Uma tomografia da Amazônia humana

Com sua natureza fascinante e temível, e seus habitantes inconclusos, os contos de Ray Cunha têm entre si uma espécie de amarração oculta, um cipoal encoberto pela floresta de palavras

Marcelo Larroyed
Especial para o Jornal Opção

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Ray Cunha, autor de “Na Boca do Jacaré-Açu — A Amazônia Como Ela É”

“Na Boca do Jacaré-Açu — A Ama­zônia Como Ela É” (Ler Editora, 153 páginas), de Ray Cunha, é o terceiro volume da trilogia de contos que começou com “A Grande Farra” e prosseguiu com “Trópico Úmido — Três Contos Amazônicos”, e que tem como espinha dorsal tanto o Inferno Verde quanto as metrópoles da Hileia. São 14 histórias curtas, ambientadas em Belém, personagem subjacente no conjunto dos contos, e a quem o autor dedica o livro (“Cidades são como mulheres. Este livro é para Santa Maria de Belém do Grão Pará”).

“O fim da tarde, imobilizada por nuvens imóveis, e pesada como chumbo, lembrava um tumor…” A médica pressionou o botão, e a máquina me deslizou para dentro do seu túnel branco, onde eu ficaria imóvel por vinte minutos, enquanto me escaneavam o crânio. Então, decidi por escrever esta resenha. “O fim da tarde, imobilizada por nuvens imóveis, e pesada como chumbo, lembrava um tumor…” Assim começa o primeiro conto de “Na Boca do Jacaré-Açu”, uma tomografia da Amazônia, que tem como resultado imagens em verde tisnadas de coloração humana.

Não é bem o túnel tomográfico: parecemos presos na boca verde do jacaré simbólico, mas a imensidão da floresta e seu universo esplendoroso e ilimitado em fauna e flora são pequenos para conter as paixões e dramas do ser humano. Na máquina de tomografia, ficamos encapsulados no túnel branco. Vistos do espaço, na Terra somos prisioneiros gravitacionais da esfera azul. Mas a Amazônia de Ray Cunha é o Inferno Verde.
É certo, não há o coaxar repetitivo da máquina-mata, com seus sapos-bois roufenhos e metálicos. Nem a natureza esplêndida e glamourosa da “National Geogra­phic”, “macumba pra turista”. Mas eis que a chuva vem e volta nas páginas amazônicas de Ray. É o Trópico Úmido chorando, suando, gozando sobre, pelos e com os humanos que se intrometem, abruptos, na obra.

Os personagens dessa outra dimensão, amazônica, surgem familiarizados conosco e ao mesmo tempo estranhos, desafiadores, ridículos ou exóticos. Pois não estão ali o atormentado Agostinho, o dr. Magalhães e seus impagáveis mugidos, a saborosa Frênia, lânguida desde a pia batismal? E a mitológica fauna humana: um menino com “olhinhos de tubarão e nariz de porco”; a mulher “com aspecto de lobo”; outra mulher “que cacareja”? Humanos, demasiado… Contra o pano verde do cenário vegetal vemos a selvageria urbana do tráfico de meninas intercalada com dramas freudianos/shakespearianos, e de súbito, mas suavemente, nos acaricia a narrativa de pequenos flertes e sutis amores.

Para entrar na Amazônia e no mundo fantástico de Ray Cunha há que se acolher seus símbolos mais caros: as zínias coloridas, as rosas colombianas, o perfume inconfundível do Chanel nº 5, a tapioquinha e Cerpinha enevoada, o Ver-O-Peso. O autor planta esses elementos exóticos no Inferno Verde, e nele planta o próprio homem. Como se fosse difícil para o humano ser amazônico. Ou se forçasse a escolha: humano ou amazônico? O ser humano viceja, mas há algo errado, desconexo ou incompleto.

A Amazônia não é “o” mundo todo, mas “um” mundo todo. Um outro mundo. O planeta Amazônia que não é azul como a Terra, mas verde, terrivelmente verde, ou branco tal qual o medo de um tumor. Com sua natureza fascinante e temível, e seus habitantes inconclusos, os contos têm entre si uma espécie de amarração oculta, um cipoal encoberto pela floresta de palavras, e no qual se esconde o temível jacaré-açu.

Na juventude, o escritor Ray foi pugilista amador. Certamente não era o mão de marreta. Vejo em suas luvas ágeis o estilo da pena do escritor: jabs repetitivos, incansáveis — não há nocaute, mas desgaste. Uma sequência contínua, bem encaixada, pode minar o adversário e lhe impor a derrota silenciosa. O tumor. O jacaré-açu.

Marcelo Larroyed é mestre em Teoria Literária pela Universidade de Brasília.

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