sir Arthur Conan Doyle e Jorge Luís Borges, dos quais busca personagens que engloba no enredo. Em “The Hound of the Baskervilles” (O Cão dos Ba­sker­villes), de Conan Doyle, Sherlock Hol­mes e seu companheiro Dr. Watson procuram desvendar a morte de Charles de Baskerville, que é, pelo menos de nome, o William de Baskerville; Dr. Watson é o noviço Adson de Melk. O personagem Jorge de Burgos de Eco é uma referência, apenas nominal, a seu ídolo Jorge Luís Borges.

O próprio Eco, ciente de que “O Nome da Rosa” é de difícil interpretação aos leitores não familiarizados com a semiótica, medievalismo e alguns escritos de autores da antiguidade grega, decidiu redigir vários artigos e alguns ensaios de conteúdo esclarecedor pertinente.

Em “O Pêndulo de Foucault”, E­co segue com seus enredos labirínticos. Outra história emaranhada com referências à história, à filosofia, à física, à química, à alquimia, numerologia, semiótica, esoterismo, cabala e simbolismo recheada de conspirações e conjurações que abrangem vários séculos da Idade Média. O escritor e compositor britânico Anthony Burgess comentou: “O livro deveria ser vendido como enciclopédia e complementado com um registro”.

Muitos leitores, apesar de não se familiarizarem com a literatura de Eco por completo, mesmo assim, acabam se tornando fãs e começam a se interessar por outros escritos deste multifacetado autor. Num encontro casual na livraria com um cidadão para mim estranho, ouvi a seguinte explicação acerca do “Pêndulo”: “Caso o senhor consiga lê-lo até ao fim, o senhor talvez acabe descobrindo o dia e a hora de sua própria morte!”.

Ao todo, Eco publicou nove obras literárias do gênero não-ficção; 14 obras semiótico-filosóficas e críticas bibliográficas; 20 obras de conteúdo crítico-cultural, além de infindável lista de artigos de jornais, crônicas, colunas, resenhas sobre temas culturais e sobre desenvolvimentos político-sociais da atualidade. Digno de menção é o fato de que Eco, um autor de intelecto professoral, deixou-nos também quatro livros infantis todos ilustrados por Eugenio Carmi. (“La bomba e il generale”, “I tre cosmonauti”, “Gli gnomi di Gnu”, “Tre Racconti”).

Além do título de doutor pela Universidade de Turim, que lhe foi concedido por sua dissertação “A Estética em Tomás de Aquino” em 1954, Eco foi laureado com o título de doutor honoris causa por 39 renomadas universidades ao redor do mundo, dentre as quais se encontra a Universidade Federal do Rio Grande do Sul; além de ter sido membro de 14 academias, todas de renome irrefutável.

Interrogado acerca de seus estudos científicos sobre a Semiótica, Eco mais uma vez explica: “Há coisas que consegui entender, mas precisei de mais de 40 anos para entendê-las e não posso explicá-las em três minutos numa entrevista como esta”.

Eco foi um colecionador. Guar­dava todos os papeis que achava interessantes. Em seu arquivo encontram-se todos os livros e cadernos desde seu primeiro ano escolar. Guardou todas as redações que, no ginásio, teve que redigir (elogiando) Mussolini. Em sua casa de campo, nas cercanias de Rimini, encontram-se centenas de pastas e caixotes com milhares de bilhetes, pequenos, grandes, papéis avulsos, apontamentos. Os estudiosos terão que investir algumas décadas para pesquisar o acervo deixado por esta impressionante personalidade intelectual.

Eco, como já dito inicialmente, criou o seu próprio mundo. Mas ele não foi ciumento como Dédalo. Permitiu que participassemos de seu mundo através da literatura que nos deixou. Por mais que nos esforcemos, em verdade, nunca poderemos desvendar os segredos que giravam nos labirintos da memória criativa deste gênio único.

Eco muitas vezes foi questionado a respeito de seu posicionamento em relação à Igreja: “Fui católico praticante e participei ativamente nas diversas atividades da paróquia de Alessandria até a idade de 22 anos, quando me desliguei da Igreja, o que não significa que me afastei do credo”. Seu posicionamento fica claro com a seguinte explicação: “Quando os homens deixam de crer em Deus, não significa que não creem em nada: creem em tudo”.

