Uma sátira de Horácio traduzida por Guilherme Gontijo Flores

Horácio (65 a.C. – 8 a.C.), ou Quintus Horatius Flaccus, foi um dos maiores poetas da Roma Antiga. Contemporâneo do autor da Eneida, Virgílio, Horácio é conhecido por suas odes e sátiras. Entre estas últimas, está a 1.9, em que se destaca o recurso da autoironia 

Horácio em pintura de Giacomo Di Chirico

Guilherme Gontijo Flores
Especial para o Jornal Opção

Nesta última da tríade anedótica, o primeiro sermo (conversa) propriamente dito do livro dos Sermones/Satirae de Horácio, ele narra como teria sido assediado por um poeta arrivista interessado em entrar para o círculo de Mecenas; um inimigo fácil pelo mau gosto, preferência de quantidade sobre qualidade, falta de escrúpulos, etc. Nesta sátira, por meio de um procedimento autoirônico (já que não consegue se desvencilhar facilmente de seu interlocutor, tal como Priapo falha no poder de seu discursos em 1.8), Horácio mostra o complexo jogo de poderes na poesia romana, ao mesmo tempo em que tenta demonstrar que o círculo de Mecenas é diverso do resto. No entanto, é difícil não ter a impressão de que o arrivista ecoa exatamente o que se falaria de Horácio, segundo ele mesmo nos diz na sátira 1.6; ou seja, o arrivista é potencialmente o próprio Horácio no passado. Assim, depois da possível “limpeza” política de 1.7, cultural de 1.8, Horácio nos mostra também o embate e a disputa literária em Roma. Restaria nos perguntarmos então por que somos levados a concordar com Horácio.

1.9

……….. Ibam forte uia Sacra, sicut meus est mos,
nescio quid meditans nugarum, totus in illis:
accurrit quidam notus mihi nomine tantum
arreptaque manu “Quid agis, dulcissime rerum?”
“Suauiter, ut nunc est” inquam, “et cupio omnia quae uis.”
Cum assectaretur, “Numquid uis?” occupo. At ille
“Noris nos” inquit; “docti sumus.” Hic ego “Pluris
hoc” inquam “mihi eris.”
……………………………. Misere discedere quaerens
ire modo ocius, interdum consistere, in aurem
dicere nescio quid puero, cum sudor ad imos
manaret talos. “O te, Bolane, cerebri
felicem!” aiebam tacitus, cum quidlibet ille
garriret, uicos, urbem laudaret. Vt illi
nil respondebam, “Misere cupis” inquit “abire,
iamdudum uideo, sed nil agis; usque tenebo.
Persequar hinc quo nunc iter est tibi.” “Nil opus est te
circumagi. Quendam uolo uisere non tibi notum;
trans Tiberim longe cubat is prope Caesaris hortos.”
“Nil habeo quod agam et non sum piger: usque sequar te.”
Demitto auriculas, ut iniquae mentis asellus,
cum grauius dorso subiit onus.
……………………………………….. Incipit ille:
“Si bene me noui, non Viscum pluris amicum,
non Varium facies. Nam quis me scribere pluris
aut citius possit uersus? Quis membra mouere
mollius? Inuideat quod et Hermogenes, ego canto.”
Interpellandi locus hic erat: “Est tibi mater,
cognati, quis te saluo est opus?” “Haud mihi quisquam;
omnis composui.” “Felices! Nunc ego resto.
Confice; namque instat fatum mihi triste, Sabella
quod puero cecinit mota diuina anus urna:
‘Hunc neque dira uenena nec hosticus auferet ensis
nec laterum dolor aut tussis nec tarda podagra:
garrulus hunc quando consumet cumque; loquaces,
si sapiat, uitet, simul atque adoleuerit aetas.’”
……….. Ventum erat ad Vestae, quarta iam parte diei
praeterita, et casu tum respondere uadato
debebat, quod ni fecisset, perdere litem.
“Si me amas” inquit, “paulum hic ades.” “Inteream si
aut ualeo stare aut noui ciuilia iura,
et propero quo scis.” “Dubius sum, quid faciam” inquit,
“tene relinquam an rem.” “Me, sodes.” “Non faciam” ille,
et praecedere coepit. Ego, ut contendere durum
cum uictore, sequor. “ Maecenas quomodo tecum?”
hinc repetit: “Paucorum hominum et mentis bene sanae;
nemo dexterius fortuna est usus. Haberes
magnum adiutorem, posset qui ferre secundas,
hunc hominem uelles si tradere. Dispeream, ni
summosses omnis.” “Non isto uiuimus illic
quo tu rere modo. Domus hac nec purior ulla est
nec magis his aliena malis. Nil mi officit” inquam,
“ditior hic aut est quia doctior; est locus uni
cuique suus.” “Magnum narras, uix credibile.” “Atqui
sic habet.” “Accendis, quare cupiam magis illi
proximus esse.” “Velis tantummodo, quae tua uirtus,
expugnabis; et est qui uinci possit, eoque
difficilis aditus primos habet.” “Haud mihi deero:
muneribus seruos corrumpam; non, hodie si
exclusus fuero, desistam; tempora quaeram;
occurram in triuiis; deducam. Nil sine magno
uita labore dedit mortalibus.”
……………………………………….. Haec dum agit, ecce
Fuscus Aristius occurrit, mihi carus et illum
qui pulchre nosset. Consistimus. “Vnde uenis?” et
“Quo tendis?” rogat et respondet. Vellere coepi
et pressare manu lentissima bracchia, nutans,
distorquens oculos, ut me eriperet. Male salsus
ridens dissimulare, meum iecur urere bilis.
“Certe nescio quid secreto uelle loqui te
aiebas mecum.” “Memini bene, sed meliore
tempore dicam. Hodie tricesima sabbata: uin tu
curtis Iudaeis oppedere?” “Nulla mihi” inquam
“religio est.” “At mi. Sum paulo infirmior, unus
multorum: ignosces, alias loquar.” Huncine solem
tam nigrum surrexe mihi? Fugit improbus ac me
sub cultro linquit. Casu uenit obuius illi
aduersarius et “Quo tu, turpissime?” magna
inclamat uoce, et “Licet antestari?” Ego uero
oppono auriculam. Rapit in ius: clamor utrimque,
undique concursus. Sic me seruauit Apollo.


