por Adelto Gonçalves*

I

O conto é um autêntico paradigma da “arte do implícito”, como preconizava o saudoso professor Massaud Moisés (1928-2018) em suas memoráveis aulas na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo (USP), pois, como observa também em A criação literária. Prosa II (São Paulo, Editora Cultrix, 2005, p. 33), isto pressupõe que o “eu” do narrador esteja presente, ainda quando a narrativa está situada na terceira pessoa. Afinal, como ensinava o mestre, “o implícito consiste na recusa do realismo fotográfico, em favor de notações sutis em que a superfície das coisas, das palavras e dos acontecimentos, é a dimensão visível de uma esfera íntima, inacessível ao olhar e ao registro positivo”.

Este introito vem a propósito do conto que abre o livro O acorde insensível de Deus (São Paulo, Editora Laranja Original, 2022), de Edmar Monteiro Filho, e dá título à obra. Trata-se de um texto extenso, de 60 páginas, que poderia ser definido também como uma novela, mas que, acima de tudo, serve para mostrar a maturidade literária a que o seu autor chegou, depois de publicar vários livros de contos e um romance, além de ganhar vários prêmios literários e alcançar o doutoramento em Teoria e História Literária pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em 2018. 

O enredo do conto que se passa na cidade de Amparo, estância mineral localizada na região metropolitana de Campinas e ainda hoje município que concentra muitas fazendas de café e indústrias, traz como alter ego do autor um funcionário público responsável por um museu municipal que, atuando como se guiasse um espetáculo, mostra a pulsação da vida que segue subjacente à realidade. Em outras palavras: o relato se desenrola como um mecanismo autogerido, independente de um criador externo.

No museu que homenageia Bernardino de Campos (1841-1915), advogado que foi presidente do Estado de São Paulo por duas vezes (1892-1896 e 1902-1904) e ministro da Fazenda (1896-1898), alto prócer republicano e grande cafeicultor, o personagem é vítima de uma calúnia que corre pela cidade e que chegou a virar notícia num jornal local e alcançou até a grande imprensa paulista: a de que alguns quadros teriam desaparecido da Câmara dos Vereadores, quando essas telas sempre teriam estado expostas no citado museu. 

Sem ter muito o que fazer, o personagem fica a escarafunchar caixas recheadas de cartas e papéis velhos em profusa desorganização. Através dessas cartas, a uma época ainda pré-digitalização, o arquivista reconstrói o passado de uma família de cafeicultores, dona da fazenda Moinho Velho e, depois, da fazenda Pedra Bela, que, praticamente, domina a região entre o final do século XIX e o início do XX.

Dono de um estilo preciso no qual, raramente, encontra-se algum erro gramatical, Edmar Monteiro Filho entrelaça à história daquela família poderosa à própria história do Brasil nos primeiros anos da República, ao mesmo tempo em que o personagem conta a sua própria odisseia de pai, que tenta compreender a relação caótica que tem com um filho, que acaba vítima do consumo desordenado de drogas. 

II 

No prefácio que escreveu para esta obra, a escritora e psicóloga Suzana Montoro (1957), autora do romance Os hungareses (Ofício das Palavras, 2011), do livro de contos Exilados (2003) e dos livros infanto-juvenis Nem eu nem outro (2015) e O menino das chuvas (2000), entre outros, observa que Edmar Monteiro Filho “vai criando suas histórias como se compusesse um mosaico em que o arranjo das pedras dispostas revela no final o desenho da perfeita condução do texto”, acrescentando, com percuciência, que. sua riqueza está nas imagens que cria. 

De fato, como observa a escritora, há uma pluralidade de detalhes sensoriais que enreda o leitor e o faz se sentir presente na cena. Sem contar que a linguagem do contista é precisa e fluida, ainda que exija do leitor uma atenção especial para acompanhar o fio da narrativa. É o que se pode constatar neste trecho em que o narrador, como reconhecendo o fracasso em sua missão de educar o filho, depois da morte da esposa, reconhece, quase ao final do conto, a sua impotência diante do destino:

(…) Ajudá-lo é somente estar ao seu lado enquanto dorme e me ouve, como se ainda fosse possível levá-lo de volta comigo para onde nos reconhecemos. Olhando-o assim, relembrando as coisas que me disse, vestido como essa pessoa nova que se tornou desde que decidiu ser sozinho, compreendo que é tarde, já estamos separados de modo irreconciliável. O que me traz certo alívio. (…)

III

Nos demais contos, por meio do testemunho de diferentes narradores, constata-se também o decantar do cotidiano nas vidas de pessoas comuns, como, por exemplo, no conto “Viúvas” em que se sabe da existência de um vendedor de montepio que busca clientes com sofreguidão, “andando de porta em porta, vendendo aquilo em que não confiava a quem não desejava comprar”. No conto “Retrato de Rashmila”, igualmente extenso, descortina-se, em cenário indiano, uma história de amor desviada por crenças e desejos alheios, envolvendo uma protagonista vítima de uma fatalidade aos quatro anos de idade. 