É dele também esta pequena história: “Caso algum dia eu chegar ao paraíso e poder encontrar Deus, terei duas possibilidades: caso Ele for aquele Deus rancoroso do Antigo Testamento, viro-me e vou para o inferno. Mas caso for aquele Deus do Novo Testamento, concluo que temos lido os mesmos livros e falamos a mesma língua. Então, sim, nos entenderemos”.

Eco não foi um homem político, mas não deixava de se manifestar quando achava necessário advertir a determinados desenvolvimentos políticos na Itália. Fazia-o através da revista semanal “L’Espresso”, em sua coluna “La bustina di minerva” (O envelope de Minerva), cujos textos críticos não raro beiravam ao sarcasmo. Ideologicamente, Eco foi um representante da esquerda, mas que nunca se deixou envolver por um partido político.

Durante o período de governo de Sílvio Berlusconi, o alvo de Eco foi o próprio Berlusconi sobre o qual não se cansava de dizer e escrever que “é o típico representante da anticultura”. Em virtude da política liberal-populista de seu governo, Eco criou a sociedade cultural “Libertà e Giustizia” (Liberdade e Justiça) junto com outros intelectuais como o germanista Claudio Magris e o físico Giovanni Bachelet, com o objetivo de propiciar à sociedade civil mais informação cultural política em vez de propaganda política partidária, segundo os objetivos de Berlusconi.

Durante o governo de Ber­lus­coni, efetuou-se na Itália uma excessiva concentração no mercado editorial, no qual o próprio Berlusconi era e é o principal empreendedor. O grupo Arnoldo Mondadori Editore S.p.A, o maior grupo editorial do país, com ramificações com as maiores editoras internacionais, absorveu o segundo maior grupo, o RCS-Libri, entre os quais a Bompiani, a editora de Eco. Em consequência, quinze meses antes de sua morte, Eco resolveu criar a “La Nave di Teseo” (O Navio de Teseu), uma nova editora independente que, uma semana após a sua morte, lançou seu último livro: “Pape Satan Aleppe – Crônicas de uma sociedade líquida”. Em um tweet, o Navio de Teseu despediu-se de seu fundador: “Addio Capitano” (Adeus Capitão).

A quinta cidade que influenciou Eco foi Paris, onde tinha um pequeno apartamento no qual costumava passar longas temporadas. Fluente em francês, tinha lá vários amigos intelectuais com os quais discutia suas ideias e passava boa parte de seu tempo vasculhando em antiquários, sempre à procura de livros raros. Conhecia os donos dos antiquários com os quais manteve estreito contato.
Eco foi um homem singular. Foi um dos poucos homens da atualidade que não só falava. Quando falava também tinha algo a dizer. Deixou-nos muitas frases e ditos que, pelo seu conteúdo, são máximas que só podem nascer de intelectos agudos. Eis um exemplo: “Todos os poetas escrevem poesia ruim. Os poetas ruins as publicam, os poetas bons as queimam”.

Além das qualidades intelectuais que possuía, o grande mestre tinha lá também as suas fraquezas: era hedonista, qualidade que para alguns é defeito moral e, para outros, reputação. Ele próprio explica esta sua fraqueza com uma frase sarcástica: “Em matéria de comida não sou exigente. Dou-me por satisfeito se tenho caviar, pizza e pasta (massa) todos os dias”.

Com a fama e reputação que tinha, Eco sempre foi homem de trato simples e agradável, isento de quaisquer caprichos ou esnobismo. Em encontros com amigos, ele era de conversa agradável e espirituosa. Sobre sua enorme casa de 40 cômodos em Rimini, ele costumava dizer: “A casa não é minha; é de meus livros”.

Umberto Eco morreu em 19 de fevereiro, em Milão. Um ato público teve lugar no pátio interno do Castelo Sforzesco. Chamou atenção a simplicidade de seu ataúde, um caixão rústico de tábuas simples, como ele próprio, sem caprichos ou esnobismo.

Dédalo, aquele da Grécia antiga, quase se perdeu no labirinto que criou em Creta. Eco, o Dédalus, fez com que seus leitores se percam nos labirintos imaginários que criou. “Bonito, não é?”, como o disse o forista.

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Adalberto De Queiroz

Um grande e merecido epitáfio para Umberto (Dédalus) Eco que só n’Opção pode o leitor encontrar. Parabéns ao sr. Edgar Welzel, correspondente em Stuttgart, Alemanha.

Adalberto De Queiroz

“Forista” – que não está dicionarizado; é um termo recente, criado para quem participa de fórum.