1.9

……….. Eu cruzava a Via Sacra, como de praxe,
só pensando em quaisquer bagatelas, nelas imerso,
quando aparece um figura que eu mal conhecia de nome
pega na mão e “Como vai, meu doce parceiro?”
“Suave que só”, respondo, “e quero que tenha o que queira.”
Como ele insiste, irrompo “Diga o que quer.” E retorque
“Já nos conhece, somos cultos.” Nisso retruco
“Muito te estimo por tudo.”
……………………………………….. Coitado, procuro uma fuga,
logo aperto o passo, paro por vezes, sussurro
coisas no ouvido do escravo, sinto o suor escorrendo
pela canela, me digo calado “Grande Bolano,
sorte é ter o teu cérebro!”, e ele tagarelando
sobre tudo, louva as ruas e Roma; mas como
nada falo, diz “Coitado, procura uma fuga,
logo vi; mas não consegue, então continuo,
vou com você até o destino.” “Não se preocupe,
deixe: quem vou ver não é dos teus conhecidos,
mora longe, pra lá do Tibre, nos hortos de César.”
“Hoje estou à toa, não tenho preguiça, te sigo.”
Baixo minhas orelhas que nem um jumento irritado
quando aumenta o peso no lombo.
…………………………………………………… Mas ele começa:
“Se me conheço bem, logo serei teu amigo
mais do que Visco ou Vário. Pois quem versos escreve
mais veloz do que eu? E quem remexe seus membros
mais molenga? Se canto, Hermógenes morre de inveja.”
……….. Eis uma chance de quebra. “Tem por acaso um parente,
mãe ou alguém que dependa do teu bem-estar?” “Enterrei-os
todos” “Felizes deles! E eu fiquei nesta vida.
Finde o serviço! Chega o dia fatal que a sabélia
velha mexendo na urna cantou quando eu era menino:
‘Nem terríveis venenos, nem espada inimiga,
tosse, pleurisia ou gota podem levá-lo:
um tagarela o irá consumir; e se sabe, que evite
todo e qualquer falastrão assim que passarem os anos.’”
……….. Nisso passa das dez, chegamos ao templo da Vesta,
quando por sorte aparece uma intimação que o convoca:
se ele não responder no ato, perde o litígio.
“Por amor, me ajude um pouquinho”, me diz. “Que eu pereça,
se conheço direito civil: estou fraco das pernas,
e inda tenho aquela pressa.” “Agora estou hesitante
entre você e o litígio” “ Tranquilo, me deixe.” “Não posso”,
diz e avança. Sem força no embate dum duro guerreiro
vou seguindo. “Como está com você o Mecenas?”
ele retoma, “Tem poucos amigos e mente saudável;
como sabe usar da sorte!  Você com certeza
pode ter um ajuda com papel secundário
caso apresente esse homem direto pro grupo. Que eu morra
se você não suplanta o resto.” “Não convivemos
como você imagina. Não vejo casa mais pura,
livre dessas intrigas e pouco me importa”, lhe digo,
“se há alguém mais rico ou culto: todos recebem
seu lugar.” “Que lindo — e pouco crível.” “Mas saiba
que é assim.” “Acendeu meu desejo de enfim conhecê-lo
mais de perto.” “Basta querer e, com tanta virtude,
vai conquistar, pois ele é vencível, por isso parece
tão esquivo ao primeiro encontro.” “Nessa eu acerto:
com presentes vou corromper os escravos; e se hoje
for expulso, não desisto, tento no tempo,
surjo na esquina, acompanho pra casa: nada na vida
vem sem esforço aos mortais.”
…………………………………………. E enquanto prossegue, aparece
meu querido Arístio Fusco que já conhecia
bem o sujeito. Paramos. “Vem daonde?” e “Aonde
vai?” pergunta e responde. Tento de pronto apertá-lo
pelas mangas, pelo braço, com gestos e olhares
peço apenas resgate. Porém o malvado sorrindo
finge não entender: meu fígado ferve de bile.
“Sei que você queria falar uma coisa comigo,
mais privado.” “Lembro bem, mas depois eu te conto
noutro momento: pois hoje será o trigésimo Sabbath,
quer peidar nos judeus circuncisos?  “Não tenho nenhuma
religião.” “Porém eu tenho: sou um dos tantos
homens fracos, perdoe, falamos depois.” Poderia
dia tão negro nascer para mim? Mas foge o cretino,
deixa-me ao fio da faca.
…………………………… Mas por acaso nos chega
seu litigante e “Onde vai, seu feio?”, conclama a
plenos pulmões, “E posso chamar pra dar testemunho?”
Mostro as orelhas. Nisso o leva à corte e em clamores
todos os cercam. Assim me salvei por graça de Apolo.