Já em “Medicina preventiva”, o que se lê é a luta de um paciente em busca de um diagnóstico e sua ansiedade diante de tantos exames exigidos pelo médico que suspeita de alguns sinais preocupantes e o perturba ainda mais com tantas perguntas, enquanto em “O funcionamento das ampulhetas” acompanha-se a ansiedade de uma família diante da necessidade de deixar uma velha casa e alguns problemas graves para escolher um apartamento e fazer dele o seu novo lar.

Em “Confiança”, conto igualmente de grande extensão, com mais de 20 páginas, o que se lê é o desenrolar do dia a dia de uma família, seus pequenos e grandes dramas. Por fim, em “Ralo”, conto de apenas duas páginas, acompanha-se o drama de um personagem que vive um sentimento de angústia que pode levar ao suicídio, essa vontade de “encerrar tudo de uma vez”. 

Enfim, com um estilo marcado pela oralidade, que não deixa de se envolver pela análise ou pelo filosofismo, o autor oferece tudo aquilo que o bom leitor procura, ou seja, um texto marcado pelo sabor da conversa descontraída.

IV

Edmar Monteiro Filho (1959), historiador, é também mestre em História e Teoria Literária pela Unicamp.  Escreve e publica desde 1980. Possui graduação em Ciências Biológicas Modalidade Médica pela Universidade Federal de São Paulo (1980) e em História pela Fundação Municipal de Ensino Superior de Bragança Paulista (2007), com especialização em História Cultural por esta instituição (2010).  Em seu doutoramento, escreveu a tese “O cronista, o menino, o mentiroso e outros heróis: Graciliano Ramos e o Estado Novo”. Em 2013, produziu a dissertação de mestrado “O major esquecido: Histórias de Alexandre, de Graciliano Ramos”. 

Recebeu os prêmios literários Guimarães Rosa (1997), promovido pela Rádio França Internacional, com o conto “Primeiro de janeiro é o dia dos mortos”; Cruz e Souza de Literatura, com o livro Aquários (contos, Fundação Catarinense de Cultura, 2000); Prêmio Cidade de Belo Horizonte, da Fundação Municipal de Cultura de Belo Horizonte; e Prêmio Luiz Vilela, da Fundação Cultural de Ituiutaba-MG. Fita azul (São Paulo, Editora Babel, 2011), seu primeiro romance, foi um dos finalistas do Prêmio São Paulo de Literatura de 2012.

Publicou ainda Este lado para cima (poesia, edição de autor, 1993), Halma húmida (poesia, edição do autor, 1997), Às vésperas do incêndio (contos, edição do autor, 2000), com o qual conquistou o Prêmio Cidade de Belo Horizonte, Que fim levou Rick Jones? (contos, edição de autor, 2010) e   Azande (novela, edição de autor, 2004). É autor também de O rei condenado à morte & outras histórias (Guaratinguetá-SP, Editora Penalux, 2015), contos, e Atlas do impossível (Guaratinguetá-SP, Editora Penalux, 2017), contos, semifinalista do Prêmio Oceanos.

Nascido na cidade de São Paulo, mora em Amparo, região metropolitana de Campinas, desde a infância, mas, como funcionário do Banco do Brasil, viajou por quase todo o País recolhendo relatos e experiências que depois utilizaria em seus textos literários. Foi em jornais de Amparo que começou a publicar seus textos em 1981, ano em que ganhou seu primeiro prêmio literário com o conto “Maré vermelha”, na cidade de Araguari-MG. Desde 1997, ministra oficinas literárias de contos em várias cidades. Assina a coluna “Lereias” em que faz resenhas de livros no semanário impresso A Tribuna, de Amparo. É colaborador do Jornal Opção, de Goiânia.

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O acorde insensível de Deus, contos, de Edmar Monteiro Filho, com prefácio de Suzana Montoro. São Paulo: Editora Laranja Original, 180 páginas, R$ 45,00, 2022. Site: laranjaoriginal.com.br E-mail: [email protected]

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*Adelto Gonçalves, jornalista, mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana e doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), é autor de Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; Publisher Brasil, 2002), Bocage – o perfil perdido (Lisboa, Editorial Caminho, 2003; Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – Imesp, 2021), Tomás Antônio Gonzaga (Imesp/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em terras d´el-rei na São Paulo Colonial (Imesp, 2015), Os vira-latas da madrugada (José Olympio Editora, 1981; Letra Selvagem, 2015) e O reino, a colônia e o poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo 1788-1797 (Imesp, 2019), entre outros.