Notas do tradutor:

v. 1 A Via Sacra era a mais antiga rua de Roma, partia do San­tuário de Silênia, perto de onde hoje está o Coliseu, e ia até o Foro.

v. 3: Importante observar que o nome do interlocutor nunca aparece no poema, o que nos leva a pensar que, mais do que uma sátira pessoal ao indivíduo, temos aqui um poema que critica uma figura típica da sociedade romana, ao modo dos Caracteres de Teofrasto. E mais, Horácio em nenhum momento adjetiva seu interlocutor, que permanece inteiramente um construto do leitor a partir da narrativa dialogada horaciana.

v.v 11-12: Não sabemos que seja Bolano; talvez um poeta satírico mais violento que Horácio.

v. 18: Os jardins, além do Tibre, tinha sido deixados por Júlio César para o povo romano (cf. Suetônio, César 83).

vv. 22-3: Víbio Visco, equestre amigo de Otaviano. Vário era membro do círculo de poetas em torno de Mecenas; ele foi um dos editores póstumos da Eneida de Virgílio.

vv. 23-5: O interlocutor parece nem conhecer a poesia de Horácio, já que se vangloria exatamente daquilo que o poeta já mostrou detestar nas primeiras sátiras, cf. por exemplo 1.4.12 ou 1.4.72. Hermógenes Tigélio de Sardes foi um cantor famoso admirado por Júlio César e Cleópatra e, postariormente, também por Augusto. Ele foi atacado por Calvo num verso que nos chegou: Sardi Tigelli putidum caput uenit (“E a testa podre de Tigélio já chega”); essa figura atravessa o primeiro livro satírico de Horácio.

vv. 29-30: Sabélia é referência étnica que engloba sabinos e samnitas, ao mesmo tempo em que evoca o nome de Sibila, para a vidente que anuncia o fim do poeta Horácio.

v. 25: O templo da Vesta ficava na parte leste do Foro, talvez próximo da estátua de Mársias e de Apolo?

v. 61-72: Arístio Fusco, poeta cômico e gramático, amigo de Horácio, também aparece nas Odes 1.22 e nas Epístolas 1.10. A referência ao sabá é provavelmente non-sense; mas Fusco aproveita para zombar do desinteresse religioso de Horácio, que agora o impede de se salvar. Seja como for, há muita discussão filológica sobre a passagem, para tentar determinar a data do acontecimento; sem consenso dos comentadores. O que parece mais interessante, a meu ver, é que Horácio aqui não é salvo pelo amigo, como ele mesmo supunha na terceira sátira, ou seja, o poeta autoironicamente se desconstrói, enquanto se mostra fraco na violência satírica e desamparado pelos amigos.

vv. 76-7: Era costume arcaico romano que um presente, quando aceitasse servir de testemunha num caso, oferece sua orelha para o toque do litigante.

v. 78: Apolo é o deus da lei e da ordem, tinha uma estátua no Foro, mas sobretudo aparece aqui como protetor dos poetas; mas o verso também ecoa a expressão homérica τòν δ’ ἐξήρπαξεν ’ Απόλλων (Ilíada 20.443), que já havia sido parodiada por Lucílio no seu sexto livro. Na passagem homérica, Heitor é salvo de Aquiles por uma nuvem criada por Apolo; podemos então imaginar que Horácio, um guerreiro mais fraco (como ele mesmo sugere nos vv. 42-3), só pode escapar por intervenção divina. Ironicamente, sabemos que Heitor será depois derrotado; podemos pensar que, no fim, Horácio também não terá escapatória às palavras da velha sabélia?

Guilherme Gontijo Flores (Brasília, 1984) é poeta, tradutor e professor na Universidade Federal do Paraná (UFPR).

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